Fábio Romeiro Gullo

Fábio Romeiro Gullo

n. 1980 BR BR

n. 1980-08-08, Santos

Perfil
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Biografia
Fábio Romeiro Gullo (1980, Santos, SP, Brasil) é escritor, tradutor, crítico literário e artista multimídia, com textos e trabalhos visuais publicados em sites, blogs e revistas eletrônicas.

Poemas

47

uma viagem solitária



apesar
da paisagem
a poesia su-
porta o pesar
por só estar-
mos
de passagem

563

cela-canto



poetas
peixes pré-históricos
praias remotas

à noite
luas de estátuas
gatos
olhos antigos
a antiga cidade dos telhados

588

bolha de sabão



..........................................................

..........................................................

do ar ao ar ......................

a bolha .............

nada ..........

na luz ..............

crepuscular ..........................

............................................................

............................................................
564

o(m)nibus



no ponto (de ônibus)
um pneu
círculo galvanizado
pára
úmido

ferramenta de levar gente de ponto a outro
no espaço (ligue os pontos e terá a cidade)
eventualmente a ferramenta esmaga um corpo
no asfalto

600

sarro (à surdina)



não tem almíscar seu cerrado
entre dois morros ermos
(dessas terras fui pioneiro) alvos
onde cílios voleiam luz
(braços dados
conheço-a desperta
quando sinto seus cílios varrendo
os pelos do meu peito),
sua voz apesar da lua
e da rede elétrica
(veias e artérias à noite
forca sem cadafalso de dia)
sempre a morte de esguelha
como se não a pudéssemos advinhar
mordida pelas décadas (espero)
de sarro (i. é., nosso amor)
que lhe tiraremos ainda à surdina

539

estação qualquer



ontem meu amigo se atirou nos trilhos do trem
e não houve quem se atirasse postumamente
nem para salvá-lo
nem para imitá-lo
covardes

compareceram ao enterro, porém
exceto os mais covardes dentre

eu o vi se atirar e não me atirei
tampouco compareci ao seu enterro
morrendo de medo dos mortos, como morro

mas atirarei flores aos trilhos da estação ano sim ano não
sabendo que, como todos, há muito me atirei de uma estação qualquer
e apenas caio como um lenço ao vento

541

âncoras



Uma mãozinha fofa,
uns labiozinhos molhados sempre limpos,
uma vozinha que já a descreve o diminutivo;
irmão, irmã, filho -
então um atropelamento imaginado e nada mais,
mentira,
lágrimas irreais de verdadeiras
por não terem a coragem de reconhecer o corpo -
abismo, buraco, poço -,
tampouco de imaginá-lo desfigurado:
ficaram fotos, filmes
e sua significância para a lembrança -
fêmea efêmera -,
âncoras no mar da infância.

576

poeira



após o princípio foi a palavra
caindo sobre tudo

partícul-
a
partícula

letr-
a
letra

até que nada restasse
à vista
exceto a língua
cobrindo o mundo

camad-
a
camada

opaca como poeira

492

ídolos



Mais que fulguram,
os deuses figuram:
pinturas,vitrais,
frequentemente ex-culturas - pés de barro - cujos
olhos encerram onisciência de ótica
e cuja voz ouvimos em respeitoso
e sagrado silêncio,
ou talvez:
e cuja voz ouvimos, repletos de respeito:
o sagrado silêncio...

543

confusão


e apesar da morte
palavras
esta urgência do vivo
que é multiplicar
se
s
que é perdurar
perdurar
ok
mas por quê

se não se pressupõe o tempo como essência
então só há o que há
e tudo vale tudo
ou nada
apenas por si
ou melhor
apenas por ser
por existir
e fazer ou escrever
seja lá o que for
literaturao
bituários
cartas de amor
vale o mesmo
(tudo ou nada)
apenas mais ou menos
quando visto em contexto
considere este texto
assim
perdido num blog ou num sebo
há nele um sentimento ou conceito
que talvez só existam em seus olhos
ou em minhas lembranças
ou
mais provável
que apenas sejam quando nossas dú
vidas se con
fundem
num breve beijo de lingua
gem
553

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