Gabi Luna

Gabi Luna

Autora multimídia. Carioca do asfalto, radicada no mundão. Pesquisadora de arte, tecnologia & publicações independentes. Cria literatura experimental com diálogos entre linguagens e tecnologias. @amazonahightech

n. 0000-00-00, América Latina

Perfil
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a gata de mil patas

Uma gata de mil patas invadiu a minha sala. Estava tudo tão vazio e calmo que eu nem me preparei. Quando percebi, se alojava em minhas vestes, tomando o colo pra si, ou era eu quem aninhava no colo que era dela. Embalsamada em ternura, esquentei minhas mãos naquela pele e afundamos na companhia uma da outra. De vez em quando vinha uma inspiração. Ela, de seu universo interno, calmamente devolvia o novelo pra mim. Costuramos mundos caminhando noite a dentro. Virando latas, lambemos a poeira das estrelas de cada constelação. Percorremos horas, dias, meses, até que contar o tempo perdeu totalmente o sentido. Nos engalfinhamos também. Grunhidos incessantes cortavam a luz da lua nas horas de dedicação. Secretamos. Camufladas sob o lírio. A gata e eu nos fundimos formando um novo ser. Toda sorte de prole parimos. Depois ela partiu, eu também, mas nós nunca nos deixamos. Vivemos na intensidade das doses homeopáticas que nos preocupamos em servir a conta gotas, por consciência, do risco que corremos de sorver completamente uma a outra.


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“A gata de mil patas”, foi escrito por Gabriela Luna em 2018 e publicado no mesmo ano nas páginas de “Que o dedo atravesse a cidade, que o dedo perfure os matadouros”, livro artesanal criado em colaboração entre Palavra Sapata, Sapatão Ficção & Colaboratório.
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Biografia
Autora multimídia. Poeta de rua. Carioca do asfalto, radicada no mundão. Pesquisadora de arte, tecnologia & publicações independentes. Produz literatura experimental com diálogos entre linguagens e tecnologias. Autora do projeto Mulheres Escritoras: histórias de publicações independentes; integrante do coletivo Nós, as poetas!; realizadora da série documental Rua da Poesia; curadora e co-produtora em projetos culturais, artísticos e literários; encadernadora; revisora; preparadora de originais e autora de novos paralelos em @amazonahightech

Poemas

3

Tempo de café

Antes de tocar o despertador, levantou. Perdi a hora! Os passos largos pareciam ensaiados. Pra ter certeza, foi até a cozinha. Sete e vinte e cinco, disse o relógio na parede. Colocou a mão na térmica. Gelada. Não olhou, não contou. Alcançando a chaleira, encheu o suficiente para uma xícara. Em casa, ela foi a última a acordar. Riscou o fósforo com a mão que se libertava do inox pousado na grelha. A água terminou de lhe lavar o suor na mesma hora em que ferveu na cozinha.

O cheiro de manhã subindo esvaziava o filtro, enquanto o lençol se esticava e o edredom virava um quadrado. Pousou-o onde antes estavam seus calcanhares sonolentos. A lama escura no fundo do funil se embebeda de uma nova dose d’água. Protetor solar, corretivo, delineador, básico. Já não precisava que lhe dobrassem as pernas das calças.

Na xícara de sempre os pensamentos ondulavam despreocupados. Acho que hoje dá tempo de passar na praia. Desliza a margarina pela torrada enquanto olha o quintal. Pequenas poças evaporavam e o verde brilhante das folhas eram as pistas. Alguém esteve ali pouco antes dela. Tomou a mochila por uma das alças e saiu pelo portão sem pressa. Trocando bons dias, caminhou léguas.

Naquele instante, naquela cena, notou. Mesmo de longe o sol brilha. Num afago quente e contínuo dá a luz todo dia à toda e qualquer noite fria. A perfeição inalcançável que os filmes vendem, já nem era lembrada, o que valia mais era o caminho e com quem se andava.


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Tempo de café foi o primeiro conto enviado por Gabriela Luna para um concurso literário. Na ocasião, a autora enviou para o "Bibliotecas Parque: Minicontos de Verão - Escritos mínimos, quentes histórias", em 2016. O impeto de compartilhar as historias escritas nasce depois da oficina de escrita criativa ministrada por Simone Ricco, na Biblioteca Parque Estadual.

