Francisco José Rito

Francisco José Rito

n. 1969 PT PT

Autor de 15 títulos publicados, a sua obra viaja pelos mais variados géneros, passando pela literatura infantil, poesia, contos, romance e textos para teatro.

n. 1969-04-19, Murtosa

Perfil
10 973 Visualizações

CARTA

Diz-me, amor
onde guardaste o cordão de sorrisos que te dei.
Esses que procuras quando me aproximo 
e tu estremeces, pálido como os pensamentos
que me levam fora de horas ao lugar errado.

Diz-me onde escondeste 
o verde humedecido dos teus olhos
tão verdes e tão vivos
como a bruma amanhecida nas folhas de malva. 

A quem enviaste as cartas que escreveste?
Páginas cheias de recados por mim ditados
que tu sorvias como quem guarda 
o profundo e abstrato da incógnita.

Longa vai a noite e nós acordados
à procura de sentidos novos para velhas palavras
as mesmas de sempre, já sem sangue.

Isto que nos aflige são ânsias.
Suspiros febris que rugem
como a linha de fogo que ameaça nos longes,
que parece detida no impossível 
mas que nos alcança num sopro.

Nunca saberei dizer-te 
que na tua ausência me sobram lamentos.
Que sucumbo a todos os pecados.
Que ignoro a alvorada e os pássaros e os canteiros
e tudo o mais que a vida me nega.

Amor, amor… Morreremos no sonho 
se não nos desejarmos com a mesma raiva 
que o vento chicoteia as noites de inverno.
Ler poema completo
Biografia
Francisco José Rito é o pseudónimo literário de Francisco José da Silva Vieira, nascido em Abril de 1969, na Murtosa.
Com dezanove anos faz a mala e faz-se à vida, numa epopeia que haveria de arrastar-se por mais de duas décadas. Alma dividida entre o sonho e a saudade, escreve e guarda desabafos e promessas que só à sebenta confessa.
Na diáspora faz de tudo um pouco, chegando a assinar crónicas em alguns jornais e revistas das comunidades portuguesas dos Estados Unidos e Canadá.
Em 2010 regressa à terra que o viu nascer e esconde a mala, prometendo-se não mais partir.
Em 2012 publica “Um Mar de Sentidos”, um livro de poesia e prosa poética, fruto dos desabafos por anos guardados na sebenta. É o seu primeiro livro. Um filho que idealiza único, mas que afinal será o motor de arranque para mais treze títulos já publicados.
Autodidata, escreve em prosa e em verso, com inserções pelos mais variados géneros literários, da poesia ao conto, passando pela literatura infantil, textos para teatro e romance.
Está publicado em dezenas de antologias e recebeu três prémios de poesia (um da Editora Pastelaria Studios – Lisboa, 2016 e dois da Câmara Municipal da Murtosa – 2020 e 2021).
Da sua já extensa obra destaca cinco títulos:
Em 2014 publica "Entre o Olhar e a Alma", com textos seus e fotografias a preto e branco de Carlos Figueiredo.
Em 2016 publica "Soneca - o Furão Brincalhão", uma fábula infantojuvenil, alvo de três edições diferentes, uma delas ilustrada pelos meninos e meninas da CAA – Valência de Autismo do Agrupamento de Escolas da Murtosa e patrocinada pelo Município da Murtosa e duas edições de autor – em português e em inglês – ilustradas pelo Dinis Sousa Rodrigues, um pequeno (grande) artista, à data com apenas 11 anos de idade.
Em 2018 publica "Os Meninos da Lagoa", um Conto de Natal marinhão, título que dará o nome a um grupo de teatro amador criado por si. Consequentemente, encenam dois textos de sua autoria (“Os Meninos da Lagoa” e “Arraial – o fado de cada um”) e iniciam um terceiro (Lá Vai a Rosa), projeto interrompido pela pandemia.
Em 2021 escreve – em parceria com dois amigos – “Diabruras, Momices e outras Trapalhices” um livro de poesia e prosa poética para miúdos e graúdos, novamente ilustrado pelos meninos e meninas da CAA – Valência de Autismo do Agrupamento de Escolas da Murtosa.
Em Abril de 2022 publica “Poderia ter sido assim”, vencedor do prémio Melhor Romance, atribuído pela editora Cordel D´Prata.
Para Dezembro de 2022 está agendada a publicação da sua primeira antologia. Chama-se “De degrau em degrau” e reúne poemas escolhidos da obra publicada entre 2012 e 2022. 
Tem poemas musicados e cantados por vários interpretes.

Poemas

11

ANTES QUE O OUTONO ACABE

O tempo é como as casas 
que nunca mudam de cor

é um velho
de olhar absorto e casmurro
a lembrar as nuvens cinzentas e gordas
debruçadas em prédios da mesma cor
assombrando as vidas das pessoas
cinzentas e gordas
que se arrastam pelos passeios.

