sala de transmissões troncais
um cheiro quente e amargo inundava as mãos, enlaçando fitas ao redor dos tornozelos. o mordisco nos lábios. invasão sem chave nem arrombamento. em algum lugar entre a sétima cervical e a primeira torácica. um calafrio na medula. delírio à flor das paredes da sala de audições. consolidação do bulbo.
no lotado do vazio, três bocas molengas acordam e fitam os rabiscos em suas pranchetas, não dão conta. as imagens nas câmeras não dão conta, a memória imaginada não dá conta. não dá conta. a vegetação já havia sido devastada e só restava um emaranhado na barra do espelho. correndo por dentro do escapamento de mais um desses ônibus pra casa, recapitulava cada movimento. os fios de sua matéria já destensos. a casa-mundo-corpo se expande e contrai, materializando um bom milheiro de tijolos calafetados com lama e musgo. ascendeu; mais um daqueles incensos de mirra. vibra kemet inteira para fora da narina esquerda, a direita está entupida. de mirada na raiz das penas crescendo sem parar. movimento. o corpo em gargalos calibrando potências. Pliè, chase, jetè — eu não caibo dentro dela. o espaço do vazio no tempo deixou a sala de audição sem olhar pra trás, entrou na sala de transmissões troncais. eu era gases puro, vim a ser pódjehuty. parou quando viu brotar do couro, outrora cabeludo, a penugem do ovo comido. inspirar, esvaziar, perceber o vazio. interregno do invisível. re spir ação. gesto presente. escolher estar no mudo. acolher o ar do mundo. em contratempo, perceber a atenção da consciência. ser tudo, sentir total. abrir espaço no não ser. de cara pro espelho, o arfar refunda rios. risos enterrados em outras percepções.
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Sala de transmissões troncais é uma das historias curtas escritas pela autora. Publicada originalmente no livro Acolher o ar do mundo, lançado pela Garupa Edições, em 2019.
eterno domingo atarefado
durmo, acordo, durmo, acordo, num eterno domingo atarefado. o corpo quente pelo sol das duas, vitamina atravessando a janela sem dó. estatelada nas camadas da morte passada, com o mundo embaçado, ponho café. a casa a mil por hora e eu acordei aqui, de novo. to começando a me acostumar. volto para o quarto, vejo a pilha de trabalhos acumulados. dedos e olhos examinando as pastas. dentre tantas tarefas de domingos, escolho uma pra executar.
no que eu quero ser feliz hoje? um rastro brilhante corta a parede. lambendo o quarto inteiro, deita seus raios sobre minha mesa de trabalho, me lembrando, ou obrigando, a acolher o tempo do sol. observo a cena, respiro, só tenho a esperar. com os olhos impressos no espelho, busco um agora onde colocar as voltas do tempo. uma forma de não só sobreviver, mas respirar o turbilhão, descobrir o ritmo desse imenso. descolar qualquer forma de ansiedade e desespero, qualquer apego. escorrer. morrer. não morrer antes de morrer. aqui. tanta coisa aconteceu e você-ainda-está-aqui, viva. ondulo um tapete azul, oceano esticado no chão.
o lado de dentro é tudo o que temos pra hoje, alongo o rastro. apesar dos pesares, dos temores, do passado. fisgando o peito, aceito. identifico, não me identifico. continuo a nadar. transpondo tensões. a palma de cada mão segura a planta de cada pé, serpenteando a coluna com algum tipo de clarão. conto, esvazio. o espectro de luz bifurcada transpassa o corpo em pose, desanuviando percepções.
tendões dilatados, a respiração se esvai. morrer por um momento. por um momento só. reorganizar. o lugar do amor, o lugar da morte. como é difícil perder um amor pra morte. amor. a morte. amor-te. adeus. agora. só agora. só tenho o agora, tantas vezes adiado, o agora. agora, agora. encarnado na noite que cai em silêncio, lubrificando o para raio dos sensos.
felicidade não é um sorriso na cara. o sorriso, muitas vezes, mascara. anos atrás eu não fazia ideia do que era sentir isso. eu vivia correndo. corria pra chegar na hora, corria do carro de polícia. corria de bala perdida e da milícia. corria pra receber, sem saber que isso era dar, me dar, me doar, eu nem sabia distinguir, esperar. uma carimbadora oficial. finalizando tarefas o suficiente para me afastar de qualquer rastro de mim mesma. o sorriso sempre no rosto, escondendo as entranhas em decomposição.
vendo daqui, respeitosamente, acho graça dessas voltas insanas da minha desventura em terra fria. acolho quem já fui. sinto meu corpo de ontem tremer por debaixo da pele de agora. uma folha dobrada, postura essencial. esboço das dobraduras possíveis. desdobro guerreira e solto. esbarro comigo no aqui e ali dos retângulos na parede. voo sendo mais quem sou, o corpo relaxado. qualquer música tocando. qualquer uma não, uma pra concentração. vou fazendo jogos comigo mesma, plano baixo, médio, alto, suuper alto. encontro por acaso com uma felicidade boba demais. parece uma névoa. de repente perco o tino, perco o tempo e nem sei a quanto estou aqui. é isso que você veio aprender, diz a voz na minha cabeça.
quadros e esquadros de um dia na quarentena. pc do colo pra mesa, faço o que tiver de ser. ainda tô pra decidir como me sinto sobre isso. por ora, sigo carimbando e entendendo os tempos de cada gesto. estou segura, não preciso correr. um longo caminho andado para quem sempre corre demais. pastas, dentro de pastas, dentro de caixas com papéis riscados em outros tédios, tempo pra resolver. desenrolar os novelos. linhas e mais linhas escritas em graffiti nas paredes. aspirar o ar do novo.
