Lista de Poemas

O PRIMEIRO DIA

Era um dia igual
aos dias de todas as vidas

o rosto era-te igual
a todos os rostos que esperam

entrançavas sorrisos
com gestos suados
as mãos roxas de ansiedade
os olhos frenéticos
a boca madura

o céu tinha o azul
amarrado a um canto
tinha o encanto dos pássaros no ninho
e juras das mais variadas cores

abracei-te, ponte a unir
as margens do desejo

disse-te de um sopro
os versos que me inspiras
e as tuas pétalas abriram-se

continuas sem saber resistir
a esta minha vontade de te ter.
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OS MEUS OLHOS

Quando a noite
pousar sobre ti o negro manto
e sentires que as estrelas te perseguem
que dançam ao teu redor, em burburinho
não tenhas medo meu amor
o que ouves são os meus olhos
que no escuro te acompanham
para salpicar de luz o teu caminho
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DESPEDIDA

Escrevo-te ao canto da sala
de uma casa mal construída
e desarrumada.

São seis da manhã. 
O relógio de parede demitiu-se do seu propósito
mas lá fora os galos avisam que o dia acordou.

Espreito pela janela 
e deixo o olhar estilhaçar-se 
contra o desalento das árvores nuas de dezembro.
Seus troncos disformes
parecem ruínas, escombros pintados
da cor dos amantes perdidos
na incompatibilidade da carne.

Vê como sorriem os homens desta história
tímidos como os pássaros 
que procuram refúgio nas árvores nuas.
Vê-os sentados à beira do destino
remendando as brechas da sua miséria.
Falta-lhes tempo para chorar a sorte.
Sobra-lhes pernas, mas falta-lhes chão.

Observo-os, barquinhos azuis
ancorados no rio que banha a minha aldeia,
águas que correm e escorrem o sangue
a tantas promessas que a vida lhes fez...

Não sei há quanto tempo 
não crescem cidades na minha cabeça.
Urge resgatar as memórias que o tempo comeu.
Romper estradas, plantar jardins
desenhar a lua no céu apagado
e estrelas a saltitar por cima dos prédios.
Urge pintar os barcos de outras cores
pois nem só no azul se constroem sonhos.

Escrevo-te porque abri a janela
rasurei a timidez dos pássaros 
e eles cresceram dentro de mim.
Quando voltares já eu terei voado, sorridente
como o petiz que se despede do baloiço da infância
na hora de mudar para uma ilusão ainda maior.
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INTANGÍVEL

Guardei-te na gaveta das coisas novas,
arrumadas, qual gaivota que sobrevoa
a praia, antes de fechar a porta da tarde.

Guardei as razões que me deste
para te eleger. O teu gracejar constante
e aquele sorriso de inspirar poetas.

É tarde. A vitrola acusa cansaço
e os versos repetem-se na folha vazia.
Rendo-me à alegria de te sonhar

tão azul e tão presente como antes.
Sempre te soube interdito e breve.
Tão intangível, que magoa.
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Francisco José Rito é o pseudónimo literário de Francisco José da Silva Vieira, nascido em Abril de 1969, na Murtosa.
Com dezanove anos faz a mala e faz-se à vida, numa epopeia que haveria de arrastar-se por mais de duas décadas. Alma dividida entre o sonho e a saudade, escreve e guarda desabafos e promessas que só à sebenta confessa.
Na diáspora faz de tudo um pouco, chegando a assinar crónicas em alguns jornais e revistas das comunidades portuguesas dos Estados Unidos e Canadá.
Em 2010 regressa à terra que o viu nascer e esconde a mala, prometendo-se não mais partir.
Em 2012 publica “Um Mar de Sentidos”, um livro de poesia e prosa poética, fruto dos desabafos por anos guardados na sebenta. É o seu primeiro livro. Um filho que idealiza único, mas que afinal será o motor de arranque para mais treze títulos já publicados.
Autodidata, escreve em prosa e em verso, com inserções pelos mais variados géneros literários, da poesia ao conto, passando pela literatura infantil, textos para teatro e romance.
Está publicado em dezenas de antologias e recebeu três prémios de poesia (um da Editora Pastelaria Studios – Lisboa, 2016 e dois da Câmara Municipal da Murtosa – 2020 e 2021).
Da sua já extensa obra destaca cinco títulos:
Em 2014 publica "Entre o Olhar e a Alma", com textos seus e fotografias a preto e branco de Carlos Figueiredo.
Em 2016 publica "Soneca - o Furão Brincalhão", uma fábula infantojuvenil, alvo de três edições diferentes, uma delas ilustrada pelos meninos e meninas da CAA – Valência de Autismo do Agrupamento de Escolas da Murtosa e patrocinada pelo Município da Murtosa e duas edições de autor – em português e em inglês – ilustradas pelo Dinis Sousa Rodrigues, um pequeno (grande) artista, à data com apenas 11 anos de idade.
Em 2018 publica "Os Meninos da Lagoa", um Conto de Natal marinhão, título que dará o nome a um grupo de teatro amador criado por si. Consequentemente, encenam dois textos de sua autoria (“Os Meninos da Lagoa” e “Arraial – o fado de cada um”) e iniciam um terceiro (Lá Vai a Rosa), projeto interrompido pela pandemia.
Em 2021 escreve – em parceria com dois amigos – “Diabruras, Momices e outras Trapalhices” um livro de poesia e prosa poética para miúdos e graúdos, novamente ilustrado pelos meninos e meninas da CAA – Valência de Autismo do Agrupamento de Escolas da Murtosa.
Em Abril de 2022 publica “Poderia ter sido assim”, vencedor do prémio Melhor Romance, atribuído pela editora Cordel D´Prata.
Para Dezembro de 2022 está agendada a publicação da sua primeira antologia. Chama-se “De degrau em degrau” e reúne poemas escolhidos da obra publicada entre 2012 e 2022. 
Tem poemas musicados e cantados por vários interpretes.