sarro (à surdina)
não tem almíscar seu cerrado
entre dois morros ermos
(dessas terras fui pioneiro) alvos
onde cílios voleiam luz
(braços dados
conheço-a desperta
quando sinto seus cílios varrendo
os pelos do meu peito),
sua voz apesar da lua
e da rede elétrica
(veias e artérias à noite
forca sem cadafalso de dia)
sempre a morte de esguelha
como se não a pudéssemos advinhar
mordida pelas décadas (espero)
de sarro (i. é., nosso amor)
que lhe tiraremos ainda à surdina
poeira
após o princípio foi a palavra
caindo sobre tudo
partícul-
a
partícula
letr-
a
letra
até que nada restasse
à vista
exceto a língua
cobrindo o mundo
camad-
a
camada
opaca como poeira
uma viagem solitária
apesar
da paisagem
a poesia su-
porta o pesar
por só estar-
mos
de passagem
âncoras
Uma mãozinha fofa,
uns labiozinhos molhados sempre limpos,
uma vozinha que já a descreve o diminutivo;
irmão, irmã, filho -
então um atropelamento imaginado e nada mais,
mentira,
lágrimas irreais de verdadeiras
por não terem a coragem de reconhecer o corpo -
abismo, buraco, poço -,
tampouco de imaginá-lo desfigurado:
ficaram fotos, filmes
e sua significância para a lembrança -
fêmea efêmera -,
âncoras no mar da infância.
ídolos
Mais que fulguram,
os deuses figuram:
pinturas,vitrais,
frequentemente ex-culturas - pés de barro - cujos
olhos encerram onisciência de ótica
e cuja voz ouvimos em respeitoso
e sagrado silêncio,
ou talvez:
e cuja voz ouvimos, repletos de respeito:
o sagrado silêncio...
estação qualquer
ontem meu amigo se atirou nos trilhos do trem
e não houve quem se atirasse postumamente
nem para salvá-lo
nem para imitá-lo
covardes
compareceram ao enterro, porém
exceto os mais covardes dentre
eu o vi se atirar e não me atirei
tampouco compareci ao seu enterro
morrendo de medo dos mortos, como morro
mas atirarei flores aos trilhos da estação ano sim ano não
sabendo que, como todos, há muito me atirei de uma estação qualquer
e apenas caio como um lenço ao vento
janelas
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so
(u)
(in)
certo
(de)
que
(m)
(não)
so
u
obturador (exposição longa)
abrir e não fechar mais as pálpebras (não
se abrem os olhos, assim como não se abrem
portas), ver o vaievem de pessoas até que
se tornem todas um só feixe furta-cor
até que se de(s)corem todos os preços e os
ciclos sazonais das promoções e últimas tendências
até que se compre(enda) a perimtranscendência
imóvel do concreto das fundações e do vidro da vitrine
onde se pode ve(nde)r até a própria aparência
Usar
usar carvão
para escre
ver
a
trev(id)a
trans
lúcida
trans
(o)cedental
i(r)ra
cio
(a)nal
oceânica
pup
πla