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AMOR ONÍRICO

Em pequenas palavras exponho meu mundo,
Transbordado de graça, ao ver-te chegar.
Com efêmero riso em sal me inundo,
Ouvindo a porta, ao teu ir, se fechar.

Recorro aos meus sonhos pra te reencontrar,
E no onírico ponto eu quero estancar;
Pois não quero, jamais, que teu único amante
Pereça de enfado a te esperar.

Itamar F S

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Biografia
'' Por mais que eu me esforce a vida será apenas uma breve lembrança de tudo aquilo que na verdade gostaria de viver.'' _ Itamar FS

Poemas

47

JERUSALÉM

Metrópole clandestina, império dos caídos,
Tuas ruas: tantas cruzes, tantas dores,
Congestionam-se; o matizar de tuas flores
Inda tenta arfar ao breu dos esquecidos.

Ah! Jerusalém, Brasão de todos os vencidos,
Herança imácula, capsula ígnea de odores,
Tua gênese abstrata purga-nos de horrores
Na broca bruta de teus filhos exauridos.

Ó, morada eterna, passagem auriu de paraísos:
Exila, aparta, expira, agrilha, apaga
Os lamentos de minhas dores ancestrais...

E assim, no abraço douro de teus cristos,
Que possa, em fim, a minha podre alma autófaga, 
Dormir em paz no céu do deus do Nunca Mais.

Itamar FS
408

DISTOPIA

Falta-me espaço nesse cativo vazio,
Com meus plurais de vozes ocas
Cuspindo palavras anoréxicas, soltas,
Que dilaceram meus ouvidos - sorrio!

Penso na realidade mórbida e ouço
Mais um grito; um eco que ressoa
Nos corredores espinhais, e que destoa
Tudo aquilo que é real, agora louco.

Logo eu, miserável faminto, inerte
Rastejante das migalhas, não pude 
Compreender que era um verme

Condenado a roer essas maçãs podres,
De sabores ancestrais, que em vão nutre
O desejo de querer viver às dores.

Itamar FS

608

À SOMBRA

Filho das vicissitudes, presado claustrofóbico, 
Que luta para escapar das eternas sombras, 
Mal sabe, pois, que nessas mesmas sombras
Descansará seu corpo tredo - vil Esciofóbico;

Da agonia do inevitável à podridão das horas...
Ah! A podridão, essa megera perfumada que beija- 
Nos as mãos, as mesmas que com afinco arqueja
À salgar as bicharias com o festim das sobras...

Da decomposição fria da vazia alma...
Da cruel impassibilidade da arcária lágrima 
Que se balança, tremula, pelas frestas oculares...

Descanse-mo-nos, sós, dessa vida amarga;
Sem luz, sem som, sem dor, sem nada,
No torpor etereal dessas perpetuas grades.

Itamar FS
514

QUE EU POSSA, POR FIM, MINHA DOR ESQUECER

Atrofia, fatídico, o meu paralitico cérebro,
Sufocando-me à ruína do que sobrou de mim,
O tempo - baldia ciência - lei que define o fim:
 _Aparta-me, logo, o SER, condane-me a Érebo!

Ah! Miserável existência - essência das odisseias -
Obriga-me a não te querer, porque eu te renego!
E afrontando-te, ao calor de tua trama, me entrego
Ao vazio do êxodo das nossas ideias...

Ah! Quando o grito ecoar na casca do que um dia fui:
Que não sobre memorias - razão para sofrer;
Que não reste mentiras - mal que à alma polui!

Que o manto insalubre me abrace e, ao fazer,
me liberte do inferno, que a larva conclui... 
_Que eu possa, por fim, minha dor esquecer!

Itamar FS

625

O DIA QUE EU MAIS CHOREI

Quando embalsamei o meu corpo
No elixir sagrado - Vinho Panteístico
Que os deuses sorvem do ''místico''
Rebanho - Salguei-me; In Assorto! 

Chovia em todo meu ser, navalhas,
Perfurando-me o peito e os olhos;
E o mar, que chocalhava-me os ossos,
Chocalhava também as minhas falhas...

E só, no se ir das ondas, eu naufraguei
Meu barco nos corais: tanta beleza
Tinha no olhar, tanta sede; - Afundei

No azul de um céu que encontrei...
E ao beber de minha própria profundeza,
M'embriaguei, Tornei-me Deus, e me afoguei!

Itamar FS
497

LÁGRIMA

Derrama-se densa, em lenta pena,
Nas maçãs tão claras, vis e pecadoras.
Outrora à âncora, comprimida e alenta,
demorava-se a brilhar encantadora.

Vai-se à beira do torpor da rubra face,
Maviosa, fenecida e sem alarde,
Salgar-te à memória, à dor do encrave,
Com seus fúnebres contos de saudade.

Embora tu, ausente do infirme eco do engano,
Possas pensar que basta a ti, um simples pano,
Para que o orvalho trivial possas secar; _

Vais abrandar, frigidamente, somente o tanto
que tuas mãos tão decadentes em seu pranto
poderiam tenuemente alcançar.

Itamar FS

538

O VERME

Existe um verme em meu coração,
Roendo minha vida; na broca bruta
De sua fome insaciável, perco a luta,
E ofereço-lhe os olhos - Campeão!

Vencedor de todo homem! Embrião
Que cresce insone, surge abrupta
Como larva, logo nasce, absoluta,
E nunca, nunca morre - Solidão!

Dilacera minhas tripas, morde o fígado,
Faz seu ninho bacanal em meu pulmão,
E orquestras infernais em meu ouvido.

Sorve as artérias, deixa seco o coração;
E quando a noite, saciado, sai do ninho,
O canibal vem defecar em minha mão...

Itamar FS
507

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