Henrique: Príncipe do Lar, Infante da pátria, Senhor de Portugal, Que por sua ordem, dono d'Além mar. Senhor, não vistes o seu sal?
Cavaleiro não de torneio. Guerreiro, sim, de peleio. Contra a Maura lança, ora nem mais. Porém, verdadeira glória lançada de cais.
Mas, Senhor... Não vistes o seu sal? Não são só lágrimas de Portugal... Lagos. São lagos delas fartas. Com o mar e as suas ondas partas.
Partas nô mais por obra De quem a mão nos guia a glória, De quem pera nós o Bojador dobra, Cabeça que pronuncia vitória.
Cabeça régia no cavalo branco De grifo sério descaradamente triunfal. Indiferente não ouvis o pranto E arrecadais o quinto abismal.
Cumpriu-se o mar e a terra se uniu. Redonda e esbelta por louvor... Mães dos filhos se dividiu... Como pudestes, Senhor?
Tal miséria não foge a crónicas. O sinal não é este, não é este mal De nenhumas bases canónicas. Senhor, é por isto, é por isto que se falta cumprir Portugal.
Como pudestes aceitar quinhões Em nome de Cristo na sua mão?... Como não berrastes contra os grilhões, Ó Príncipe da Ínclita Geração?
O absurdo é ser viúvo sem se ter mulher, Pensar em algo que não existe, Sentir o que não sentiste. Contemplar algo que não se pode ver, Nem se compreender Ou compreender. Repetir, a repetição, repetir. Ver a alma de alguém como uma tela de cinema Ou de lá não ver nada de todo.
Fundir. Fingir o fingimento Ou nada somente sentir. Ambicionar o inexistente, E imaginar uma nova cor.
Fundir. Blandícia de ferro, Uma Insofreável dor.
664
O Sofrimento
Por quem sofre, por quem chora, Não desespere, que a vida é matreira Porque quem vive só a sofrer Não sabe viver doutra maneira.
É do Sofrimento que vem o caráter, É do Sofrimento que vem a Realidade, Ora, pois, quem nunca sofreu na vida, Não sabe a diferença entre o bem e a maldade.
Não dá valor à vitória alcançada Porque decerto não é por nada Que um certo homem cujo nome É mais do que adequado à personalidade
Disse-nos num curto poema que “Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor” Vitória sem dor é vitória com bolor…
Vitória sem dor, não é vitória… Não é nada, é ilusão de vitória! O mar não nos foi dado… Foi arduamente conquistado!
Quem sofre é quem vê… Quem sofre é quem ama…. Quem sofre é quem sente Quem sofre é quem é grande
Pois do Sofrimento vem a sabedoria… O saber da vida é tão diverso… Mas quem sofre irá sofrer mais, então… Lembre-se destas palavras que escrevo em verso:
Dura vida, que vosso desafio aceito En garde! Em frente! Que eu hei de me aguentar Do nascer até ao poente!
Com um sabre contra-sus! Que é o Sofrimento Que vos dá significado Que dá significado ao vosso fim!
671
Guerra Colonial
Enviados de todos os campos, Enviados de todos os lares, Foram todos eles para a guerra Lutada lá, para além dos mares.
Brada da tua espada, soldado E vai atá-la à tua espingarda. Vais à frente contra o Terrorista, Nunca mais baixes a tua guarda.
Ata os troncos, vá, pobre criança, Que o tirano Português te espera. Há séculos que este explora e rouba A nobre África, Lusitana fera!
Soldado, perdido lá ficaste. Determinaste a tua arma baixar, Porque juraste pelo teu filho Que um gaiato não irias matar.
Pelas mães, esposas e comparsas, Por nações livres de toda a parte Condenada foi esta fel guerra, Da qual só se envergonhava Marte.
682
Rapazes de La Lys
Pelo prazer de Mahr e de Drude, Os nossos rapazes de La Lys Foram mortos como uma perdiz Numa ofensiva mais do que crude…
Que há longo tempo pesadelo De que o exausto boche passara, Na doce alma vinda do Restelo A sua maldição libertara.
Cansados de uma má guerra alheia Pela aliança inglesa trazida, Nunca mais tratada de alma cheia, Da honra Portuguesa cumprida.
