MIRAGEM
Esta noite sonhei-me e era a solidão
do pasto verde tombado pelo vento
nos campos molhados de janeiro.
Sonhei-me num prado de trevo
a viver o desalento do petiz que se
despede do papagaio tresmalhado
e perdido nos confins do azul.
Esta noite vi-me por dentro
e senti o assombro correr lentamente
pelo labirinto de veias mornas de vida.
E depois vi-te. Nadavas num mar
de indiferença e altivez, para longe,
bem longe dos meus braços abertos.
Esta noite chamei-te, mas não vieste.
Duraste apenas o tempo de fugires
para lá de onde os sonhos alcançam.
O cavalo de chuva galopava na vidraça
a atormentar-me os lábios ruivos
febris, doídos de saudade e de desejo.
OS CHOUPOS NÃO QUEBRAM
Acordou-me o inverno
O vento sacode o choupo molhado
Oiço-lhe a alma a gemer
Um rosário de queixumes
O azul de outras luas escureceu
Fez-se cinza a correr p´la berma
Arrastado pela enxurrada dos dias
Acordou-me o inverno
Abanei, mas os choupos não quebram
Abri a janela e encarei o vento
Que a minha casa é feita de verdade
Paredes erguidas do barro que sou
Adobes de coragem e coração
Tudo alumiado por lúcido clarão
TAMBÉM HÁ POESIA NO QUE NÃO TE ESCREVO
Amar-te é brincar às escondidas com o destino
É desesperar no tempo e questionar se existes
Se demoras, se chegas, se ficas, se tornas a vir
É querer-te e rasgar caminhos para fugir de ti
Amar-te é um emaranhado de coisas por dizer
É um sem-fim de apagar poemas sem sentido
De dizer com os olhos o que os dedos omitem
Pois também há poesia no que não te escrevo
Amar-te é isto e tudo o mais que não se explica
As cores dos pássaros que à noite me visitam
Esta inquietação constante na pele dos lábios
O contar das horas que ainda faltam para te ter
OS MEUS OLHOS
Quando a noite
pousar sobre ti o negro manto
e sentires que as estrelas te perseguem
que dançam ao teu redor, em burburinho
não tenhas medo meu amor
o que ouves são os meus olhos
que no escuro te acompanham
para salpicar de luz o teu caminho
ALVORADA
Alvorece
as gaivotas acordam a cidade
os sinos cantam ao desafio
com os sonhos interrompidos
a maré lambisca a margem
os raios de sol diluem a bruma
e os meus lábios fogosos
engomam as rugas do teu corpo
com a mesma devoção
com que a natureza regenera.
AMÊNDOA AMARGA
Rasguei com as minhas mãos
todas as promessas
abri as portas
vesti-me de vento
a afastar de mim o teu perfume
pintei-me com o roxo das dores
com o vazio dos dias
provei o fel do desencanto
minha amêndoa amarga.
ANTES QUE O OUTONO ACABE
O tempo é como as casas
que nunca mudam de cor
é um velho
de olhar absorto e casmurro
a lembrar as nuvens cinzentas e gordas
debruçadas em prédios da mesma cor
assombrando as vidas das pessoas
cinzentas e gordas
que se arrastam pelos passeios.
é um velho
que se perde nas listras das passadeiras
para não alcançar a vida que lhe acena
do outro lado da rua.
pele tricotada pelo sol das searas
pés gretados pelo pó dos caminhos
peito oprimido pela incerteza das horas
olhos secos pela longevidade dos dias
o tempo é como as casas
que nunca mudam de cor
é parede baça que urge pintar
antes que o outono acabe
EM TUDO TE APRENDO
Pé ante pé, descubro os sinais
que os teus olhos pintam nas casas,
nas montras, nas mesas dos cafés.
Recados que me deixas
espalhados pelos cantos da vida,
como quem escreve cartas à lua
ou testamenta o oiro que há de vir.
Essa voz que rasga caminhos também é tua.
Sigo-a, até onde perco e recupero sentidos,
semeando promessas entre os dedos
das quatro mãos abertas.
Contigo aprendo os trevos, os pampilhos,
o voo dos flamingos, o ranger das bicicletas...
Em tudo te aprendo e me vejo sorrir.
O PRIMEIRO DIA
Era um dia igual
aos dias de todas as vidas
o rosto era-te igual
a todos os rostos que esperam
entrançavas sorrisos
com gestos suados
as mãos roxas de ansiedade
os olhos frenéticos
a boca madura
o céu tinha o azul
amarrado a um canto
tinha o encanto dos pássaros no ninho
e juras das mais variadas cores
abracei-te, ponte a unir
as margens do desejo
disse-te de um sopro
os versos que me inspiras
e as tuas pétalas abriram-se
continuas sem saber resistir
a esta minha vontade de te ter.
DESPEDIDA
Escrevo-te ao canto da sala
de uma casa mal construída
e desarrumada.
São seis da manhã.
O relógio de parede demitiu-se do seu propósito
mas lá fora os galos avisam que o dia acordou.
Espreito pela janela
e deixo o olhar estilhaçar-se
contra o desalento das árvores nuas de dezembro.
Seus troncos disformes
parecem ruínas, escombros pintados
da cor dos amantes perdidos
na incompatibilidade da carne.
Vê como sorriem os homens desta história
tímidos como os pássaros
que procuram refúgio nas árvores nuas.
Vê-os sentados à beira do destino
remendando as brechas da sua miséria.
Falta-lhes tempo para chorar a sorte.
Sobra-lhes pernas, mas falta-lhes chão.
Observo-os, barquinhos azuis
ancorados no rio que banha a minha aldeia,
águas que correm e escorrem o sangue
a tantas promessas que a vida lhes fez...
Não sei há quanto tempo
não crescem cidades na minha cabeça.
Urge resgatar as memórias que o tempo comeu.
Romper estradas, plantar jardins
desenhar a lua no céu apagado
e estrelas a saltitar por cima dos prédios.
Urge pintar os barcos de outras cores
pois nem só no azul se constroem sonhos.
Escrevo-te porque abri a janela
rasurei a timidez dos pássaros
e eles cresceram dentro de mim.
Quando voltares já eu terei voado, sorridente
como o petiz que se despede do baloiço da infância
na hora de mudar para uma ilusão ainda maior.