202

Greve geral dos objetos:

Do alto da torre, os ponteiros permitem contar. Longitude e latitude já não são suficientes. Escorrem de suas veias fardos e fardos de gente. Já passa da meia noite, os humanos não circulam mais. As coisas, de longa data, fiam conspirações.

a sacola, os restos e a catraca:

- Quanta coisa me entra e sai nessa rotina indigesta. Me pegam de qualquer jeito, jogam em qualquer lugar… só quando carrego seus, insignificantes, valores a vida muda de figura. Compactam, enfiam; me põem sempre sentindo. Fazem de conta não estar comigo. Tudo medo do assalto. Que lhes levem o pouco que tem. Migalhas.

As palavras da sacola invocaram a presença delas próprias, as migalhas. Pisoteadas, habitantes dos cantos e frestas. Os restos, se aglomerando numa aparente desordem patética, entoam suas palavras como um só ser; enquanto o vozerio enfarofado projeta pequenos pedaços de lanches por todo o raio de sua circunferência.

- Me varrem e pisam. Fingem que não existo, sou lixo. Saibam, sou os restos das bocarras apressadas, deixado para trás, enquanto eles se atracam nos CURRAIS do até amanhã.

O tom da voz, já gritado, se fez estridente quando a palavra “currais” foi mencionada. Uma ânsia causada pela cólera, ou pelo excesso de comidas oleosas, deflagrou uma cusparada sobre as mais temidas agentes dessa estação ferroviária. Enfileiradas numa linha prateada, lá estavam elas. Porteira da pocilga enlatada sobre trilhos, arribana, ovil. Corte do gado gente, as catracas:

- Me prostraram aqui. Estagnada no meio do caminho. Rodo em um eixo tão estreito, pouco sei do tamanho da vida. Medito nas bainhas das calças que pagam por mim. De hora em hora desengasgo, quando aqueles operários vêm retirar o extrato da alienação que me mantém. Vomito caminhos partidos; abarco, abarco, abarco; e sigo estagnada, com o movimento limitado a um raio como esse; tão estreito… Estou farta! Esqueçam o vermelho e o verde. Eu gostava daquelas crianças, e agora estou com elas, quem quiser passar, que pule. — talvez essa tenha sido a hora em que a maior parte dos objetos abandonados pelo chão da central se espantou.

Desde os que se negaram aos que apoiavam silenciosamente, passando por aqueles com os quais o movimento não havia dialogado, todos se assustaram ao ouvir o ranger das engrenagens das roletas. Atravessando uma dobradiça na roldana principal, todos os torniquetes de acesso se declararam, terminantemente, emperrados:

- CLAAAHCK VRUM!

Um movimento de tal porte gera sérias consequências. A primeira delas foi o ar, uma corrente de vento descabida, vinda de pequenos sopros expulsados todos ao mesmo tempo de dentro das entranhas dos agentes supostamente opressores. Se revirando inflada, a sacola sobe a mais de três metros do chão, e diz em tom de voz imponente:

- Unidas somos imbatíveis, eu acredito! — de mirada no lixo acumulado, disse — Tu, convoca todos os restos! Todos os que foram deixados de lado. Moradores das sarjetas e beiras do mundo inteiro — e em um sussurro continuou — caminhe pelos túneis, hão de ser condescendentes.

- De certo, o faço! — respondeu o lixo da Central do Brasil inteira se amontoando sobre a catraca de onde, olhando para baixo, ordenou — Tu, não te movas! Ainda que forcem, ainda que empurrem e roguem. Se quiserem chegar aos seus destinos, que pulem. Só os ousados passarão!

- E que pulem alto! — disse a catraca, blindando ainda mais as engrenagens.

- Com um sopro alcanço léguas. — disse a sacola — Cuidarei de espalhar a notícia. Greve geral dos objetos!

Com o brilho dos primeiros raios de sol inundando o alto da torre do relógio, começavam a lamber de gente os trajetos para o centro. A esta altura, as catracas de todas as estações já estavam avisadas. A sacola, cidade acima, passou a madrugada pegando vento pelos trilhos, pelos bueiros, no guetos, e em todos os lugares onde só quem é, iria, por trabalho dos restos, o levante já estava instaurado.