em contratempo, inspiro fincada no presente. concentração. fazer uma coisa por vez, mantendo-me presente em cada tarefa. concluir. passar pra próxima. realização.
durante tudo isso, banhos tão longos quanto um sonho se tornando possível. a prateleira abarrotada destas receitas caseiras abandonadas em busca de alguém. vaporizo preocupações, o tempo tem disso de ser quem vai. voraz ou singela, a água quente descola, ajuda a levar, já não aguento nem preciso aguentar; já não espero nem preciso esperar, solto. sinto o peso do gás saindo pelos poros, se misturando com a fumaça densa que enevoa a casa.
o jato quente flameja a derme, imprime sentenças na água corrente em lava. cabeça e músculos efervescendo. dissolvo e já deixei de ser, estar ou permanecer. me acalento no calor possível e sigo de volta ao quarto. detecto o calor marcando os trajetos do meu corpo na casa onde estou presa. essa mancha quente do banheiro pro quarto, do quarto pra cozinha, banheiro de novo, vez por outra, põe um nariz no quintal e corre de volta pro quarto. Ah, tenho um quintal!
mastigando a papelada, garanto uns metros quadrados. o preço é um valor combinado. ainda úmida, me jogo pra baixo das cobertas,onde fico até ter certeza de estar tranquila em cada célula do meu corpo. finanças equilibradas não significa, necessariamente, ter um emprego, mas dá trabalho. há quem seja acostumado com esse tipo de vida. eu, tô aqui, nessa lama, aprendendo a me moldar.
fui acostumada com suor na cara, internet discada e horas sendo roubadas pelo transporte público. a gente se acostuma, mas não devia. quando coloquei a mão em um cuspe no degrau de uma estação de trem, quis viver algo diferente. sem saber, eu desejei tudo isso.
desejei ter tempo pra me dedicar a essas tarefas acumuladas pelos becos da memória, para digerir essas crenças e construções, quase ruínas, martelando sentidos. eu quis acabar com a culpa. quis soltar o peso sem deixar cair em cima de ninguém. quis ser fiel a mim mesma. carregando só o preciso. reiniciar decibéis, rever a interpretação dos papéis.
conto mais vinte e quatro horas dentro. estar comigo. fecho os olhos, enxergo a tela. cada uma dessas pequenas telas, possibilidades gravitando na antimatéria. experimento algo novo: nem esperar, nem desesperar.
dormimos juntos todo dia, o Sedutor do Sertão e eu. me unto a pedidos da pele repuxando. são meus primeiros meses morando em um lugar frio, ainda estou reconhecendo as vantagens desse plano prime para o inverno.
entre quatro paredes de um quarto no interior de um estado que não é o meu, vivendo um status que ninguém me deu. alimento a melequenta. paro e observo.
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Eterno domingo atarefado é uma cronica escrita durante o período da quarentena no Brasil, em junho de 2020. Construída para integrar o pacote de entrega de obras literárias para o Apoio Prefeitura de Santo André, em parceria estabelecida através de Chamamento Publico de Agentes Culturais para o Fundo de Apoio a Gestão Cultural.
Omnibus
Já passa da meia noite e o dia ainda não acabou. Foram tantas horas. Um sobe e desce de temperaturas — no meu corpo!
Uma, duas, TRÊS baldeações. Tô tão cansada.
A hora passa se arrastando ou ameaça nos devorar com sua pressa! Fico aqui comigo. Acompanhada ainda que só, só ainda que alada. No cotidiano do sonho, digo ‘bom dia’ pra tela. Tarefas à vera. A verdade interna nunca cala. Hiberna. contando numa nota só. Produção, produção. Respiro para lembrar que máquina não sou. RES-PI-RA-ÇÃO.
O peso das reflexões pende minha cabeça, exige sustento. Preso ao chão, é o balaústre quem me retém. Contrapeso, quatro passos, em três atos. A lembrança do cara passando a mão em mim enquanto eu voltava da escola.
Eu só tinha 16 e já andava. Soterrada entre boletos e estratégias traçadas em diferentes dimensões, talvez eu, também tenha que chamar de mundo esse meu modo de ser um pouco de tudo.
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Omnibus é uma das pequenas histórias escritas por Gabi Luna, escrita em 2016. Publicada originalmente no livro II Prêmio Nacional de Literatura de Belford Roxo, lançado pela Mozeart Edições , em 2019.
Pandemia desde quando?
eu nasci em 1993. desde então, vivo em estado de calamidade pública. nunca teve leito pra mim, minha mãe nem pôde me amamentar. tem tempos que me falta o ar, que me ardem as têmporas. em pé no vagão lotado, eu nunca consegui respirar. nada de novo há no rugir das tempestades, uma doença realmente infectou todos os povos e isso aconteceu mais de quinhentos anos atrás, foi aí que tudo mudou. Você foi diagnosticado com Capitalismus Modernus-15, a doença do egoísmo, da acumulação do capital, da mais valia enchendo o bolso do patrão, das jornadas de trabalho desumanas, das várias formas de escravidão. a palavra já não aguenta mais caber. em busca de ar, se joga do abismo. passo dado, o futuro também é torto, tão torto quanto o mar e a História contada nos livros. se fome fosse vírus, quando seriam adotadas as tais “medidas excepcionais à racionalização dos serviços públicos”? ou essas são medidas emergenciais para a manutenção do status quo? o mínimo para manter a bolha e “descartar o excedente”. Me vejo só, virando verbo passo o tempo e já não tem nenhum abrigo. Conto os mortos, conto os dias, penso se ainda existo.