Eu anelava o findar do dia. De repente uma sombra veio e cobriu-me. Então ouvi a voz de um dos empregados do fazendeiro:
"O patrão quer falar com você."
Sebastião era um sujeito ruivo, barbudo. Deveria ter quase os seus quarenta anos. Ereto, ele montava um grande cavalo marrom do outro lado da cerca, provavelmente o seu cavalo favorito. Usava uma camisa de algodão aberta na altura do peito, de onde saiam espessos tufos de cabelo.
"Comigo?", balbuciei.
Ele assentiu, baixando a aba do chapéu e ocultando um rosto severo. Moveu as rédeas e as pernas e deu meia volta, afastando-se. Eu, por minha vez, terminava de ordenhar a última vaca. Sequei a testa. Coloquei o balde de canto, assim como os demais. Deixei os meus ombros magros caírem e respirei fundo.
"Só irei tirar a lama das botas primeiro", eu respondi com um sorriso ao mesmo tempo forçado e tímido.
Fiz conforme o prometido. Mais tarde bati na porta com os nós dos dedos. O som de passos, e então a maçaneta girou. Dois olhos apareceram na fresta. O fazendeiro abriu-me a porta, e usava um belo cachecol listrado. Uma mesa do lado esquerdo da sala.
Disse-me: "sente-se" e eu me sentei, como um cachorrinho. Tentava me controlar. Encurvado, as mãos trêmulas sobre a mesa, evitava olhar para o seu rosto.
"Que tal uma bebida?", perguntou ele num tom amistoso.
"Não, obrigado, senhor", foi a minha resposta.
"A bebida é minha", ele disse erguendo a taça cheia e pousando a outra mão sobre o peito. Enfim uma bebericada. "Já ouviu falar em meritocracia?", perguntou.
"Não", respondi. "O que é isso?", perguntei, tentado parecer verdadeiramente interessado.
"Quer dizer que cada um merece o que tem", ele disse. "Existem direitos invioláveis... Eu mereço tudo o que tenho, não mereço?"
"Claro, claro!", eu me apressei em dizer. "O senhor é muito trabalhador, desde... desde... desde sempre!"
Seus olhos estavam vermelhos devida à bebida. Sua boca exalava um forte cheiro de álcool, capaz de embebedar um exército.
Eu anelava o findar do dia. De repente uma sombra veio e cobriu-me. Então ouvi a voz de um dos empregados do fazendeiro:
"O patrão quer falar com você."
Sebastião era um sujeito ruivo, barbudo. Deveria ter quase os seus quarenta anos. Ereto, ele montava um grande cavalo marrom do outro lado da cerca, provavelmente o seu cavalo favorito. Usava uma camisa de algodão aberta na altura do peito, de onde saiam espessos tufos de cabelo.
"Comigo?", balbuciei.
Ele assentiu, baixando a aba do chapéu e ocultando um rosto severo. Moveu as rédeas e as pernas e deu meia volta, afastando-se. Eu, por minha vez, terminava de ordenhar a última vaca. Sequei a testa. Coloquei o balde de canto, assim como os demais. Deixei os meus ombros magros caírem e respirei fundo.
"Só irei tirar a lama das botas primeiro", eu respondi com um sorriso ao mesmo tempo forçado e tímido.
Fiz conforme o prometido. Mais tarde bati na porta com os nós dos dedos. O som de passos, e então a maçaneta girou. Dois olhos apareceram na fresta. O fazendeiro abriu-me a porta, e usava um belo cachecol listrado. Uma mesa do lado esquerdo da sala.
Disse-me: "sente-se" e eu me sentei, como um cachorrinho. Tentava me controlar. Encurvado, as mãos trêmulas sobre a mesa, evitava olhar para o seu rosto.
"Que tal uma bebida?", perguntou ele num tom amistoso.
"Não, obrigado, senhor", foi a minha resposta.
"A bebida é minha", ele disse erguendo a taça cheia e pousando a outra mão sobre o peito. Enfim uma bebericada. "Já ouviu falar em meritocracia?", perguntou.
