Lista de Poemas

bolha de sabão



..........................................................

..........................................................

do ar ao ar ......................

a bolha .............

nada ..........

na luz ..............

crepuscular ..........................

............................................................

............................................................
559

uma viagem solitária



apesar
da paisagem
a poesia su-
porta o pesar
por só estar-
mos
de passagem

556

cela-canto



poetas
peixes pré-históricos
praias remotas

à noite
luas de estátuas
gatos
olhos antigos
a antiga cidade dos telhados

581

o(m)nibus



no ponto (de ônibus)
um pneu
círculo galvanizado
pára
úmido

ferramenta de levar gente de ponto a outro
no espaço (ligue os pontos e terá a cidade)
eventualmente a ferramenta esmaga um corpo
no asfalto

596

poeira



após o princípio foi a palavra
caindo sobre tudo

partícul-
a
partícula

letr-
a
letra

até que nada restasse
à vista
exceto a língua
cobrindo o mundo

camad-
a
camada

opaca como poeira

484

estação qualquer



ontem meu amigo se atirou nos trilhos do trem
e não houve quem se atirasse postumamente
nem para salvá-lo
nem para imitá-lo
covardes

compareceram ao enterro, porém
exceto os mais covardes dentre

eu o vi se atirar e não me atirei
tampouco compareci ao seu enterro
morrendo de medo dos mortos, como morro

mas atirarei flores aos trilhos da estação ano sim ano não
sabendo que, como todos, há muito me atirei de uma estação qualquer
e apenas caio como um lenço ao vento

529

âncoras



Uma mãozinha fofa,
uns labiozinhos molhados sempre limpos,
uma vozinha que já a descreve o diminutivo;
irmão, irmã, filho -
então um atropelamento imaginado e nada mais,
mentira,
lágrimas irreais de verdadeiras
por não terem a coragem de reconhecer o corpo -
abismo, buraco, poço -,
tampouco de imaginá-lo desfigurado:
ficaram fotos, filmes
e sua significância para a lembrança -
fêmea efêmera -,
âncoras no mar da infância.

568

sarro (à surdina)



não tem almíscar seu cerrado
entre dois morros ermos
(dessas terras fui pioneiro) alvos
onde cílios voleiam luz
(braços dados
conheço-a desperta
quando sinto seus cílios varrendo
os pelos do meu peito),
sua voz apesar da lua
e da rede elétrica
(veias e artérias à noite
forca sem cadafalso de dia)
sempre a morte de esguelha
como se não a pudéssemos advinhar
mordida pelas décadas (espero)
de sarro (i. é., nosso amor)
que lhe tiraremos ainda à surdina

533

ídolos



Mais que fulguram,
os deuses figuram:
pinturas,vitrais,
frequentemente ex-culturas - pés de barro - cujos
olhos encerram onisciência de ótica
e cuja voz ouvimos em respeitoso
e sagrado silêncio,
ou talvez:
e cuja voz ouvimos, repletos de respeito:
o sagrado silêncio...

534

os dentes


a coragem
necessária?
para matar a dentadas
a mulher amada
(contra-senso
mais fácil que assassinar um estrangeiro)

possível?
tirar uma vida
como se usa
um eufemismo?
com os próprios meios
como os deuses
dentes por arma?

não depois da faca
(enfraquece
acovarda)

da cárie e os de leite à palavra (escrita)
dentadura (postiça)
faltam os dentes
poesia (falada)

(pensei nisso nossas lín-
guas enroscadas
você tão calada)
521

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Fábio Romeiro Gullo (1980, Santos, SP, Brasil) é escritor, tradutor, crítico literário e artista multimídia, com textos e trabalhos visuais publicados em sites, blogs e revistas eletrônicas.