Fábio Romeiro Gullo (1980, Santos, SP, Brasil) é escritor, tradutor, crítico literário e artista multimídia, com textos e trabalhos visuais publicados em sites, blogs e revistas eletrônicas.
Lista de Poemas
uma viagem solitária
apesar
da paisagem
a poesia su-
porta o pesar
por só estar-
mos
de passagem
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1
um pombo alumínio
deflete ideias
transmuda em insônia
por arrulhos
na memória
decaimento de nomes
faces
no cheiro de hospitais
eternidade
515
amortecido
Imaginou a morte mil vezes:
as Mil e Uma Noites que todos escrevemos
a mando do medo.
Recitou de si para si suas lembranças:
todas doces e belíssimas
como poesia.
À base de morfina
disse (delirou) para a escrita do filho:
toda vez um talvez
solidão plena da aparência
absência da essência
Sem querer
haviam descrito a existência humana,
as palavras amor-
tecidas.
510
poeira
após o princípio foi a palavra
caindo sobre tudo
partícul-
a
partícula
letr-
a
letra
até que nada restasse
à vista
exceto a língua
cobrindo o mundo
camad-
a
camada
opaca como poeira
510
erosão
Abraçamo-nos na chuva fina,
nesta praia cujo nome indígena
teria lugar num poema de palavras e rimas raras,
não aqui, nalgum ponto do litoral norte,
nalgum instante entre o agora do texto
e o tempo em que emergia do mar, deste Atlântico
sempre o mesmo, o primeiro ser a se arrastar solitário,
sem poesia só desejo na areia outrora cascalho.
Mas então um abraço é tudo o que temos,
apesar dos braços cansados.
Por tudo o que perdemos,
por tudo o que perderemos - por todos os espelhos
quebrados em busca do inatingível fundo opaco -,
tornamo-nos cinza com o passar dos milênios,
não sentimos falta de um poente,
desmanchamos na água de onde viemos.
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