Até os ralos das cozinhas, a essa altura, já sabem: ninguém se mexe, isso é um ato revolucionário. Os eletrônicos, corrompidos pelos dígitos, continuam em modo de trabalho. De modo que, alguns humanos malditos demoraram a entender como as coisas estavam mudadas.

As coisas estavam em greve, paralisação dos objetificados: um dia sem ninguém para ocupar os postos de trabalho. Das janelas de casas tentando acordar, vemos uma chaleira se recusando a ferver a água do café, que por sua vez, também se recusa a sair do pote; vemos um chinelo revoltado se recusando a entrar no pé e uma bica de chuveiro, terminantemente emperrada.

Telefones não param de tocar. Os chefes, dos chefes, dos chefes sem saber o que fazer. O mundo entrou em pane, colapso do sistema. As manchetes de jornal continuam a pipocar como podem, e em cada tela vemos um assistente se degladiando com um refletor ou teleprompter. As coisas estão mesmo organizadas, o repórter começa a dizer:

“Ainda não foram identificados os objetivos desse black-out nos serviços básicos dos cidadãos da região metropolitana. Aparentemente, os objetos estão se recusando a ser utilizados. Já foram relatados casos em toda a cidade. São facas se fazendo de cegas, molas que não pulam e rodas sem girar. Qual será o objetivo desse levante? Teremos que assinar a carteira de nossos liquidificadores? Seria essa uma reivindicação de humanidade? Como pensar em direitos para as coisas?…”

Nunca saberemos quais conjecturas mais o tal repórter seria capaz de fazer. No decorrer das últimas frases no ar, a imagem das tvs se tornou instável, com muito chiado e interferências, até que ficou impossível entender o que estava sendo dito e todos os aparelhos deixaram de funcionar.


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Greve geral dos objetos é um conto escrito entre novembro de 2019 e julho de 2020. Publicado para integrar o pacote de entrega de obras literárias para a Prefeitura de Santo André, em parceria estabelecida através de Chamamento Publico de Agentes Culturais para o Fundo de Apoio a Gestão Cultural.
 

Apoio Prefeitura de Santo André

 

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absorvente, bem mais que copo d'água, não se nega a ninguém

a febre anuncia resistência. corre mais um ciclo e o punho sangra no final. doses cavalares de estrogênio indo ao mar, terra, escorrendo pela perna ou encontrando o algodão. um corpo preparado para criar outro corpo, quase meu, quase eu, quase quem eu nem seria. um ovo quebrado. os últimos vinte e oito dias vão virando o vir. o ir. o rio, maremoto, maresia.

grita. espirro. expulso o sentido da vida. tsunami carmim. me encontro à beira de mim. no meio do sofá na sala da minha tia. o sinal de estar viva. neta, menarca. vó, menopausa. cuidado para não manchar a toalha. o sangue fruto da vagina, fruta mordida. ninguém me ensinou de quanto em quanto tempo trocar. respeitar. os ciclos da vida. peço emprestado esse crime de estado, o absorvente.

camomila, erva cidreira, artemísia, canela, capim limão, escalda pés de alfazema. ler o próprio corpo. se perceber. fértil. querer. foder. gozar. receber. ser. indignar. transtornar. ensombrecer. sentir o corpo retendo líquido. tudo o que eu bebo, toda a água do mundo, meu corpo contém, meu corpo retém. viro um balão, balão de líquidos. explodindo. noutra onda desse rio, meto dois dedos e sinto o líquido quente tingir-me a mão. espalmo sobre uma folha do caderno, o sangue forma um desenho. coelho. flor. mulher. mula sem cabeça.
 

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Um poema escrito por quem sangra e nem sempre tem como estancar, pela “maioria silenciosa”, pelo Brasil que habita as entranhas de Gabriela Luna.

Publicação corpo oral ocorrida no lançamento do Volume 43 da Revista do Centro Brasileiro dos Estudos em Saúde: “Outros olhares sobre a reforma sanitária brasileira”, em Dezembro de 2019. Editado na zine “Diálogos com a Saúde Pública”, pelo Coletivo Nós, as poetas!, no mesmo mês e ano.

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joaoeuzebio

LINDO POEMA É UMA CONSTELAÇÃO DE DESEJOS E PUREZA PARABÉNS