UM CARDO DISFARÇADO DE ALFAZEMA
Esta ânsia que sinto
é janela aberta
para um prado
sem cores e sem cheiros.
É uma miragem
um rosto
uma voz nos longes
um roce imaginado
um cardo disfarçado
de alfazema.
Esta ânsia que sinto
é um carreiro estreito
que acaba num muro
mais alto que o sol.
Nele me embrenhei
coração órfão
de gargalhadas roucas
e outros mimos.
Nele me perdi
ânsia de perseguir
sonhos proibidos
e outras sinas.
NÃO TE CALES
Não te cales
onde ouvires silêncio
faz do olhar faróis a encandear
o negro das crateras
e sorri quando não vires
o fundo ao mar que se adivinha
não te cales
onde ouvires ruído
fala sempre mais alto
que os passos que te seguem
ou os uivos que te afligem
não te cales
perde o sangue em praça
se for esse o teu destino
mas não te permitas
esconder nos atalhos do medo
ou que a morte te venha
de onde a não vejas.
GRITOS DE BOCA
Cansámos a lua de tanto espreitar
a nudez dos nossos beijos
naquele serão molhado e frio
o mar cantarolava
a mais bela canção
desfile de vagas sorrateiras
babujando a falésia
os beijos
gritos de boca órfã de carícias
rasgando o véu do silêncio
desfazendo-se nos lábios
como o sargaço nas coxas
e depois o êxtase
a explosão de estrelas nos corpos cálidos
e os olhares afogueados como tochas
a incendiar a escuridão da noite
OIÇO-TE
Oiço-te
voz de água fresca
que me escorre, fugaz
pelos socalcos da pele
sussurro de vento
a amaciar-me
a inquietação da carne
ternura, ensejo
de pássaro que alvora
ao adormecer da lua
oiço-te
bocejo sorrisos
e deixo-me dormir.
TARDE OU CEDO, FLORIRÁS
O silêncio da noite
diminui o espaço entre mim
e a realidade das coisas.
O teu corpo ausente
estende-se na minha cama,
volumoso e insensível
à minha saudade.
Não me permito tocar-te
mas sinto o aroma luminoso
da tua pele em fogo
a queimar-me as narinas
e é nessa hora
(na certeza de te pertencer)
que construo a nossa casa na lua
um barco para navegar
os mistérios do teu sangue
um balão para sobrevoar
o azul do teu olhar.
Depois é só esperar-te
sei que, tarde ou cedo, florirás.
QUANDO TE ENCONTRARES, APAIXONA-TE
Olha-te
sem reticências, como
o sol olha a seara que doirou, como
os amantes se olham para dentro da pele em chama, como
as mães olham para o filhos com o fervor de um coração apaixonado.
Olha-te
e quando te vires não
vaciles, não recues, não temas, não
fujas, que o melhor de ti estará sempre escondido no teu
intimo, onde outros procurarão mas apenas tu saberás encontrar-te.
Olha-te, e quando te encontrares apaixona-te.
TU ÉS GAIVOTA
Vê o que os outros sentem
quando te olham
(só os loucos gostam do boneco
que criaste para vestir a tua loucura).
Vê como o vento uiva na praia deserta;
como a gaivota observa as ondas revoltas
à procura da melhor forma de as mergulhar,
contra qualquer probabilidade de sucesso.
Tu és gaivota no areal deserto
à espera que o vento te deixe voar.
E corres. E saltas.
E mergulhas na vida
à procura da onda perfeita
que te seja sal e te arraste
e te leve a ser feliz nos fundões do desconhecido,
onde só os loucos sobrevivem.
Tu és gaivota. E nessa ânsia de voar
vais deixando pegadas no areal que é só teu
cada vez mais firme
cada vez mais forte
(abrindo caminho aos que hão de seguir
o boneco que criaste para vestir a tua loucura).
NUNCA TE DIREI DOS MEDOS QUE NÃO SENTES
Da minha boca nunca sairão palavras
que digam o que não quero que saibas.
Nunca te direi que a tua ausência
me transporta ao roxo das árvores de dezembro.
Que esperar-te é sofrer a agonia das folhas caídas.
Que querer-te é resignar-me à condição de retrato pendurado,
que adorna, conforta, mas não sacia.
Nunca te direi dos medos que não sentes.
Prefiro sentar-me no sopé da felicidade que irradias
e dizer-te que pelos teus lábios fala a fé do jovem que parte,
a euforia do barco regressado,
a frescura das garroas de setembro.
Prefiro cantar-te madrigais.
Dizer-te que nos teus lábios desabrocham todos os sorrisos
e que todos os astros orbitam no azul do teu olhar.
MIRAGEM
Esta noite sonhei-me e era a solidão
do pasto verde tombado pelo vento
nos campos molhados de janeiro.
Sonhei-me num prado de trevo
a viver o desalento do petiz que se
despede do papagaio tresmalhado
e perdido nos confins do azul.
Esta noite vi-me por dentro
e senti o assombro correr lentamente
pelo labirinto de veias mornas de vida.
E depois vi-te. Nadavas num mar
de indiferença e altivez, para longe,
bem longe dos meus braços abertos.
Esta noite chamei-te, mas não vieste.
Duraste apenas o tempo de fugires
para lá de onde os sonhos alcançam.
O cavalo de chuva galopava na vidraça
a atormentar-me os lábios ruivos
febris, doídos de saudade e de desejo.
OS CHOUPOS NÃO QUEBRAM
Acordou-me o inverno
O vento sacode o choupo molhado
Oiço-lhe a alma a gemer
Um rosário de queixumes
O azul de outras luas escureceu
Fez-se cinza a correr p´la berma
Arrastado pela enxurrada dos dias
Acordou-me o inverno
Abanei, mas os choupos não quebram
Abri a janela e encarei o vento
Que a minha casa é feita de verdade
Paredes erguidas do barro que sou
Adobes de coragem e coração
Tudo alumiado por lúcido clarão