aos meus amigos
revolução é liberdade
acreditar já não basta
celebrar já não basta
eu vivo no acento da ideia
vou morar no ar
ser apenas conceito
é tudo irrisório
cuidado
não vá se perder por ai
fogo cruzado
futuros inimigos
antigos aliados
ser-subversivo
uma afronta ao maniqueismo
vou ser transgressor
o irônico da dualidade
um pé em dois caminhos
eu tambem tenho sonhos eletricos
quando algo não funcionava era com socos que você consertava
pecado hereditário
gaze nos olhos:
lágrima ou sangue?
só aprendemos a gritar
nosso amor são golpes na boca do estômago
feito carne, osso e perdão
eu te vi como um animal
correu para cima entre berros e socos
(culpa) não me concerne
(violência) não me concerne
(desculpa) não me concerne
(perdão) não me concerne
de tudo que me atravessa mas não me pertence
não adianta chorar por indulgência.
todo domingo é triste mas pelo menos saiba que eu volto
quando acordo sozinho é um açoite
o destino do meu corpo é o seu
o destino da minha boca é a sua
mas calma, amor
nossa vida é aos pouquinhos
enquanto dormirmos sobre o mesmo céu
estaremos juntinhos
nós/eles
comunico em grito
o silêncio já basta
é fagulha
é protesto
o corpo
a carne
a causa
o sangue
um otimismo patológico
nós sim, eles? não
o tijolo que estilhaça o vidro
faísca
queime tudo que são deles
escute as vozes
internalize
em um único coro
nunca mais
e nunca mais escreveu
pois toda palavra
já foi usada
e nunca mais amou
pois todo boca
ja foi beijada
e nunca mais chorou
pois toda tristeza
evaporou
e nunca mais sonhou
pois a janela-onírica
emperrou
e nunca mais dançou
pois os sapatos
desgastaram
e nunca mais cantou
pois a traqueia
arrebentou
e nunca mais
e nunca mais
e nunca mais
e nunca mais
e nunca mais
somos maiores que tudo isso
quando você chegou
quando você chegou
entrelaçou em um figado-podre
um ramo de azaleia
quando você chegou
esfarelou pedacinhos de estrelas
em cima do meu lábio
quando você chegou
fez morada em meu peito
e sem pressa
pôs-se a descansar.
e nada restou
só a ideia existe
e nada mais
só a tormenta existe
e nada mais
só a palavra existe
e nada mais
só o déspota gorverna
e nada mais
só o ódio compele
e nada mais
só a moldura existe
e nada mais
só o pensamento governa
e nada mais
nada existe:
herdeiro/prisioneiro de uma contradição ignóbil