Fábio Romeiro Gullo (1980, Santos, SP, Brasil) é escritor, tradutor, crítico literário e artista multimídia, com textos e trabalhos visuais publicados em sites, blogs e revistas eletrônicas.
in multimidia res perpétuo porque gotas-começo e gotas-fim tornam-se um só jorro-presente quando o tempo inveja a luz aquele que prefere imagens a palavras (a[na]lógicas mesmo em prosa palavras jamais alcançam alta-definição) é o mesmo que faz (palavras) cruzadas à lápis sente emoções via emoticons e assistirá ao apocalipse catódico-cristão vestindo óculos 3D (eis a imagem: o mundo acabando num ataque epilético sob um sol estroboscópico com forma de :-)
503
prótese
desmontável protético impenetrável o manequim não pode ser particula rizado (plástico é plástico)
melhores ventríloquos a TV e o rádio fazem companhia àqueles que maqueiam os manequins e na falta de luz sentem que ausências se instalam e os elevadores descansam na solidão das escadas
571
poeira
após o princípio foi a palavra caindo sobre tudo
partícul- a partícula
letr- a letra
até que nada restasse à vista exceto a língua cobrindo o mundo
camad- a camada
opaca como poeira
515
mar
mar ave ilha
610
caos
caos:
in verter
:ordem
582
erosão
Abraçamo-nos na chuva fina, nesta praia cujo nome indígena teria lugar num poema de palavras e rimas raras, não aqui, nalgum ponto do litoral norte, nalgum instante entre o agora do texto e o tempo em que emergia do mar, deste Atlântico sempre o mesmo, o primeiro ser a se arrastar solitário, sem poesia só desejo na areia outrora cascalho.
Mas então um abraço é tudo o que temos, apesar dos braços cansados. Por tudo o que perdemos, por tudo o que perderemos - por todos os espelhos quebrados em busca do inatingível fundo opaco -, tornamo-nos cinza com o passar dos milênios, não sentimos falta de um poente, desmanchamos na água de onde viemos.
591
estio
circular sanguíneo as faces passam não páram mas olhares empréstimos de luz que não se devolve revelam einstein e no estio o desejo de que os vidros se embacem outra vez e chovam sombras nas solidões
545
o homem só
o homem só morre por ter-se recusado a (virar) borboleta
530
cálculos pontuais
Cada sinal cuidadosamente evitado é uma reverência feita pela escrita ao som que ela sufoca.