ANTES QUE O OUTONO ACABE
O tempo é como as casas
que nunca mudam de cor
é um velho
de olhar absorto e casmurro
a lembrar as nuvens cinzentas e gordas
debruçadas em prédios da mesma cor
assombrando as vidas das pessoas
cinzentas e gordas
que se arrastam pelos passeios.
é um velho
que se perde nas listras das passadeiras
para não alcançar a vida que lhe acena
do outro lado da rua.
pele tricotada pelo sol das searas
pés gretados pelo pó dos caminhos
peito oprimido pela incerteza das horas
olhos secos pela longevidade dos dias
o tempo é como as casas
que nunca mudam de cor
é parede baça que urge pintar
antes que o outono acabe
OS MEUS OLHOS
Quando a noite
pousar sobre ti o negro manto
e sentires que as estrelas te perseguem
que dançam ao teu redor, em burburinho
não tenhas medo meu amor
o que ouves são os meus olhos
que no escuro te acompanham
para salpicar de luz o teu caminho
ALVORADA
Alvorece
as gaivotas acordam a cidade
os sinos cantam ao desafio
com os sonhos interrompidos
a maré lambisca a margem
os raios de sol diluem a bruma
e os meus lábios fogosos
engomam as rugas do teu corpo
com a mesma devoção
com que a natureza regenera.
DOR
A dor fecunda o poema
a alma dita-o
a mão talha-o
pintam-se de sangue
páginas brancas
enchem-se de fé
peitos vazios
há seiva açucarada
no sangue dos poemas
cada verso
é um resquício
do que partiu
cada palavra
uma lágrima
do que ficou
é da dor
que se alimentam os poetas.
DESPEDIDA
Escrevo-te ao canto da sala
de uma casa mal construída
e desarrumada.
São seis da manhã.
O relógio de parede demitiu-se do seu propósito
mas lá fora os galos avisam que o dia acordou.
Espreito pela janela
e deixo o olhar estilhaçar-se
contra o desalento das árvores nuas de dezembro.
Seus troncos disformes
parecem ruínas, escombros pintados
da cor dos amantes perdidos
na incompatibilidade da carne.
Vê como sorriem os homens desta história
tímidos como os pássaros
que procuram refúgio nas árvores nuas.
Vê-os sentados à beira do destino
remendando as brechas da sua miséria.
Falta-lhes tempo para chorar a sorte.
Sobra-lhes pernas, mas falta-lhes chão.
Observo-os, barquinhos azuis
ancorados no rio que banha a minha aldeia,
águas que correm e escorrem o sangue
a tantas promessas que a vida lhes fez...
Não sei há quanto tempo
não crescem cidades na minha cabeça.
Urge resgatar as memórias que o tempo comeu.
Romper estradas, plantar jardins
desenhar a lua no céu apagado
e estrelas a saltitar por cima dos prédios.
Urge pintar os barcos de outras cores
pois nem só no azul se constroem sonhos.
Escrevo-te porque abri a janela
rasurei a timidez dos pássaros
e eles cresceram dentro de mim.
Quando voltares já eu terei voado, sorridente
como o petiz que se despede do baloiço da infância
na hora de mudar para uma ilusão ainda maior.
SABEDORIA
É preciso beijar a vida
como quem tropeça no azul das coisas.
Sorver a delicadeza das manhãs
mergulhar nos silêncios da cidade
e deixar-se levar pelo palrar do corvo
para lá do risco cinzento
que os aviões desenham no infinito.
É preciso abrir a janela
arejar gavetas, alumiar sombras
e cantar os dias como quem faz um filho
ou como quem celebra o fim de um amor proibido.
É preciso inverter os passos vãos
dos soldados que tombam
sorrir para o vazio transparente dos vivos
e dizer-lhes que não
que a morte não pode ser o fim das dores.
É preciso saber tropeçar no azul das coisas.
O TEMPO E OS PEIXES
Ao solitário o amor
ou a chama que resiste
sob a cinza apagada.
Ao estéril a esperança
ou a voz do mar que canta
segredos com palavras novas.
Ao fraco a paciência
ou o saber de quem flutua
num vazio de horas funestas.
A nós os dias de inverno
ou o bailar nas mil memórias
da espera abstrata.
E o quarto
a cama, o rio, lençol
de águas azuis, sedosas
e os nossos dedos, peixes a nadar
na transparência dos corpos.
O PRIMEIRO DIA
Era um dia igual
aos dias de todas as vidas
o rosto era-te igual
a todos os rostos que esperam
entrançavas sorrisos
com gestos suados
as mãos roxas de ansiedade
os olhos frenéticos
a boca madura
o céu tinha o azul
amarrado a um canto
tinha o encanto dos pássaros no ninho
e juras das mais variadas cores
abracei-te, ponte a unir
as margens do desejo
disse-te de um sopro
os versos que me inspiras
e as tuas pétalas abriram-se
continuas sem saber resistir
a esta minha vontade de te ter.
EM TUDO TE APRENDO
Pé ante pé, descubro os sinais
que os teus olhos pintam nas casas,
nas montras, nas mesas dos cafés.
Recados que me deixas
espalhados pelos cantos da vida,
como quem escreve cartas à lua
ou testamenta o oiro que há de vir.
Essa voz que rasga caminhos também é tua.
Sigo-a, até onde perco e recupero sentidos,
semeando promessas entre os dedos
das quatro mãos abertas.
Contigo aprendo os trevos, os pampilhos,
o voo dos flamingos, o ranger das bicicletas...
Em tudo te aprendo e me vejo sorrir.
INTANGÍVEL
Guardei-te na gaveta das coisas novas,
arrumadas, qual gaivota que sobrevoa
a praia, antes de fechar a porta da tarde.
Guardei as razões que me deste
para te eleger. O teu gracejar constante
e aquele sorriso de inspirar poetas.
É tarde. A vitrola acusa cansaço
e os versos repetem-se na folha vazia.
Rendo-me à alegria de te sonhar
tão azul e tão presente como antes.
Sempre te soube interdito e breve.
Tão intangível, que magoa.