Fábio Romeiro Gullo (1980, Santos, SP, Brasil) é escritor, tradutor, crítico literário e artista multimídia, com textos e trabalhos visuais publicados em sites, blogs e revistas eletrônicas.
desmontável protético impenetrável o manequim não pode ser particula rizado (plástico é plástico)
melhores ventríloquos a TV e o rádio fazem companhia àqueles que maqueiam os manequins e na falta de luz sentem que ausências se instalam e os elevadores descansam na solidão das escadas
569
1
um pombo alumínio deflete ideias transmuda em insônia por arrulhos na memória decaimento de nomes faces
no cheiro de hospitais eternidade
522
erosão
Abraçamo-nos na chuva fina, nesta praia cujo nome indígena teria lugar num poema de palavras e rimas raras, não aqui, nalgum ponto do litoral norte, nalgum instante entre o agora do texto e o tempo em que emergia do mar, deste Atlântico sempre o mesmo, o primeiro ser a se arrastar solitário, sem poesia só desejo na areia outrora cascalho.
Mas então um abraço é tudo o que temos, apesar dos braços cansados. Por tudo o que perdemos, por tudo o que perderemos - por todos os espelhos quebrados em busca do inatingível fundo opaco -, tornamo-nos cinza com o passar dos milênios, não sentimos falta de um poente, desmanchamos na água de onde viemos.