Lista de Poemas

PARA MIM É PRIMAVERA

Espraio-me em ti
como o sol na seara
lábios presos
nas rugas do teu ventre

o vento sopra
o céu escurece
o inverno ameaça
mas para mim é primavera.
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HAVEMOS DE SER SEMPRE MUDANÇA

Que sabemos da nudez do sol
que se espreguiça à flor da nossa pele dolente
sem saber com que voz choramos os íntimos prazeres?

Que sabemos do temor
que nos impele o ávido desejo
de sermos felizes depois da tempestade?

Que sabemos do pranto
dos lençóis da cama naufragada
nas tormentas de todos os bojadores?

E de nós? Que sabemos de nós?
Que a cada amanhecer regressamos ao inferno
de cabeça pousada na almofada de arame farpado
urdida a ferro e fogo e a sonhos desfeitos.

Sabemos que para sobreviver teremos de ser mudança.
Que havemos de ser sempre mudança!
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ATÉ À PLENITUDE

Guardarei na memória
as faces morenas da tarde
com o tempo a abrir caminho
para o Éden prometido, mareando
um barco que ancorará à minha porta.

Os sinos tocam trindades
e ouvem-se sussurros e preces
como quem desfia contas de um rosário
(é a maciez dos lábios quentes
como os raios de sol de agosto
a engomar-nos o linho do desejo).

Nunca mais os sinos chorarão queixumes
sem que eu recorde o diluvio que te escorre da nuca
inundando-te os seios, o ventre e as coxas.
Nunca mais o vento soprará suão
sem que eu sinta o esvoaçar dos teus cabelos
a enxugarem-me o peito.

E agora que a lua te deu um nome de lagoa
nadarei na serenidade do teu azul
para lá de todos os feitiços,
até à plenitude.
55

DESEJANDO SER-TE O PROMETIDO

O deleite ardente que procuro
traz-me sempre ao teu regaço
qual pássaro imolado a renascer
qual fogo adormecido mas atento
desejando ser-te o prometido.

E eu assim te quero, aurora minha
assim, como a bruma envolve os lírios
como o azul da lua envolve o mar Egeu
assim eu te envolvo e te venero
desejando ser-te o prometido.
61

FLUTUA NO OURO DOS DIAS E SORRI

Viaja até onde te leve a imensidão do olhar
e não pernoites aonde não sonhares.

Planta a semente no húmus da alma
e espera que os sentidos floresçam
embalados pelos aromas da tarde.

Flutua no ouro dos dias e sorri
enquanto o mar tece as ondas
que faltam para naufragares.

Corre tudo o que puderes
pinta-te de todas as cores
mas depois sossega, respira e ama
pois é ao fim do caminho
que os afetos se agigantam.
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NO OLHAR TRAGO-TE A LUA

Trago-te um regaço de limões
maduros e perfumados.
No olhar trago-te a lua
bordada nas memórias da minha meninice.
E na hora de adormecermos os segredos
essa ditosa hora em que os sonhos flutuam
entre a terra e o céu, entre o corpo e a alma
dar-te-ei o melhor de mim:
esta graça de te sorrir, rendido
ao sublime império da paixão que me habita.
45

ABRAÇO AS PALAVRAS QUE DEIXASTE

(a Eugénio de Andrade, no dia do seu centenário)

Os teus versos despertam-me a alma
entardecida. Doiram-me o olhar
como os malmequeres no chão de abril

fecho os olhos e distingo-os
no chilrar dos melros nos ciprestes
cantando ao mundo os teus amores
e outras dores

abraço as palavras que deixaste
guardadas nos ninhos de andorinha
à espera do beijo que faça a primavera
acontecer nas bocas que não beijaste.
55

MERGULHO NO AZUL DAS COISAS

Mergulho no vento que amacia as pedras
à procura do enleio perdido nos primórdios.

Mergulho num rendilhado de horas mansas
feitas de palavras sem mácula e sem pressa.

Mergulho na porta aberta do poema
purgando-me dos anos e dos medos.