é um velho 
que se perde nas listras das passadeiras
para não alcançar a vida que lhe acena
do outro lado da rua.
pele tricotada pelo sol das searas
pés gretados pelo pó dos caminhos
peito oprimido pela incerteza das horas
olhos secos pela longevidade dos dias

o tempo é como as casas 
que nunca mudam de cor
é parede baça que urge pintar
antes que o outono acabe
206

OS MEUS OLHOS

Quando a noite
pousar sobre ti o negro manto
e sentires que as estrelas te perseguem
que dançam ao teu redor, em burburinho
não tenhas medo meu amor
o que ouves são os meus olhos
que no escuro te acompanham
para salpicar de luz o teu caminho
205

ALVORADA

Alvorece
as gaivotas acordam a cidade
os sinos cantam ao desafio
com os sonhos interrompidos
a maré lambisca a margem
os raios de sol diluem a bruma
e os meus lábios fogosos
engomam as rugas do teu corpo
com a mesma devoção
com que a natureza regenera.
234

DOR

A dor fecunda o poema
a alma dita-o
a mão talha-o

pintam-se de sangue
páginas brancas
enchem-se de fé
peitos vazios

há seiva açucarada
no sangue dos poemas

cada verso
é um resquício
do que partiu
cada palavra
uma lágrima
do que ficou

é da dor
que se alimentam os poetas.
254

DESPEDIDA

Escrevo-te ao canto da sala
de uma casa mal construída
e desarrumada.

São seis da manhã. 
O relógio de parede demitiu-se do seu propósito
mas lá fora os galos avisam que o dia acordou.

Espreito pela janela 
e deixo o olhar estilhaçar-se 
contra o desalento das árvores nuas de dezembro.
Seus troncos disformes
parecem ruínas, escombros pintados
da cor dos amantes perdidos
na incompatibilidade da carne.

Vê como sorriem os homens desta história
tímidos como os pássaros 
que procuram refúgio nas árvores nuas.
Vê-os sentados à beira do destino
remendando as brechas da sua miséria.
Falta-lhes tempo para chorar a sorte.
Sobra-lhes pernas, mas falta-lhes chão.

Observo-os, barquinhos azuis
ancorados no rio que banha a minha aldeia,
águas que correm e escorrem o sangue
a tantas promessas que a vida lhes fez...

Não sei há quanto tempo 
não crescem cidades na minha cabeça.
Urge resgatar as memórias que o tempo comeu.
Romper estradas, plantar jardins
desenhar a lua no céu apagado
e estrelas a saltitar por cima dos prédios.
Urge pintar os barcos de outras cores
pois nem só no azul se constroem sonhos.

Escrevo-te porque abri a janela
rasurei a timidez dos pássaros 
e eles cresceram dentro de mim.
Quando voltares já eu terei voado, sorridente
como o petiz que se despede do baloiço da infância
na hora de mudar para uma ilusão ainda maior.
304

SABEDORIA

É preciso beijar a vida
como quem tropeça no azul das coisas.
Sorver a delicadeza das manhãs
mergulhar nos silêncios da cidade
e deixar-se levar pelo palrar do corvo
para lá do risco cinzento 
que os aviões desenham no infinito.

É preciso abrir a janela
arejar gavetas, alumiar sombras
e cantar os dias como quem faz um filho
ou como quem celebra o fim de um amor proibido.

É preciso inverter os passos vãos
dos soldados que tombam
sorrir para o vazio transparente dos vivos
e dizer-lhes que não
que a morte não pode ser o fim das dores.

É preciso saber tropeçar no azul das coisas.
298

O TEMPO E OS PEIXES

Ao solitário o amor
ou a chama que resiste
sob a cinza apagada.

Ao estéril a esperança
ou a voz do mar que canta
segredos com palavras novas.

Ao fraco a paciência
ou o saber de quem flutua
num vazio de horas funestas.

A nós os dias de inverno
ou o bailar nas mil memórias
da espera abstrata.

E o quarto
a cama, o rio, lençol 
de águas azuis, sedosas
e os nossos dedos, peixes a nadar 
na transparência dos corpos.
297

O PRIMEIRO DIA

Era um dia igual
aos dias de todas as vidas

o rosto era-te igual
a todos os rostos que esperam

entrançavas sorrisos
com gestos suados
as mãos roxas de ansiedade
os olhos frenéticos
a boca madura

o céu tinha o azul
amarrado a um canto
tinha o encanto dos pássaros no ninho
e juras das mais variadas cores

abracei-te, ponte a unir
as margens do desejo

disse-te de um sopro
os versos que me inspiras
e as tuas pétalas abriram-se

continuas sem saber resistir
a esta minha vontade de te ter.
305

EM TUDO TE APRENDO

Pé ante pé, descubro os sinais
que os teus olhos pintam nas casas,
nas montras, nas mesas dos cafés.

Recados que me deixas
espalhados pelos cantos da vida,
como quem escreve cartas à lua
ou testamenta o oiro que há de vir.

Essa voz que rasga caminhos também é tua.
Sigo-a, até onde perco e recupero sentidos,
semeando promessas entre os dedos
das quatro mãos abertas.

Contigo aprendo os trevos, os pampilhos,
o voo dos flamingos, o ranger das bicicletas...
Em tudo te aprendo e me vejo sorrir.
303

INTANGÍVEL

Guardei-te na gaveta das coisas novas,
arrumadas, qual gaivota que sobrevoa
a praia, antes de fechar a porta da tarde.

Guardei as razões que me deste
para te eleger. O teu gracejar constante
e aquele sorriso de inspirar poetas.

É tarde. A vitrola acusa cansaço
e os versos repetem-se na folha vazia.
Rendo-me à alegria de te sonhar

tão azul e tão presente como antes.
Sempre te soube interdito e breve.
Tão intangível, que magoa.
315

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.