Fábio Romeiro Gullo

Fábio Romeiro Gullo

n. 1980 BR BR

n. 1980-08-08, Santos

Perfil
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Biografia
Fábio Romeiro Gullo (1980, Santos, SP, Brasil) é escritor, tradutor, crítico literário e artista multimídia, com textos e trabalhos visuais publicados em sites, blogs e revistas eletrônicas.

Poemas

47

sarro (à surdina)



não tem almíscar seu cerrado
entre dois morros ermos
(dessas terras fui pioneiro) alvos
onde cílios voleiam luz
(braços dados
conheço-a desperta
quando sinto seus cílios varrendo
os pelos do meu peito),
sua voz apesar da lua
e da rede elétrica
(veias e artérias à noite
forca sem cadafalso de dia)
sempre a morte de esguelha
como se não a pudéssemos advinhar
mordida pelas décadas (espero)
de sarro (i. é., nosso amor)
que lhe tiraremos ainda à surdina

536

poeira



após o princípio foi a palavra
caindo sobre tudo

partícul-
a
partícula

letr-
a
letra

até que nada restasse
à vista
exceto a língua
cobrindo o mundo

camad-
a
camada

opaca como poeira

487

uma viagem solitária



apesar
da paisagem
a poesia su-
porta o pesar
por só estar-
mos
de passagem

560

âncoras



Uma mãozinha fofa,
uns labiozinhos molhados sempre limpos,
uma vozinha que já a descreve o diminutivo;
irmão, irmã, filho -
então um atropelamento imaginado e nada mais,
mentira,
lágrimas irreais de verdadeiras
por não terem a coragem de reconhecer o corpo -
abismo, buraco, poço -,
tampouco de imaginá-lo desfigurado:
ficaram fotos, filmes
e sua significância para a lembrança -
fêmea efêmera -,
âncoras no mar da infância.

571

ídolos



Mais que fulguram,
os deuses figuram:
pinturas,vitrais,
frequentemente ex-culturas - pés de barro - cujos
olhos encerram onisciência de ótica
e cuja voz ouvimos em respeitoso
e sagrado silêncio,
ou talvez:
e cuja voz ouvimos, repletos de respeito:
o sagrado silêncio...

540

estação qualquer



ontem meu amigo se atirou nos trilhos do trem
e não houve quem se atirasse postumamente
nem para salvá-lo
nem para imitá-lo
covardes

compareceram ao enterro, porém
exceto os mais covardes dentre

eu o vi se atirar e não me atirei
tampouco compareci ao seu enterro
morrendo de medo dos mortos, como morro

mas atirarei flores aos trilhos da estação ano sim ano não
sabendo que, como todos, há muito me atirei de uma estação qualquer
e apenas caio como um lenço ao vento

535

janelas


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573

se


se
(não)
sei
que
(m)
(não)
so
(u)
(não)
so
(u)
(in)
certo
(de)
que
(m)
(não)
so
u

579

obturador (exposição longa)


abrir e não fechar mais as pálpebras (não
se abrem os olhos, assim como não se abrem
portas), ver o vaievem de pessoas até que
se tornem todas um só feixe furta-cor
até que se de(s)corem todos os preços e os
ciclos sazonais das promoções e últimas tendências
até que se compre(enda) a perimtranscendência
imóvel do concreto das fundações e do vidro da vitrine
onde se pode ve(nde)r até a própria aparência
551

Usar

usar carvão
para escre
ver

a
trev(id)a
trans

lúcida
trans
(o)cedental

i(r)ra
cio
(a)nal

oceânica
pup
πla
376

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