Para isso, artes superficiais
Do jardim de Baudelaire colhi as flores do mal.
Na morada de Byron vi todas as voluptas humanas.
Desviei das pedras de Drummond, embora tropeçasse
Vez ou outra.
Dos Anjos, veio-me o Eu podre e ignavo.
Que sou eu então? Construido a partir das obras de outrem.
Danem-se as flores de Baudelaire.
Danem-se as orgias byronianas.
Danem-se as pedras no caminho
E que se dane Eu.
O artista, ao ser precedido de gigantes, sente-se pequeno
Sente que sua arte é copia
Mas… é cópia?
Não é possível que outros homens colham flores
Que outros homens façam orgias e
Que outros homens vejam pedras em seu caminho?
Ao inferno com as comparações!
Minhas flores têm o mesmo perfume do mal
Minhas orgias têm a mesma volupta
Minhas pedras são tão poéticas quanto
E meu Eu é podre como qualquer um
E nessa sina de originalidade vive o poeta
Todas as suas artes parecem artificiais
Droga! Mais uma de Baudelaire.
Valha-te o inferno!
Dir-me-ia na mais pura verdade
Que a situação se esvaíra,
Que na verdade era mentira
A situação do gordo frade.
“Valha-te o inferno!”, Dir-lhe-ia
[toda a cidade.
Sinto que ao mal o frade se unira,
Mas a situação que outrora sentira
Levara-nos a aceitar tal podestade
“Valha-te o inferno!”, dir-te-ei em um sismo
“Não te jogas ao buraco porque te persegue
[ o imaginário.
Te jogas porque te anima o ideário
Que o espera ao fundo do abismo!”.
Em meio às pedras agora chora.
A escuridão que o encobre hodierno,
Rota e pérfida, não mais o namora.
Mesmo que me encontre igualmente, agora,
Dir-te-ei irritado e sem demora:
“Valha-te o inferno!”
Soneto da Natureza violada
Dríades puras que vagueiam pela mata,
Pelos seus corpos nus escorre o orvalho,
Na alvorada quando saem do carvalho,
Cantando e dançando a lira sensata.
Corre o sátiro ardil e ouve a sonata,
Por donde vai deixa podre soalho,
Acha as purezas e brande o cisalho:
Estupra e destrona e desfolha e mata.
Nada mais se ouve no pós-agonia;
Agem os algozes com inocêncio,
Tal como ignorantes de quem sofria
Pregam hipocritamente Prudêncio,
Não do modo que o cristão prescrevia.
A floresta, purgada, está em silêncio.
O truvão cabe no meus trem
Fico imaginando a dor do gramático ao ouvir meus trem
Meus truvão, minhas coisa e meus toró
Dói nos ouvidos maternos as gírias do filho
Que tudo tá ok pra gente
Dói no ouvido do paulista e do carioca
Quando o nordestino fala das terra e dos cabra do sertão
-Fala certo, mineiro!- Grita-me o gramático
-Fala certo, filho!- Berra a mãe ao jovem
-Fala certo, nordestino!- Berram paulistas e cariocas
Fico no meu canto, aceito gíria, nordeste e mineiro
porque os meu truvão cabe no meus trem
Complexo de deus
É estranho o poeta muito religioso
Que cria um mundo indecoroso
De pura magia indiscreta
Na qual ordena e manda, mesmo
[de forma indireta.
E nessa de criar os seus
Embora identifique-se como Prometheus
E com fogo acredite ajudar humanos, os meus,
Faz-se, de certa forma, também deus.
Criam mundos, destroem as vidas.
Tornam a existência de seus eus-líricos,
Pontos em impuros mostos satíricos,
Na qual as égides de seus valores são corroídas.
Chega a não se importar com as vidas cálidas
Criadas para seus propósitos teóricos,
Acredita que em seus textos pictóricos
Não existem existências válidas.
Darei por findo meu discurso infinito
Ao retratar por imagens escritas o que fora dito
Demonstrando a ti as coisas hipócritas
Estruturadas em críticas às teorias demócritas
Do poeta que em sua hipocrisia, ao criar os mundos seus
Faz-se ditador das vidas, tornando-se também deus.
Mais um dia
Mais um dia
A noite obscurece o horizonte
Talvez não vejamos mais o céu,
Mas é verdade que ele ainda lá está
Mais um dia
Os deuses horrendos de nossa existência brincam
Com a desgraça tardia
E tentam com seu julgo impiedoso
Mostrar-nos o é que não o é
Mais um dia
Será que realmente poderia o ser?