"Não", respondi. "O que é isso?", perguntei, tentado parecer verdadeiramente interessado.
"Quer dizer que cada um merece o que tem", ele disse. "Existem direitos invioláveis... Eu mereço tudo o que tenho, não mereço?"
"Claro, claro!", eu me apressei em dizer. "O senhor é muito trabalhador, desde... desde... desde sempre!"
Seus olhos estavam vermelhos devida à bebida. Sua boca exalava um forte cheiro de álcool, capaz de embebedar um exército.
612
Plano para enriquecer N° 2
As pessoas possuem direitos sobre o próprio corpo. É difícil definir os limites do corpo. Portanto, também é difícil definir os limites dos direitos relacionados ao corpo. A perna robótica de um deficiente físico é parte do seu corpo? Achamos que sim, ainda que seja artificial. Reflitamos. O corpo da mãe de repente se transforma no corpo do filho e ela, progressivamente, vai perdendo o direito sobre ele. Então, num dado momento, não mais poderá abortá-lo, como se fosse seu corpo, e não mais poderá dizer: "meu corpo, minhas regras". Do mesmo modo, penso eu, depois de um tempo o trabalhador e os meios de produção se fundem com vigor, a ponto de confundirem-se e tornarem-se uma única coisa. Quebrando o silêncio, de súbito grita uma costureira no meio da fabrica: "eis que esta máquina de costura se tornou uma extensão do meu corpo!" E, de fato, passados muitos anos naquele lugar, sentada, inclinada, quieta, a máquina de costura se torna parte dela. Não só a velha máquina, como também a tesoura, o tecido, os botões, a linha, as paredes, etc. etc.
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477
Plano para enriquecer N° 1
Eu moro em um barraco e só tenho uma bicicleta, mas conheço muitas pessoas que usam carro com frequência. Pensando um pouco, talvez quase todas as pessoas nessa cidade, nesse estado, nesse país usem carros. Carros poluem, bicicletas não poluem. Parece-me portanto que se eu quiser, posso processar as pessoas que poluem o ar com os seus carros. Parece-me também justo que eu possa cobrar pelo menos dez Reais de cada uma delas como indenização ou como uma pequena tarifa, já que o ar impuro que sou obrigado a respirar, entre outras coisas, afeta a minha saúde, algo que para mim possui um valor incalculável. Por fim, depois de cobrar dez Reais de cada uma terei uma quantia considerável. O que pretendo fazer com essa quantia? Comprar um carro e uma casa no lado rico do Rio. Se eu for tarifado ou receber um processo de outro ciclista, como terei feito antes disso, eis que perderei apenas Dez Reais. Ainda é um baita lucro!
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493
Uma tarde
Um mar de gente. Entrei no trem dando cotoveladas. Assim que conquistei o meu lugar, entre um aleijado e uma moça grávida, entrou uma velha senhora com uma bengala na mão. "Essa vaga é preferencial", ela disse. "Desculpe, minha senhora", eu respondi respeitosamente. "Sinto dizer-lhe, eu sou contrário a qualquer forma de coerção ou assistencialismo estatal." Ela olhou para mim entendendo bulhufas. "O quê?", perguntou. "Nós, liberais, valorizamos a competição, a liberdade, a meritocracia. Eu, como pode ver, cheguei aqui primeiro. A senhora, sinto dizer, ao exigir um lugar já ocupado, está demonstrando inveja. Constrange-me! Recalcada, sim, a senhora é uma recalcada!", expliquei. Depois de me ouvir com atenção, um homem portando um chapéu coco ficou vermelho e disse indignado: "Por Deus, rapaz, que diabos!, essa companhia de trem é privatizada!" E, diabos mesmo!, era! e tive que levantar o meu traseiro de lá.
