Lista de Poemas

AMÊNDOA AMARGA

Rasguei com as minhas mãos
todas as promessas

abri as portas
vesti-me de vento
a afastar de mim o teu perfume

pintei-me com o roxo das dores
com o vazio dos dias

provei o fel do desencanto
minha amêndoa amarga.
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ESQUECESTE DE SER TUA

Na tua alma faz-se luto
cada vez que a porta se fecha
e os seus passos se perdem
na imensidão da noite

vestes a pele de sentinela
nas madrugadas caladas
a porta do quarto entreaberta
a sua cama vazia...

esqueceste o nome que tinhas
antes de seres quem és
esqueceste a cintura fina
os seios rijos, o rosto viçoso

perdeste a altivez no andar
porque o sol rompeu
a alvorada dos teus dias
e tu toda vergaste ao seu esplendor

esqueceste de ser tua
pertences a todos menos a ti
não sorris sem temer o castigo
não abraças o canto sem temer o pranto

és doente crónica 
sofres desse mal chamado amor
que as dores do parto são para a vida inteira

esqueceste o nome que tinhas
antes de seres mãe.
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TAMBÉM HÁ POESIA NO QUE NÃO TE ESCREVO

Amar-te é brincar às escondidas com o destino
É desesperar no tempo e questionar se existes
Se demoras, se chegas, se ficas, se tornas a vir
É querer-te e rasgar caminhos para fugir de ti

Amar-te é um emaranhado de coisas por dizer
É um sem-fim de apagar poemas sem sentido
De dizer com os olhos o que os dedos omitem
Pois também há poesia no que não te escrevo

Amar-te é isto e tudo o mais que não se explica
As cores dos pássaros que à noite me visitam
Esta inquietação constante na pele dos lábios
O contar das horas que ainda faltam para te ter
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ANTES QUE O OUTONO ACABE

O tempo é como as casas 
que nunca mudam de cor

é um velho
de olhar absorto e casmurro
a lembrar as nuvens cinzentas e gordas
debruçadas em prédios da mesma cor
assombrando as vidas das pessoas
cinzentas e gordas
que se arrastam pelos passeios.

é um velho 
que se perde nas listras das passadeiras
para não alcançar a vida que lhe acena
do outro lado da rua.
pele tricotada pelo sol das searas
pés gretados pelo pó dos caminhos
peito oprimido pela incerteza das horas
olhos secos pela longevidade dos dias

o tempo é como as casas 
que nunca mudam de cor
é parede baça que urge pintar
antes que o outono acabe
199

GRITO DE GUERRA

Fosses tu palavra
perdida no verso apagado
e eu papoula florida
em lava ardente
e nenhum de nós seria poema

mas és pétala agreste
no girassol de agosto
musa, lágrima,
loucura expelida
dos confins do pranto
e eu sou o protótipo
de um poeta em construção
alma fustigada
pela voragem dos sentidos

e assim, no rubro do sangue
na angústia, no desejo
faço-te trova, hino
grito da guerra que nos invade.
171

EM TUDO TE APRENDO

Pé ante pé, descubro os sinais
que os teus olhos pintam nas casas,
nas montras, nas mesas dos cafés.

Recados que me deixas
espalhados pelos cantos da vida,
como quem escreve cartas à lua
ou testamenta o oiro que há de vir.

Essa voz que rasga caminhos também é tua.
Sigo-a, até onde perco e recupero sentidos,
semeando promessas entre os dedos
das quatro mãos abertas.

Contigo aprendo os trevos, os pampilhos,
o voo dos flamingos, o ranger das bicicletas...
Em tudo te aprendo e me vejo sorrir.
299

SABEDORIA

É preciso beijar a vida
como quem tropeça no azul das coisas.
Sorver a delicadeza das manhãs
mergulhar nos silêncios da cidade
e deixar-se levar pelo palrar do corvo
para lá do risco cinzento 
que os aviões desenham no infinito.

É preciso abrir a janela
arejar gavetas, alumiar sombras
e cantar os dias como quem faz um filho
ou como quem celebra o fim de um amor proibido.

É preciso inverter os passos vãos
dos soldados que tombam
sorrir para o vazio transparente dos vivos
e dizer-lhes que não
que a morte não pode ser o fim das dores.