Enlamecidos de grande terror, Neste massacre em dor infernal. Para os filhos de uma nação horror A Primeira Guerra Mundial.
683
Cristo
A ti Vi-te numa igreja, A ti Vi-te numa catedral, Não vi, senti, é igual. Até que me apercebi que esta parelha Estava muito mal, mal, mal.
Hipocrisia profunda Hipocrisia infinitesimal Ouro, prata sem igual. Apercebi-me que esta eterna rotunda Estava muito mal, mal, mal.
Já não te Vi em igreja. Já não te vi em catedral. Mas via, sentia, era igual. Apercebi-me então... Estava muito mal, mal, mal.
Esta sensação que se veja Era ilusória, infortunal. Apercebo-me... Estive sempre muito mal, mal, mal.
696
A novidade é uma repetição
A novidade é uma repetição. Velho, novo, antigo. Ai Deus, meu senão. Parece tudo uma repetição. Verso novo que não vale um tostão. Velho, novo, antigo. Ai Deus, meu senão.
Sonho, mas não sonho de novo não. Velho, novo, antigo. Ai Deus, meu senão. Parece tudo um enorme refrão. Verão velho, de versos novos não. Velho, novo, antigo. Ai Deus, meu senão.
Referências e reputação. Velho, novo, antigo. Ai Deus, meu senão. Parece tudo nada. Ai sim, ai não. Só tédio, calor e não sensação. Velho novo, antigo. Ai Deus, meu senão.
Velho, novo, antigo. Ai Deus, meu senão. Velho novo, antigo. Ai Deus, meu senão!
679
O Amor é uma Nação
Porque escrevo Amor com letra maiúscula? Porque o Amor é uma enorme nação. Uma nação em que a razão é minúscula E em que não há nem um habitante são.
Há cegos que veem e falantes mudos Que falam, veem, não sabem onde estão. Surdos que cantam e bodes cornudos Que choram e choram por um senão.
Ora eufóricos, ora tristonhos. (Por uma flecha atroz mais que cortados) Num lento veneno ficam risonhos
Vasta em mão-de-obra e carne de canhão Lança-se na guerra contra o bom senso E ficam tombados milhões no chão
Mas a cada regra há uma exceção. A qual escapa esta nobre nação Esta, sublime, só pode ser e é O puro amor descrito por Platão.
688
Fénix Triunfal
Pensavam que estava morto? A alma de um poeta não morre com a loucura. Deixei de estar louco? Não. Não estou morto então. Renasci. Ou melhor... Sempre vivi Ohohohoho. Hihihihi Passou muito tempo desde a última vez que escrevi.
O meu plano de engenheiro está desatualizado. Gaita! Merda! Já meteram o Homem no espaço. Já descobriram tantos planetas mais, Estrelas, planetas anões, (Plutão já não é um planeta) Buracos negros! Einstein tinha razão! Até fotografaram um! Quarks e positrões!
Agora, em vez de meninas de 8 anos, A ordenhar mancebos nas escadas São meninas de 14 ou 12. Que belo! Que belo o progresso! Talvez daqui a mais cem anos teremos meninas de 18 ou de 16.
Supersónico! Caramba! Barreira do som? ZOOOOOOOOOOOOOOOOOM! Nem sabia que isto sequer existia! As máquinas estão diferentes. Já não é o ranger estridente e louco de antigamente. (Antigamente que era o mais moderno que poderia haver na minha mente). Agora é tudo mais calmo, pausado, preciso, mas louco ainda noutras coisas irremediavelmente iguais.
Tenho saudade da loucura das máquinas trovadorescas! Tenho saudade do CLLLLLLAAAANG, Piiiiiii, xu-xu-xu Agora é tudo ziiiii, zoot, xiiii. Já não há lá quase homens também. Também não era difícil de prever, As máquinas dominam o mundo agora Os aviões parecem dardos.
