DEIXE OS MORTOS MORREREM
Dancemos a valsa da vida
enquanto não há terra sobre nossos pés
Travemos então uma conversa fiada
Enquanto o silêncio não cala nossas cordas vocais
Me chame para jantar
Antes que meu corpo seja alimento da eternidade
Pois depois de morto, quero morrer apenas.
Não evoque meu nome
Com palavras que deveriam ter sido ditas e não foram
Não importune meu ramo de ossos
Com lágrimas atrasadas
Deixe os mortos morrerem
Deixe-me viver minha morte
Sem nenhum consolo de vida
Pois a vida é todos os dias
Mas a morte é uma só.
AS RAÍZES
O amor que criou raízes
Eu nunca pude esquecer
Ofereci como uma flor
a quem era digno apenas de pedras
A tristeza segue me lapidando
e não o contrário
Sou maleável como argila
E tomo a forma que a solidão deseja
-Às vezes sou um pássaro
Preso na gaiola da paixão
Outrora sou a própria saudade
Me encarando no espelho-
Certa vez me disseram:
-Não há luz no fim do túnel
para quem está cego de amor
Mas eu sou poeta!
E não há poesia
Sem essas sensibilidadezinhas
E assim nascem os versos
Que vou pichando
Nos becos escuros do coração
O outono pode chegar e derrubar todas as folhas do amor
Mas suas raízes seguirão intactas
Independente da estação
QUE GRANDE BESTEIRA TUDO ISSO
Parada no sinal vermelho da grande São Paulo
Está frio
E um garoto em farrapos
Vende doces
Enquanto morre de fome
Às vezes, olho para o mundo e penso:
-Que grande besteira tudo isso.
Visto um escafandro
E mergulho na realidade do meu país
O céu é cinza
Mas não é poluição
É tristeza evaporada
Criança baleada
Enquanto chutava uma bola
Mulher abusada
Morta numa mesa clandestina
Ligo a TV e os homens de terno dizendo:
-E daí?
Troco o canal
Um artista macaqueando gringo num inglês duvidoso
Enquanto os conterrâneos morrem de fome
Tomo meu café no carro
Imagino quantas pessoas
Mastigam indiferença
E engolem com um café simples
Que comprou na vendinha da esquina
Não posso mudar o mundo
Quem dirá mudar o mundo de alguém
Dou dois reais para o menino do semáforo
Que sai pulando como se houvesse ganhado na loteria
É, que grande besteira tudo isso.
DESESPERANÇA
Os olhos de uma criança
Cobertos de inocência
Ávidos por esperança
Esvaem-se com o tempo
Dando lugar a um olhar
Vazio e sem expressão
Na boca, o gosto amargo da violência
Que nos faz mascar a morte
como se fosse um chiclete
E enterrar o bem numa cova rasa
Banalizando a essência do ser humano:
o fim
O cheiro de ferro no sangue
dá a entender que somos de aço
Mas somos frágeis como uma flor
Ressequindo
E perdendo as pétalas
Cada vez mais rápido
AOS POETAS
O poeta é um bandeirante
Que desbrava o intelecto
Ele brinca com as palavras
Num jogo de afetos
Finge uma dor fingida
Sente o que não foi sentido
O poeta é feliz
E ao mesmo tempo um deprimido
Em sua rede de palavras
A arte se estrutura
O poeta é um artista
E uma errônea criatura
Escrever é eternizar-se
é futuro e passado
O poeta é atemporal
Ao infinito é lançado
QUEM É QUE SABE?
Nunca se sabe o que se esconde na exatidão das horas
Na precisão do tempo
No invólucro da noite e do dia
O sol pode inspirar medo ou esperança
A noite pode fazer você descobrir seus segredos mais ocultos
Ou seus medos mais sinceros
A alegria e a tristeza não se materializam diante de suas córneas
Mas invadem suas narinas com o aroma de vida a ser vivida
E o invisível te move aos dias
Se o sol traz esperança ou não
Se a noite revela seus segredos ou não
O que sabemos é que não sabemos de nada!
Domingo pode ser o maior dia de sua vida
Ou pode ser apenas um dia de domingo banal
E dormiremos mesmo assim com a mesma ansiedade
Como se não aprendêssemos nada
Afinal, ninguém sabe o que guarda uma segunda feira
Contém os segredos de uma semana inteira
(Ou de uma vida inteira)
Quem é que sabe?