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475
O braço do fazendeiro - parte 2
"Digo mais: tenho o direito de proteger tudo o que é meu!", ele prosseguiu. "Pois bem, meses atrás fiquei sabendo que um crioulo entrou sorrateiramente em minha casa, na cozinha, a noite, e comeu um bolo de frutas que eu tinha sobre a mesa. Tratei de me informar imediatamente sobre o assunto.
476
A víbora
Sei que definhas enquanto te vingas,
víbora pérfida e atroz.
Em espumante obstinação praguejo-te e ultrajo-te a madre.
Ainda sinto o palpitar da ferida;
gemidos febris, assombrosas alucinações
perturbam-me a cabeça úmida e entorpecida.
Corpo convulso;
imagem pálida, informe e confusa a rodopiar.
Como te comprazes, oh besta perversa,
no ranger dos dentes sempre que não encontram na boca seca a língua inquieta a fim de mordê-la!
Por que me desampara o cobertor caído fora da cama?
Porventura, vendo-me cair em desgraça associou-se à ela? Rá, rá, rá! Lá está ela, a maldita serpente, fitando-me, fitando-me, com suas presas peçonhentas agarradas ao meu calcanhar!
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451
Luz
Alastra-se a luz, adentra as cavernas fundas e intransitáveis. Desvanece-se a obscuridade da alma, desvanece-se a alma, em parte, obscura. Quanto mais me aproximo da claridade, quanto mais se alarga a luminosidade, quanto mais se robustece a lucidez, menos alma me resta, mais facilmente desfaço-me, tal qual papel embebido, tal qual um besouro contumaz na lâmpada. Porque o homem fatigado procura repouso na sombra, porque luz em demasia nada revela, cega-nos, porque logo cedo me dissolvo no "haja luz".
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466
Perguntou-lhe o sol
Perguntou-lhe o sol: "Por que é que insistentemente me trai, bela flor,
com a água refrescante da chuva?
Pois sob a superfície seca da terra,
longe do alcance dos meus olhos,
ela abraça as suas raízes sem nenhum pudor!"
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448
Na madrugada
Encontrei Deus fora da igreja numa dessas madrugadas muito loucas. Assustei-me, dando um grito e um salto, e tentei esconder as minhas garrafas de cerveja atrás das costas. Por fim, curvei-me, reverente, retirando o boné da cabeça.
- Oh, desculpe-me, vossa santidade, estou bêbado.
- Eu sei. Não se culpe, meu filho. Por acaso, não transformei água em vinho?
- O Senhor está mesmo em todo lugar?
- Em todo lugar que não seja igreja - respondeu-me, rindo.
- Sempre desconfiei disso! Pegue uma garrafa.
Ele então pegou a garrafa, segurando-a firmemente, e a virou na boca, dando uma golada inacreditável. - É da boa! - disse, sorvendo o resíduo que ficara nas gengivas.
Gostei dele de cara. E ele gostou de mim, eu acho. Estreitamos as mãos e caímos noite adentro. Era uma sexta-feira. Ou sábado. Ou qualquer outro dia da semana.
Ele tinha uma barba vasta e tatuagens maneiras espalhadas pelos braços. Correntes no pescoço. Uma camisa surrada debaixo de uma jaqueta estilosa.
Descemos algumas ruas estreitas e vazias até chegarmos a uma rua larga, depois do mercadinho do Elias. Passamos pelo coreto a passos lentos e trôpegos, assim como pelos pontos de ônibus da praça, e viramos no trilho que fica atrás da estação, além de um terreno baldio. A seguir, chegamos a uma das poucas ruas asfaltadas do bairro.
Cantamos abraçados, um se apoiando do corpo do outro. A lua e as estrelas brilhavam sobre as nossas cabeças. Chutamos algumas latas de lixo que encontramos pelo caminho, aos risos. De uma dessas latas saltou um gato que, assustado com o pontapé, miou como uma criatura recém saída do inferno, e, agitando-se, arranhou o meu rosto. Deus gargalhou, quase se mijando. Eu, a choramingar, praguejei-o por ter dado garras tão afiadas aos felinos.
- Cale a boca, tome outra cerveja - aconselhou ele, retirando uma garrafa do nada.