O ser contempla sua mazela e
Abaixa a cabeça
Mais um dia
Enfia o dedo na chaga
Na esperança de que algo sinta
E possa livrar-se do torpor
Mais um dia
O que é a dor?
Não mais o sei
-Nada sinto nessa ofuscadora escuridão de incertezas
Medo
"Vc tem medo dq?"
Vi em um pixo
Na parte baixa de um muro
(Quase não o vi
Era um beco escuro )
Um pouco acima de um latão de lixo
Pensei muito nisso que li
Agora estou aqui
A filosofar
O que me dá medo?
Vou lhes contar:
Medo eu tenho
De quando o homem não se enxergar no outro
De quando o outro ser outro animal
Enviado ao abate
Que enquanto se debate
Vê no algoz um igual
Medo eu tenho
Do avanço indiscriminado da ignorância
Tornando a certeza uma inconstância
O abandono daquilo que é real
Em talvez algo mais sentimental
Subvertendo nossa circunstância
A razão torna-se, de novo, algo frugal
Talvez seja inocência minha
Ter medo de quando o humano
Em seu fervor insano
Tomar para si as rédeas do mundo
Fazendo com que este torne-se um lugar imundo
Nota-se o mundo moribundo
Sobe às narinas um cheiro nauseabundo
A podridão do homem
Em seu esplendor mais profundo
Medo então tenho
De que roubem os olhos seus
Tudo feito em nome de Deus
E assim acabem com a individualidade
Tratando os diferentes
Com mais iniquidade
Medo eu tenho
Do agora
Canção do Exílio
I
No vale de árvores mil
Encontro-me na paz feroz
Longe do açoite do algoz
Nesta terra o Brasil
Talvez eu seja um de mil
Que ao alimentar-se dessa noz
Lembre-me que um dia foram nós
Os habitantes de Brasil
É de natureza inverossímil
O som da cana moída por vós
Trabalho incumbido a nós
Pelos ditos senhores de Brasil
O medo faz-me tomar medida vil
Agora separar-me-ei de vós
Pois já escuto ao longe o algoz
Saindo de seu covil
II
O frio reconfortante
Embebeda-me com sua paz nauseabunda
Em meio à natureza profunda
Dessa terra estonteante
Como os fluídos do amante
Escorre pela coluna corcunda
Da cervical até a bunda
O suco de cheiro enfastiante
A dor pujante
Lembra-me da antiga rotunda
De uma tribo moribunda
Agora uma lembrança distante
Por sobre o rosto enfante
Vermes vindos da terra fecunda
Adentram a enclausura moribunda
De um espírito delirante
III
Como sinto falta da floresta!
Que um dia para nós fora
Uma irmã, mãe e protetora
Desta, agora nada resta
Encontro-me agora nesta
Retornando à fauna e à flora
Pela boca do verme que me devora
Para dar vida à Mãe-floresta
Talvez fique indigesta
Com o filho que agora
Sentindo medo de viver lá fora
Retorna de maneira funesta
O corpo que a natureza empresta
Ao nativo que vos fala agora
Nunca calçará a espora
Que deixa a natureza indigesta
Soneto
Oh! Como é doce a lira de um poeta
Que na calada da noite penteia
Prantos reticentes que a alma anseia
A dor como princípio e por meta
Assim como artefato de profeta
A poesia por minh'alma pigarreia
E quando a mente dela se enxameia
Faz trabalhar a mente do poeta
O leitor que pela poesia vã
Destroça em vida sua mente sã
De uma maneira mais vil e dantesca
Queira eu em minha vida de escritor
Nunca com minha escrita causar dor
Tira-me desta sina vilanesca
Epitáfio de um poeta
Sorrio, embora apodrecido. Temo continuar a ser quem sou: um raio de inconstância em um mundo estático. Abro mão do indivíduo e aceito o acalento vindo do inconcebível. A imaginação, que outrora fora rainha de nossa existência é hoje banida e maltratada, tornando amarga nossa vivência. O último desejo de minh'alma é o terno abraço da terra e o beijo podre dos vermes decompositores, almejo deitar para sempre ao lado da deusa esquecida de um mundo perdido. Aqui, meus amigos, jaz um jovem imaginador vencido.