Mergulho num tempo novo e vasto
onde amar-te cheira a tudo o que quisermos.

Mergulho no azul das coisas
para ver florir a lua nos teus olhos.
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FOSSES TU SERRA

Fosses tu serra
e eu subiria ao cume mais alto
para espreitar o infinito nos teus olhos
ou catar estrelas nas tuas faces ruivas

bradaria aos céus os versos que me inspiras
pássaros nadando no veludo dos teus lábios
peixes voando nas tuas mãos abertas
crianças brincando no azul dos teus sonhos

fosses tu serra
e eu seria primavera. E em ti pintaria
páginas de vida, antes que o inverno
caiasse o oiro dos teus cabelos.
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COMO ME AMARIAS?

Todos os dias tento
agarrar a luz que se deita no mar
e todos os dias o sol me demonstra
que o seu esplendor é terra de ninguém.

Imaginemos que a lua se portava de igual modo,
como entraria o luar dos meus olhos pela tua janela?
Como acordarias ao toque dos meus dedos?
Como me amarias?
Sim, como me amarias?!
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Francisco José Rito é o pseudónimo literário de Francisco José da Silva Vieira, nascido em Abril de 1969, na Murtosa.
Com dezanove anos faz a mala e faz-se à vida, numa epopeia que haveria de arrastar-se por mais de duas décadas. Alma dividida entre o sonho e a saudade, escreve e guarda desabafos e promessas que só à sebenta confessa.
Na diáspora faz de tudo um pouco, chegando a assinar crónicas em alguns jornais e revistas das comunidades portuguesas dos Estados Unidos e Canadá.
Em 2010 regressa à terra que o viu nascer e esconde a mala, prometendo-se não mais partir.
Em 2012 publica “Um Mar de Sentidos”, um livro de poesia e prosa poética, fruto dos desabafos por anos guardados na sebenta. É o seu primeiro livro. Um filho que idealiza único, mas que afinal será o motor de arranque para mais treze títulos já publicados.
Autodidata, escreve em prosa e em verso, com inserções pelos mais variados géneros literários, da poesia ao conto, passando pela literatura infantil, textos para teatro e romance.
Está publicado em dezenas de antologias e recebeu três prémios de poesia (um da Editora Pastelaria Studios – Lisboa, 2016 e dois da Câmara Municipal da Murtosa – 2020 e 2021).
Da sua já extensa obra destaca cinco títulos:
Em 2014 publica "Entre o Olhar e a Alma", com textos seus e fotografias a preto e branco de Carlos Figueiredo.
Em 2016 publica "Soneca - o Furão Brincalhão", uma fábula infantojuvenil, alvo de três edições diferentes, uma delas ilustrada pelos meninos e meninas da CAA – Valência de Autismo do Agrupamento de Escolas da Murtosa e patrocinada pelo Município da Murtosa e duas edições de autor – em português e em inglês – ilustradas pelo Dinis Sousa Rodrigues, um pequeno (grande) artista, à data com apenas 11 anos de idade.
Em 2018 publica "Os Meninos da Lagoa", um Conto de Natal marinhão, título que dará o nome a um grupo de teatro amador criado por si. Consequentemente, encenam dois textos de sua autoria (“Os Meninos da Lagoa” e “Arraial – o fado de cada um”) e iniciam um terceiro (Lá Vai a Rosa), projeto interrompido pela pandemia.
Em 2021 escreve – em parceria com dois amigos – “Diabruras, Momices e outras Trapalhices” um livro de poesia e prosa poética para miúdos e graúdos, novamente ilustrado pelos meninos e meninas da CAA – Valência de Autismo do Agrupamento de Escolas da Murtosa.
Em Abril de 2022 publica “Poderia ter sido assim”, vencedor do prémio Melhor Romance, atribuído pela editora Cordel D´Prata.
Para Dezembro de 2022 está agendada a publicação da sua primeira antologia. Chama-se “De degrau em degrau” e reúne poemas escolhidos da obra publicada entre 2012 e 2022. 
Tem poemas musicados e cantados por vários interpretes.