Telemóvel? Porra, andar nas mãos com um telefone e poder escrever poemas nele! Na mão! No bolso! A roçar a masculinidade! Internet? Tudo ao contacto! Filmes, textos, imagens Ideias, inteligência, estupidez E a pornografia, caramba! Torrentes e correntes dela! Para todos os gostos e feitios! Sem filtros! Já não é uma fotografia atrevida que sacia um homem! Tem de ser um vídeo de ultra MEGA qualidade. HD? High definition. Ultra HD? 4K? EIA EIAAA EIAAAA Que insanidade de pornografia! Que insanidade de ideias desta nova modernidade! Que loucura! Pedirei que me invada outra vez? Estalarei o cérebro com isto. É preciso que entre aos poucos.
Os comboios já não deitam fumo. São eléctricos, uns a diésel ainda. Os navios... Que magníficos navios de transporte! Yachts topo-modelo E cruzeiros que envergonham a linha inteira Dos melhores da White Star! Há mais! Fragatas com radar e porta-aviões do tamanho de uma vila! Até nem pode deixar de haver um desastre naval! Concordia, bom-porto no além te veja! (Não morreu nem uma fração das vítimas do Titanic. Ouvi dizer que está na moda dramatizar tudo agora. Sempre esteve).
O rodopiar insano de um helicóptero Faz-me lembrar um velho tio que se engasgava sempre que ia para comer. Ó infância, já eras distante ao que sou... Como serás para mim agora? E fica parado no céu ! Também os aviões! Chamam-lhe de VTOL.
O Estado Novo colapsou numa revolução O Azarado caiu da cadeira! As colónias declaram independência e O Império Britânico caiu! Até pareço de outro mundo! A guerra para acabar todas as guerras travou outra pior por 20 anos. O bigodelhas sempre foi tentar conquistar a Europa. Há democracia, mas queixam-se do mesmo E há os que querem a ditadura de volta! Que belo! Que louco! Que repetição nesta doce novidade insana! Que fenomenal será a terceira!
Mal consigo acreditar no nuclear. Num som ensurdecedor pelo que parece, Num rebentar de luz, Um mundo inteiro desaparece. Que bomba! Há milhares delas para acabar com o mundo mais de uma porrada de vezes! Que intransigente loucura do Homem! Kaboom! Zoom! Pooom! Nem dá para piscar os olhos! E que opções de escolha! Plutónio, urânio, hidrogénio. Tau! Uma bola de fogo! Há em bomba ou foguete. Míssil balístico intercontinental para ser mais exato. I-C-B-M Vão sozinhos e aniquilam o que lhes vai à frente. Um míssil, uma cidade inteira senão mais! Até se sente mais que uma vez pelo planeta! O Inferno na Terra! Conseguimos! Conseguimos libertar Satanás!
EIA, EIA eiaaaaaaa Que banalidade de vida vejo nas pessoas em que o mundo vira e gira à sua volta Com isto! Como tudo muda e nada muda ao mesmo tempo! Há uma coisa que é redes sociais Onde há pessoas que querem ter estranhos A seguir tudo e mais alguma coisa do que fazem. Nada de jeito! Que inutilidade tão fascinante!
As pessoas parecem sardinhas. Se não pareciam antes nas grandes cidades agora são mais. Marujos e capitães aproveitem esta pescaria toda! Comam-na que é vasta e burra! Burra como sempre foi! Burra como sempre teve de ser! Burra como sempre deverá de ser nem para mal nem para bem! Como sempre foi! Mais gente, épa-hoy!
Anúncios por toda a parte! Carros, cremes, supermercados, mais telemóveis, computadores... Máquinas de escrever com telas. Até que lhes apanhei o jeito Jogos, vírus... Pornografia em tela grande (Só para não falar nas televisões)
Ai, estou pronto! Expludam-me com uma bomba nuclear! NU-CLE-AR! Fundam o núcleo do meu ser com o núcleo da Terra Com este poder doido que têm! Ainda não estão lá? Não com isto? Escavem mais fundo!
NU-CLE-AR! Clarifiquem a minha mente Que me parece que está tudo burro. Com tanta tecnologia e informação Mais burros ainda estão! O povo já não cava! Como poderá ser?
Estou nú! Completamente nú! (Não, não estou também a fazer pornografia) Nú de ideias! Renasci e quero morrer! Só para renascer e voltar a morrer! Estou como vim à Terra! Outra vez e outra vez terá de ser! NU-CLE-AR! Num relâmpago de luz branca e amarela Estou psicadélico com radiação! Ai, que insanidade! Que loucura de modernidade!! Que franca Europa unida e desunida É claro que os ingleses tinham de sair! Perderam o Império, misericórdia!
