Fábio Romeiro Gullo (1980, Santos, SP, Brasil) é escritor, tradutor, crítico literário e artista multimídia, com textos e trabalhos visuais publicados em sites, blogs e revistas eletrônicas.
Abraçamo-nos na chuva fina, nesta praia cujo nome indígena teria lugar num poema de palavras e rimas raras, não aqui, nalgum ponto do litoral norte, nalgum instante entre o agora do texto e o tempo em que emergia do mar, deste Atlântico sempre o mesmo, o primeiro ser a se arrastar solitário, sem poesia só desejo na areia outrora cascalho.
Mas então um abraço é tudo o que temos, apesar dos braços cansados. Por tudo o que perdemos, por tudo o que perderemos - por todos os espelhos quebrados em busca do inatingível fundo opaco -, tornamo-nos cinza com o passar dos milênios, não sentimos falta de um poente, desmanchamos na água de onde viemos.
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mar
mar ave ilha
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cela-canto
poetas peixes pré-históricos praias remotas
à noite luas de estátuas gatos olhos antigos a antiga cidade dos telhados
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tigres
o cosmo são tigres à caça de Williams Blake
um fósforo fascina um poema que escreve um poeta que o vê tocar breve a eternidade da treva
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o(m)nibus
no ponto (de ônibus) um pneu círculo galvanizado pára úmido
ferramenta de levar gente de ponto a outro no espaço (ligue os pontos e terá a cidade) eventualmente a ferramenta esmaga um corpo no asfalto
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prótese
desmontável protético impenetrável o manequim não pode ser particula rizado (plástico é plástico)
melhores ventríloquos a TV e o rádio fazem companhia àqueles que maqueiam os manequins e na falta de luz sentem que ausências se instalam e os elevadores descansam na solidão das escadas
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homorte
desaprumo dragão de veias sangue dissolvido na chuva escorre na sarjeta