Autor de 15 títulos publicados, a sua obra viaja pelos mais variados géneros, passando pela literatura infantil, poesia, contos, romance e textos para teatro.
Diz-me, amor onde guardaste o cordão de sorrisos que te dei. Esses que procuras quando me aproximo e tu estremeces, pálido como os pensamentos que me levam fora de horas ao lugar errado.
Diz-me onde escondeste o verde humedecido dos teus olhos tão verdes e tão vivos como a bruma amanhecida nas folhas de malva.
A quem enviaste as cartas que escreveste? Páginas cheias de recados por mim ditados que tu sorvias como quem guarda o profundo e abstrato da incógnita.
Longa vai a noite e nós acordados à procura de sentidos novos para velhas palavras as mesmas de sempre, já sem sangue.
Isto que nos aflige são ânsias. Suspiros febris que rugem como a linha de fogo que ameaça nos longes, que parece detida no impossível mas que nos alcança num sopro.
Nunca saberei dizer-te que na tua ausência me sobram lamentos. Que sucumbo a todos os pecados. Que ignoro a alvorada e os pássaros e os canteiros e tudo o mais que a vida me nega.
Amor, amor… Morreremos no sonho se não nos desejarmos com a mesma raiva que o vento chicoteia as noites de inverno.
Francisco José Rito é o pseudónimo literário de Francisco José da Silva Vieira, nascido em Abril de 1969, na Murtosa. Com dezanove anos faz a mala e faz-se à vida, numa epopeia que haveria de arrastar-se por mais de duas décadas. Alma dividida entre o sonho e a saudade, escreve e guarda desabafos e promessas que só à sebenta confessa. Na diáspora faz de tudo um pouco, chegando a assinar crónicas em alguns jornais e revistas das comunidades portuguesas dos Estados Unidos e Canadá. Em 2010 regressa à terra que o viu nascer e esconde a mala, prometendo-se não mais partir. Em 2012 publica “Um Mar de Sentidos”, um livro de poesia e prosa poética, fruto dos desabafos por anos guardados na sebenta. É o seu primeiro livro. Um filho que idealiza único, mas que afinal será o motor de arranque para mais treze títulos já publicados. Autodidata, escreve em prosa e em verso, com inserções pelos mais variados géneros literários, da poesia ao conto, passando pela literatura infantil, textos para teatro e romance. Está publicado em dezenas de antologias e recebeu três prémios de poesia (um da Editora Pastelaria Studios – Lisboa, 2016 e dois da Câmara Municipal da Murtosa – 2020 e 2021). Da sua já extensa obra destaca cinco títulos: Em 2014 publica "Entre o Olhar e a Alma", com textos seus e fotografias a preto e branco de Carlos Figueiredo. Em 2016 publica "Soneca - o Furão Brincalhão", uma fábula infantojuvenil, alvo de três edições diferentes, uma delas ilustrada pelos meninos e meninas da CAA – Valência de Autismo do Agrupamento de Escolas da Murtosa e patrocinada pelo Município da Murtosa e duas edições de autor – em português e em inglês – ilustradas pelo Dinis Sousa Rodrigues, um pequeno (grande) artista, à data com apenas 11 anos de idade. Em 2018 publica "Os Meninos da Lagoa", um Conto de Natal marinhão, título que dará o nome a um grupo de teatro amador criado por si. Consequentemente, encenam dois textos de sua autoria (“Os Meninos da Lagoa” e “Arraial – o fado de cada um”) e iniciam um terceiro (Lá Vai a Rosa), projeto interrompido pela pandemia. Em 2021 escreve – em parceria com dois amigos – “Diabruras, Momices e outras Trapalhices” um livro de poesia e prosa poética para miúdos e graúdos, novamente ilustrado pelos meninos e meninas da CAA – Valência de Autismo do Agrupamento de Escolas da Murtosa. Em Abril de 2022 publica “Poderia ter sido assim”, vencedor do prémio Melhor Romance, atribuído pela editora Cordel D´Prata. Para Dezembro de 2022 está agendada a publicação da sua primeira antologia. Chama-se “De degrau em degrau” e reúne poemas escolhidos da obra publicada entre 2012 e 2022. Tem poemas musicados e cantados por vários interpretes.
Diz-me, amor onde guardaste o cordão de sorrisos que te dei. Esses que procuras quando me aproximo e tu estremeces, pálido como os pensamentos que me levam fora de horas ao lugar errado.
Diz-me onde escondeste o verde humedecido dos teus olhos tão verdes e tão vivos como a bruma amanhecida nas folhas de malva.
A quem enviaste as cartas que escreveste? Páginas cheias de recados por mim ditados que tu sorvias como quem guarda o profundo e abstrato da incógnita.
Longa vai a noite e nós acordados à procura de sentidos novos para velhas palavras as mesmas de sempre, já sem sangue.
Isto que nos aflige são ânsias. Suspiros febris que rugem como a linha de fogo que ameaça nos longes, que parece detida no impossível mas que nos alcança num sopro.