NU-CLE-AR Estou sem fôlego com o que vejo Gente que compra, compra e compra. Esquece-se do que compra e de quem compra E vai comprar outra vez! Tudo igual, mas ligeiramente diferente! (Só para dizer que não é igual) Já era assim, mas agora é com tudo o que se vende!
Outra pandemia! (Porra, tenho de vir ao mundo e lidar com duas?) Uns querem saber, uns não. Uns morrem e outros não! Nada muda na natureza humana! Nem com o mundo na literal palma da mão! Que Céu amar satanicamente isto tudo!
O fumo faz mais tempestades. (Iria lá eu saber que o planeta está a morrer) Não há problema! Não querem saber! Dizem que está tudo mal, Mesmo assim fazem pouco ou nada! Porém dizem que é uma catástrofe! (Vá, uns nem isso) Eu digo que venham! Venham as tempestades! Venham os trovões! Venham os nevões! Enterrem-me em sete palmos de neve! Façam de mim um boneco de neve! Que venha o Inverno nuclear! NU-CLE-AR
Ó modelos, ó cais, ó televisão, Ó computador, ó telemóvel! Ó ruelas entaladas de turistas! Ó muralhas de carros, carrinhas e camiões! Eu quero um novo Sol. Quero o NU-CLE-AR. Quero ser nuclear!
EIA inovação! Eh-lá repetição! Eh-lá pachorrentos escândalos de corrupção! Jamais acabarão! Eh-lá vendedores de veneno de cobra política! Eh-lá esperança engarrafada! Eh-lá filhos de diplomatas! Eh-lá botequins, bares e discotecas! Concentrem em mim toda a torpeza da sociedade mais moderna ainda! Inebriem-me até não ver senão o nuclear! O NU-CLE-AR!
Olá outra vez, escolas públicas e privadas! Olá, escolas públicas privadas! Olá, publicidade! Afoga-me em materialismo! Afoguem-me nos lagos tóxicos e poluídos! Façam-me beber rios inteiros de detritos de celulose! Olá, chuvas ácidas! Ai que néctar corrosivo dos solos que me cativa!
Ó novas drogas! Mais potentes que vos querem banir, mas ninguém vos doma! Nem com balas, nem com bastões, nem com nada! Terá de ser com uma bomba atómica, O nuclear da matéria efemeramente eterna, A desumanidade humana do vício Jamais acabará! NU-CLE-AR.
Enfezados nobres de sarjeta, saúdo-vos! Aristocratas sem escrúpulos, saúdo-vos! Novos ricos e ricos velhos, saúdo-vos! Gigantes da tecnologia, saúdo-vos! Burguesinhas e novas burguesas, saúdo-vos! Esmaguem os vossos filhos com coisas! Mais, mais, mais! Mais coisas!
Quero ser um pimp disto tudo! Um novo termo tão chique! Ah, não é preciso... Basta apenas uma câmara de filmar.
Álvaro de Campos Entroncamento - 2021
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Os pensamentos (não ditos) de D. João, Condestável de Portugal
Fui alguém. Alguém apagado Entre tão grandes almas minhas pares. E de Quem viu nas armas honra feita De Nun' Álvares herdei a espada.
(Singrou a Fé pelo Evangelho Em vez da vã e bruta armada. Anteveu, vidente de Ares, A aventura desastrada.)
Mais que Português sou Homem. Mais que querer, poder O inteiro mar, ou a orla vã desfeita O todo ou o seu nada...
Quis a paz e a fraternidade roubada.
Condenado que seja pela pátria De covardia entre o viril. Antes vista como cobarde e banal A minha alma justa e calma Que da insensatez só servil.
O meu dever pela pátria cumpri. Nem mais, nem menos por Misericórdia.
(Nem caberia na justiça dos fados).
Por ela o esquecimento escolhi Fiel sempre, mesmo na discórdia Deus sabe dos meus dedos singrados. E se não souber... Que assim seja Na Sua glória.