- Mágica?
- Não, é cerveja mesmo!
Rimos. Bebemos. Era ela três vezes mais gelada e mais saborosa! Abraçamo-nos outra vez e continuamos andando, com nossas cantorias incessantes e cheias de ânimo. As ruas não acabavam e pude notar que iam ficando cada vez mais iluminadas, pois as lâmpadas se multiplicavam. Podia-se também ouvir um certo burburinho adiante.
Tamanha foi a minha surpresa quando Deus parou diante de um prostíbulo!
- Irá entrar aí? - perguntei, desorientado. O álcool mexia com a minha cabeça.
Ele assentiu.
- Maria Madalena não está aí, Senhor! Morreu há dois mil anos.
- Deixe de ser hipócrita - ele disse, ríspido. - Quando eu afogo a humanidade num dilúvio ou peço para o meu povo tirar a vida de crianças pagãs, você diz que não devo satisfação a ninguém do que faço, mas quando digo que irei comer umas putas, você faz este dramalhão todo?
Engoli a seco, lembrando-me de que a Deus não se contesta; obedece-se. Não querendo parecer moralista, refiz os ares e perguntei se poderia ir junto.
- Há seis anos que eu não peco! - exclamei.
- Seis anos? - perguntou ele com ceticismo. Eu respondi que sim. - Todos têm pecados... - prosseguiu.
- Eu não disse que não tenho pecado, eu disse que não peco há seis anos.
- É um homem muito engraçado - ele disse, matreiro. E me deu um tapa nas costas. Piscou um olho, um belíssimo olho. - Ontem abri o mar Vermelho, hoje abrirei algumas pernas! - exclamou, atravessando as cortinas coloridas que ornamentavam a porta do recinto.
Iria segui-lo imediatamente, mas ao voltar o rosto algo que chamou a atenção. Avistei um membro da igrejinha que eu frequentava todos os domingos, do outro lado da rua. Ele adentrava a sua casa pelo portão da frente, com capa longa, chapéu na cabeça. Chegava de uma vigília, depois de feita muita oração e leitura da Bíblia. Inquietei-me. Quis dizer a ele tudo o que se dera naquela madrugada. De como tudo aquilo era incrível. Do quanto Deus era engraçado e do quanto gostava de sair por aí, vadiar, foder mulheres, divertir-se e repetir alguns palavrões, como quase todo mundo normal. Lembrei-me, para meu desgosto, de nosso pastor, que pregava com fervor durante os cultos: "A mamadeira é uma das piores invenções dos últimos tempos. Amamentar é uma função exclusiva da fêmea, da mãe. Não do pai, o macho. A mamadeira, irmãos, desvirtua a sagrada família!"
Ele ficou branco como papel quando eu lhe contei tudo, tintim por tintim. Os lábios trêmulos, os olhos escancarados, enquanto me ouvia.
- Você encontrou Deus? - perguntou, colocando a mão sobre o peito.
- Sim! Sim!
- Não acredito!
- Venha comigo! Irei mostrá-lo!
- Não posso!
- Por que não? Fale homem! Um gato comeu a sua língua? Fale!
Ele bambeou como se fosse cair e tive que o segurar pelos ombros. Ajudei-o a se apoiar no muro. A testa empapada refletia a luz da lua e da lâmpada do poste.
- Que horror! Que horror! - exclamava.
- O que foi?
- Que horror! Que horror!
De cabeça baixa disse, como se lhe faltasse ar puro para respirar:
- Eu não estou, de fato, interessado em quem ele realmente é ou foi, mas na minha idealização, pois ele, suponho, pode ser insuficiente em si mesmo. Não o amo de verdade, acho. Ama-lo-ia se o aceitasse como ele foi, o que não tolero. Uma idolatria, portanto! "Não terás outros deuses diante de mim", diz a Escritura. A religião cristã é o meu único Deus, o Jesus mítico, não o Jesus histórico. Dane-se este!
