Henrique: Príncipe do Lar, Infante da pátria, Senhor de Portugal, Que por sua ordem, dono d'Além mar. Senhor, não vistes o seu sal?
Cavaleiro não de torneio. Guerreiro, sim, de peleio. Contra a Maura lança, ora nem mais. Porém, verdadeira glória lançada de cais.
Mas, Senhor... Não vistes o seu sal? Não são só lágrimas de Portugal... Lagos. São lagos delas fartas. Com o mar e as suas ondas partas.
Partas nô mais por obra De quem a mão nos guia a glória, De quem pera nós o Bojador dobra, Cabeça que pronuncia vitória.
Cabeça régia no cavalo branco De grifo sério descaradamente triunfal. Indiferente não ouvis o pranto E arrecadais o quinto abismal.
Cumpriu-se o mar e a terra se uniu. Redonda e esbelta por louvor... Mães dos filhos se dividiu... Como pudestes, Senhor?
Tal miséria não foge a crónicas. O sinal não é este, não é este mal De nenhumas bases canónicas. Senhor, é por isto, é por isto que se falta cumprir Portugal.
Como pudestes aceitar quinhões Em nome de Cristo na sua mão?... Como não berrastes contra os grilhões, Ó Príncipe da Ínclita Geração?
Tic-tac faz o relógio. Estou farto que digam que faz tic-tac. Não pode fazer lec-pung? Porque é que tenho de descrever o som como tic-tac?
Já se escreveu tanto sobre relógios, Tanto sobre o tempo... Perde-se mais tempo a falar do tempo Que se a aproveitar o tempo que se tem E fala-se tanto de se aproveitar o tempo Que já ele passou e é altura da cama.
Bem, o tempo é relativo, diz a ciência E a perceção humana que No tédio parece passar mais devagar. Ora com tanto tic-tac num papel, Com tanto tic-tac que se ouve e descreve Julgo que serei imortal, Ou então estarei parado no tempo.
Bah, lec-pung faz o relógio. Deixem o tempo passar. Estão todos atrasados para a cova? Morre toda a gente por 5 minutos? Se não são paramédicos e associados Não se preocupem tanto com o tempo Que não morrem por nele não pensar.
682
Doido
Aqui à noite leio e escrevo. Quase são quatro da manhã E estou no terraço a congelar. Porquê? Porque quero.
Sou doido e tenho o direito a ser. Já ouvi e li esta frase tantas vezes... Reclamo-a agora como minha, Empresto-a por uns breves momentos E devolvê-la-ei quando deixar de enlouquecer.
Tenho o direito de ouvir os galos, Ouvir os carros longínquos E de cheirar a noite, cheirar o meu quintal.
Estou doido, deveras doido. Os meus dedos congelam. Antes não tremia e já começo a tremer, Mas é aqui que quero estar. Três graus, misericórdia, Mas é aqui que quero estar. Não ali dentro, no conforto, No radiador, na cama, nos lençóis.
Porquê? Estou doido, deveras doido Mas é aqui que quero estar. Quero enrijecer a alma, absorver a poesia Como se fosse um líquido.
Um líquido que com o frio se torna mais denso, Ou como a água que ao arrefecer Alberga mais oxigénio e então a vida.
Quero que a minha alma se torne no Ártico da poesia. Que albergue vida tão diversa e desconhecida Que até se pergunte como pode sobreviver No meio deste frio todo.
Ah, três graus nem é lá perto, Mas estou de robe e sem luvas. É como se estivesse no Ártico. Estou doido, deveras doido, Mas é doido que quero ser.
676
Caeiro
O Mestre morreu de tuberculose, Mas podia ter caído de um penhasco, Se para lá o vento estivesse a soprar. Era natural e justo. Porque para lá a caminhar não estaria a pensar. Seria para lá que o vento estaria a soprar.
668
Insónias
Não durmo de noite porque tenho de dormir de noite. Se não tivesse de dormir de noite, dormeria de noite Porque não me preocuparia em ter de dormir de noite.
673
Não Filosofia
Eu poderia escrever sobre o que é a filosofia de não filosofar, Mas para escrever sobre a filosofia de não filosofar Não poderia filosofar, Nem escrever sobre filosofar Não poderia escrever. No entanto escrevo... Logo, ao escrever sobre a filosofia de não filosofar, Não escrevo sobre a filosofia de não filosofar. Escrevo da minha ideia da filosofia de não filosofar Que não é a filosofia de não filosofar. Poderia se fosse possível, Mas não posso porque não o é.
672
Galiza, terra mãe
Galiza, terra mãe... Já não sabes quem és. Presa na dúvida estirada está... Esta terra céltica, sueva e nortenha em mãos visigóticas. Queres aproximar-te ao teu filho? Filho este que em parte te anseia... Porém à sua imagem. Imagem esta de homem feito, Distante do que a mãe outrora fora. Ó nossa mãe, quem és? És tu mesma ou és o que impuseram a ser? Que com o passar do tempo aceitaste que era o que eras. Nossa mãe, não sabes quem és... És como nós ou a nossa família que te absorveu? És tu mesma ou a tua irmã? A tia Castela engoliu-nos a todos A nós, teu filho, aos nossos avós e às nossas tias. Ela toma um novo nome Jura ser não ela mesma, mas a família, mas a língua dela foge para a verdade. Reprime-te a ti e às tuas irmãs se quiserem fugir. Jamais estará plenamente saciada. Com uma boca, da qual fazes parte, ó mãe. Ela anseia devorar-nos quando a altura for oportuna. Fugimos miraculosamente, mas ainda estás aí, ó mãe... Encontra-te. Talvez nos encontres. Ou não.
7 898
Vigiado
Olá? Cucu! Como estás? Cumprimento as câmaras de rua. Porquê? Bem, está lá alguém para me ver. Parece estranho? Bem, é. Não o faço por isso, mas imagino. Mentira, faço às vezes.
670
Henrique
Henrique: Príncipe do Lar, Infante da pátria, Senhor de Portugal, Que por sua ordem, dono d'Além mar. Senhor, não vistes o seu sal?
Cavaleiro não de torneio. Guerreiro, sim, de peleio. Contra a Maura lança, ora nem mais. Porém, verdadeira glória lançada de cais.
Mas, Senhor... Não vistes o seu sal? Não são só lágrimas de Portugal... Lagos. São lagos delas fartas. Com o mar e as suas ondas partas.
Partas nô mais por obra De quem a mão nos guia a glória, De quem pera nós o Bojador dobra, Cabeça que pronuncia vitória.
Cabeça régia no cavalo branco De grifo sério descaradamente triunfal. Indiferente não ouvis o pranto E arrecadais o quinto abismal.
Cumpriu-se o mar e a terra se uniu. Redonda e esbelta por louvor... Mães dos filhos se dividiu... Como pudestes, Senhor?
Tal miséria não foge a crónicas. O sinal não é este, não é este mal De nenhumas bases canónicas. Senhor, é por isto, é por isto que se falta cumprir Portugal.
Como pudestes aceitar quinhões Em nome de Cristo na sua mão?... Como não berrastes contra os grilhões, Ó Príncipe da Ínclita Geração?