É preciso saber tropeçar no azul das coisas.
292

DOR

A dor fecunda o poema
a alma dita-o
a mão talha-o

pintam-se de sangue
páginas brancas
enchem-se de fé
peitos vazios

há seiva açucarada
no sangue dos poemas

cada verso
é um resquício
do que partiu
cada palavra
uma lágrima
do que ficou

é da dor
que se alimentam os poetas.
247

ALVORADA

Alvorece
as gaivotas acordam a cidade
os sinos cantam ao desafio
com os sonhos interrompidos
a maré lambisca a margem
os raios de sol diluem a bruma
e os meus lábios fogosos
engomam as rugas do teu corpo
com a mesma devoção
com que a natureza regenera.
227

O TEMPO E OS PEIXES

Ao solitário o amor
ou a chama que resiste
sob a cinza apagada.

Ao estéril a esperança
ou a voz do mar que canta
segredos com palavras novas.

Ao fraco a paciência
ou o saber de quem flutua
num vazio de horas funestas.

A nós os dias de inverno
ou o bailar nas mil memórias
da espera abstrata.

E o quarto
a cama, o rio, lençol 
de águas azuis, sedosas
e os nossos dedos, peixes a nadar 
na transparência dos corpos.
292

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Francisco José Rito é o pseudónimo literário de Francisco José da Silva Vieira, nascido em Abril de 1969, na Murtosa.
Com dezanove anos faz a mala e faz-se à vida, numa epopeia que haveria de arrastar-se por mais de duas décadas. Alma dividida entre o sonho e a saudade, escreve e guarda desabafos e promessas que só à sebenta confessa.
Na diáspora faz de tudo um pouco, chegando a assinar crónicas em alguns jornais e revistas das comunidades portuguesas dos Estados Unidos e Canadá.
Em 2010 regressa à terra que o viu nascer e esconde a mala, prometendo-se não mais partir.
Em 2012 publica “Um Mar de Sentidos”, um livro de poesia e prosa poética, fruto dos desabafos por anos guardados na sebenta. É o seu primeiro livro. Um filho que idealiza único, mas que afinal será o motor de arranque para mais treze títulos já publicados.
Autodidata, escreve em prosa e em verso, com inserções pelos mais variados géneros literários, da poesia ao conto, passando pela literatura infantil, textos para teatro e romance.
Está publicado em dezenas de antologias e recebeu três prémios de poesia (um da Editora Pastelaria Studios – Lisboa, 2016 e dois da Câmara Municipal da Murtosa – 2020 e 2021).
Da sua já extensa obra destaca cinco títulos:
Em 2014 publica "Entre o Olhar e a Alma", com textos seus e fotografias a preto e branco de Carlos Figueiredo.
Em 2016 publica "Soneca - o Furão Brincalhão", uma fábula infantojuvenil, alvo de três edições diferentes, uma delas ilustrada pelos meninos e meninas da CAA – Valência de Autismo do Agrupamento de Escolas da Murtosa e patrocinada pelo Município da Murtosa e duas edições de autor – em português e em inglês – ilustradas pelo Dinis Sousa Rodrigues, um pequeno (grande) artista, à data com apenas 11 anos de idade.
Em 2018 publica "Os Meninos da Lagoa", um Conto de Natal marinhão, título que dará o nome a um grupo de teatro amador criado por si. Consequentemente, encenam dois textos de sua autoria (“Os Meninos da Lagoa” e “Arraial – o fado de cada um”) e iniciam um terceiro (Lá Vai a Rosa), projeto interrompido pela pandemia.
Em 2021 escreve – em parceria com dois amigos – “Diabruras, Momices e outras Trapalhices” um livro de poesia e prosa poética para miúdos e graúdos, novamente ilustrado pelos meninos e meninas da CAA – Valência de Autismo do Agrupamento de Escolas da Murtosa.
Em Abril de 2022 publica “Poderia ter sido assim”, vencedor do prémio Melhor Romance, atribuído pela editora Cordel D´Prata.
Para Dezembro de 2022 está agendada a publicação da sua primeira antologia. Chama-se “De degrau em degrau” e reúne poemas escolhidos da obra publicada entre 2012 e 2022. 
Tem poemas musicados e cantados por vários interpretes.