Ditas estas palavras, desvencilhou-se de mim e correu, subindo apressadamente a escada. E bateu ruidosamente a porta atrás de si, ocultando-se, crendo ser tudo aquilo um sonho. Um pesadelo. Escapara.
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469
O operário
Cheguei em casa demasiado tarde. Outra vez não pude subir ao quarto de meu filho. Quando o fizera pela última vez? Não sei. Bem verdade, havia muito que, por estar ocupado e fatigado, não podia dar-me o prazer de ir contemplar o seu rosto. As minhas pernas, doloridas, não foram capazes de subir as escadas, embora eu tenha me esforçado tentando dar um salto atrás de outro. O corpo, cambaleante, larga em algum momento o corrimão, despenca sobre os degraus e dorme, sempre. Acordei num susto, com baba escorrendo da boca. Havia sonhado novamente com a fábrica. Meu filho, por sua vez, não fora capaz de ficar acordado até tarde.
A vida é a mesma. A fábrica tem me exigido muito, como sempre. Ela é cruel, tão imutável quanto deus. Ou mais. O mercado no entanto cuida de nós, ainda que com sua aura vampiresca e nos roubando a alma com mãos fortes.
Certo dia encontrei um bilhete sobre a mesa. Pude lê-lo antes de dormir. Ou melhor, antes de cair no sono.
"Boa noite, papai", dizia o texto.
Meu coração ardeu, e depois de muito tempo não mais me senti uma máquina.
Era humano e um coração palpitava em meu peito. Ele mesmo, o estrangeiro, o segundo apêndice, que andava calado, mudo, tímido, rebelava-se.
"Passaram-se doze anos!", pensei aos prantos com uma tribulação desvairada, um tremor violento, febril. "Sim, sim. Num breve piscar de olhos. Doze anos! Dezoito horas diárias. Doze anos!"
Perguntei-me, admirando a sua porta, distante, elevada, com quem ele havia aprendido a escrever. Não fora comigo, certamente. Toda sua infância me escapou como água escorrendo entre os dedos. Só ali me espantei. Dei-me conta do que estava a perder e veio-me à memória o que eu tinha em mente ao planejar uma família. Pensei em subir ao seu quarto. Levantei-me, mas minhas costas estalaram. Estava exaurido, doente, sonolento, morto. Não pude vê-lo também. Desfaleci logo.
Caído ali, sonhei com ele pela primeira vez depois de muito tempo. Era todavia uma imagem pálida, informe, vazia, abstrata. "Ama-me?", perguntei-lhe no sonho, mas em seguida me lembrei de que não mais reconhecia a sua voz. Como então poderia responder-me? Falava e eu não o ouvia!
Como era meu filho? Como? Provavelmente possuía o mesmo rosto de outrora, só que um pouco mais amadurecido. Mas... também não o recordo! Que pai horrendo eu sou! Um monstro!
Eu e minha filosofia. Comer, dormir e trabalhar. Mais anos se passam. Voam com asas de aço. Comer, dormir e trabalhar. Mais coisas se perdem. Sofrer e trabalhar, trabalhar e sofrer.
Nada mais resta.
De repente numa noite, pouco depois de chegar em casa, ouvi o som de passos, o barulho da porta rangendo e um grito.
- Um ladrão! - parecemos gritar ao mesmo tempo.
Um jovem estranho apareceu pela porta e nos atracamos. Ambos estávamos assustadíssimos, trêmulos, com os olhos escancarados. Rolamos pelo chão da sala, ele com uma faca na mão. Eu segurei-o pelo pulso, ele esmurrou o meu rosto, rangendo, enforcando-me. Tentei imobilizá-lo. Nossos olhares se encontraram. Ele golpeou-me com o punho cerrado. E, então, urrando como um animal, tomei a faca de sua mão e... e... esfaqueei-o!
No peito, fatalmente.
Só mais tarde, passado o calor do momento, dei-me conta da tolice que havia feito.
Seu rosto, para meu espanto, parecia-se com o meu e sua tristeza refletia a minha.