Nunca saberei dizer-te que na tua ausência me sobram lamentos. Que sucumbo a todos os pecados. Que ignoro a alvorada e os pássaros e os canteiros e tudo o mais que a vida me nega.
Amor, amor… Morreremos no sonho se não nos desejarmos com a mesma raiva que o vento chicoteia as noites de inverno.
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ESTADO DE GRAÇA
Eis-nos na bênção da aventura cachos de uvas ruivas no regaço um véu de colibris a cobrir-nos a pele dos segredos.
Eis-nos no céu dos escolhidos todo o sol que irradias me ilumina todo o amor que canto te pertence.
280
A MAIS ALEGRE DE TODAS AS PALAVRAS TRISTES
Não é por isto ou por aquilo que te falo. Falo-te porque sim. Porque é falando-te que purgo este sentir. Sei que mais falta me faz falar-te do que a ti escutar-me, mas é da alma que te falo, e nas coisas da alma nem tudo tem de ser medido.
Hoje venho falar-te na mais alegre de todas as palavras tristes: A saudade. Alegre porque é uma graça senti-la - felizes os que a sentem, porque viveram. Triste quem não guardou na alma rosas em botão para desfolhar ao entardecer da vida que seja por veredas de saudade.
342
QUE SERÁ DE NÓS?
Alma aberta em chama corpo aberto em prece dos lábios rugidos firmes gritos de guerras perdidas a voz da sapiência que brada mil e uma razões para recusar o cálice de vida que se oferece.
Que é do amor escondido nas entrelinhas das cartas rasgadas qual das mãos algemadas secará as gotas de cio na pele dolorida da renúncia?
E de nós, que será de nós, que sem sermos amantes tememos a dor do amor acabado?
Tecelões à procura do novelo azul azul ou pardo como os gatos da noite os lábios sedentos de mel e hortelã e a flor dos cardos a pingar-nos no ventre a seiva húmida e quente dos beijos sonhados.
Entretanto é dia, e de dia os gatos são transparentes e lúcidos.
307
TUDO ME SERVE PARA TE AMAR
Desbravo caminhos nos beijos que me negas
Os meus olhos fazem amor com a tua sombra os meus lábios com o teu cheiro a minha alma com o teu desdém
Provoco-te com beijos rabiscados no vento Tu, a mim, apenas recusas
Pensarás que não sei dos teus desejos - framboesa, melancia, romã bruma fresca, maré viva, algodão doce
Tudo te serve para me provocar Tudo me serve para te amar.
343
DEIXAI QUE CHOVAM DESAFIOS
Neste mundo novo que me espreita Pego em mim e vou abrir caminhos Sem olhar para trás, sem vacilar Se é que a vida se faz de tempestades Então deixa que chovam desafios E o mais que ela tiver para me atirar
Neste mundo novo que me espreita O que importa é ter olhos de ver E olhar de cima para o que me rodeia O que importa é não ter medo De fechar os olhos e pular Para lá do pôr-do-sol da minha aldeia
195
A IDADE ETERNIZOU-NOS NO INTERIOR DAS HORAS
Sorvo esta convicção de que todas as ruas me levam a ti. Que és a ponte para todas as margens, sereia que (en)canta em todos os mares.
O trânsito parou nos labirintos da procura. A idade eternizou-nos no interior das horas, felicidade cinzelada no mais puro mármore num relógio do tempo feito à nossa medida.
Há nos nossos beijos de fim de tarde a robustez de um campo de papoulas debruando-nos o azul dos lábios com raios de sol poente e sabor a vinho novo.
180
CATIVO
Nas tuas mãos o poder obliquo da carne qual destino que passa sem passar por nós.
Os dois no café a mesa vazia de certezas o clarão do teu olhar a incendiar-me.
Vais e vens entre palavras fugazes e eu fujo ao toque da pele que delira como a morrer de rosas.
Assim quero morrer. Sobre nós cantarei ao universo trovas de um amor sonhado.
Sobre os meus olhos direi que foram presas fáceis à magia dos teus.
37
NO LIMITE
Eis-me, no limite de tudo alma espartida entre a vida e a morte entre riso e o choro
entre a vida e a morte sublime momento em que tudo falta e tudo sobra. Tudo, menos eu.
22
POR VEZES
Por vezes via um traço de cor na noite dos teus olhos. Um fio azul que os escancarava e te expunha feito de mãos, braços e bocas irrequietas como se o mundo inteiro te habitasse.
Por vezes atiçavas o Evereste dos teus medos. A voz bailava-te nas entranhas do desassossego e sonhavas em surdina, rabiscando suspiros no nevoeiro das madrugadas abismais.
Por vezes eras tudo. De tudo um pouco te fazias, a contrariar a sorte de seres tão pouco, do muito que querias ser. Amado apenas! Retribuindo a graça de um sorriso, voo de gaivota, pinho verde, flor de tangerina, felicidade.