Lista de Poemas

o canto das sereias


após Maurice Blanchot



Sem sombra ao sol,
não há sereias;
sem centro, silencioso,
o canto desses seres
não soa:
é, somente:
o canto mais distante da Terra,
equidistância constante
sublime e leve horizonte:
palavra em que onde, origem e fonte
se fundem e a
fundam.
518

cálculos pontuais


Cada sinal cuidadosamente evitado é uma reverência feita pela escrita ao som que ela sufoca.
Theodor W. Adorno, Sinais de Pontuação


?
, + . = ;
. + . = :
: + . = ...
- + - = -
( + ) = ( x )
- - - = -
; - , = ,
... - . = :
: - . = .
!
540

se


se
(não)
sei
que
(m)
(não)
so
(u)
(não)
so
(u)
(in)
certo
(de)
que
(m)
(não)
so
u

575

obturador (exposição longa)


abrir e não fechar mais as pálpebras (não
se abrem os olhos, assim como não se abrem
portas), ver o vaievem de pessoas até que
se tornem todas um só feixe furta-cor
até que se de(s)corem todos os preços e os
ciclos sazonais das promoções e últimas tendências
até que se compre(enda) a perimtranscendência
imóvel do concreto das fundações e do vidro da vitrine
onde se pode ve(nde)r até a própria aparência
545

posto


novos templos
e um armazém de energia líquida
ali, no posto de abastecimento do bairro novo
ao abrigo de um excesso de água ofendida
(deus que o Capitalismo não aplaca)
à espera do transporte que me leva
de urbe a outra
a cidade se deixa observar, circula
a energia vira palavras, transmuda
504

smile


in multimidia res perpétuo
porque gotas-começo e gotas-fim tornam-se
um só jorro-presente quando o tempo inveja a luz
aquele que prefere imagens a palavras (a[na]lógicas
mesmo em prosa palavras jamais alcançam alta-definição)
é o mesmo que faz (palavras) cruzadas à lápis
sente emoções via emoticons
e assistirá ao apocalipse catódico-cristão vestindo óculos 3D
(eis a imagem: o mundo acabando num ataque epilético
sob um sol estroboscópico com forma de :-)
498

sobre o pó


do pó ao po
eta

per
vers

a o
poe
sia ma
536

narciso de areia


eco no deserto
o vento na b
oca de um boneco
cego
surdo
mu(n)do
sem ego
e(s)
coa do homem
a voz
que vem do ventrilouco
seu g
rito a primeira explosão

em cada de
-ci-
são de existências

escolhas de d
eus
ou
vidas
552

sol


sol
solua
soluamor

te
619

estio


circular
sanguíneo
as faces passam
não páram
mas olhares
empréstimos de luz que não se devolve
revelam einstein e
no estio
o desejo de que os vidros se embacem
outra vez
e chovam sombras nas solidões
538

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Fábio Romeiro Gullo (1980, Santos, SP, Brasil) é escritor, tradutor, crítico literário e artista multimídia, com textos e trabalhos visuais publicados em sites, blogs e revistas eletrônicas.