Jacqueline Batista

Jacqueline Batista

n. 1966 BR BR

n. 1966-12-07, Uberlândia MG

Perfil
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No tempo da minha infância

No tempo da minha infância
Brincávamos descalços na rua
Rua de terra empoeirada
Mas que era a alegria da molecada
No tempo da minha infância
Os brinquedos eram fabricados
E sempre compartilhados
Quando ganhávamos alguma coisa
Era motivo de festa na calçada
Reuníamo-nos ao final da tarde
Depois da escola e juntos
Íamos descobrindo a novidade
As mães sempre gritando e ralhando
Chamando para dentro
Apontando o dedo e dizendo:
- Ah menino vou te dar uma sova
Se você não entrar correndo.
Mas no tempo da minha infância
Podíamos ficar na rua
Fazer estripulias e macaquices
Ao final de uma bronca vinha sempre
Um belo pedaço de bolo que fora preparado,
Ao longo do dia, com o máximo carinho
No tempo da minha infância
Dizia-se obrigado, com licença, desculpe...
Jamais interrompíamos a conversa
Dos mais velhos e ai se o fizéssemos
No tempo da minha infância
Corríamos debaixo da chuva,
Brincávamos de pique esconde,
Queimada, amarelinha, bilboquê, passa o anel,
E tantos outros...
Nas noites  quentes e de lua cheia
Tinha sempre alguém contando história
E disputávamos quem lia mais rápido.
Quantos livros fizeram parte
Do tempo da minha infância...
Hoje o tempo já vai longe
E as lembranças, sempre saudosistas,
São memórias desse tempo de minha infância
Quando a idade não recobria de marcas
As belas faces de meus pais
nunca se pensava a vida sem eles
Hoje não há mais infância
Apenas saudade e a certeza
Que o corpo parte,
Mas a alma será para sempre eterna
Como eternas serão nossas tardes
Iluminadas de laranja e perfumadas
De esperanças.
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Poemas

39

Almas

Em algum lugar você está

O sorriso leve

O olhar sincero

O toque nos momentos de

Intensa atividade

As palavras que não precisavam ser ditas

O aconchego a segurança

A certeza de que seria eterno

Não me sobrou mais nada

Apenas um coração oco

Vazio de sentimentos

Perdida me encontro

Sozinha na multidão

Não há ninguém capaz

De me acalentar 

apenas com um olhar

Cada rosto que a mim chega

Não consegue preencher

O abismo formado

Sinto nossas mãos no último toque

Vejo a fina linha que nos prendia

Dissolvendo-se no ar

Aos poucos vou me esquecendo

Do teu belo rosto e me desespero

Quando o vento sopra imagino

Você sussurrando ao meu ouvido

A poesia que me presenteava

A cada manhã com palavras

Que tornavam-se melodia

E que iluminava cada segundo

Do meu longo dia

Hoje a poesia me acompanha

E tento em vão colocar em palavras

A saudade que me devora

Na tentativa infeliz de amenizar

A dor da ausência e a certeza

De que longa será a jornada

Até nosso reencontro

Nada que digo ou faça

Tem qualquer importância

Porque nada nem ninguém

Ocupará o lugar que você

Com sua doçura, inteligência

Amor descomplicado 

Soube tão bem conquistar

Caminho tão somente por caminhar

Consciente que você está feliz

E assim como eu aguarda pacientemente

O momento certo de nos reencontrar

Mas a saudade, às vezes, bate sem dó

Amor da minha vida...De tantas vidas!


#daalmaparaaescrita

684

Nudez

Esse corpo que revela não a sua nudez

Mas a nudez da sua alma

A não certeza da sombra que o recobre

O mistério que o abraça com gratidão

E se dissolve desmanchando-se no ar

Embalado pela melodia de vozes antigas

Que recitam histórias, revelam memórias

Esse corpo que se abriga na sombra

E se protege de olhos cegos 

Que não o conseguem ver

A luz escorre por cada poro

E vai desenhando contornos

Suas pinceladas deixam rastros

Da pureza adormecida e intocada

Ao deslizar pela pele

Escolhe o que deve tocar

Nesse corpo sem rosto

A luz alia-se a sombra

Permitindo que só os olhos da alma

Sejam capazes do corpo enxergar


#daalmaparaaescrita

724

Um dia...

Um dia você vai chegar

E eu estarei ali, a sua espera

De banho tomado e alma lavada

O lixo que antes ficava à porta

Será para bem longe levado

A poeira que antes impedia a visão

será retirada das janelas

E poderás ver o sol quando se por

Ou quando esse vier no alvorecer

Plantarei flores para que seu caminho

Ganhe do vento o seu suave perfume

Despida das grossas camadas

De dores e lamentações

Estarei vestida de novos sonhos e esperanças

A suavidade do tecido que cobrirá meu corpo

Terá a transparência dos meus desejos

Como as flores que florescem na primavera

Depois das podas necessárias

Te encontrarei de braços e coração abertos

Para juntos escrevermos novas histórias.



#daalmaparaescrita

673

Viagem

E fui deixando pedaços pelo caminho

Um olhar distraído, perdido na beleza

Um afago no coração aquietado

Vesti-me com a leveza dos sonhos

Compartilhei carinho

Na manhã ensolarada

Ou no entardecer silencioso

Regozijei-me em agradecimento

Descalcei os pés e senti o poder da terra

Mergulhei no espaço esquecida do tempo

Na encruzilhada do caminho

Escolhi o menos gasto

Fechei os olhos da carne

Enxerguei com os olhos da alma

Tão longa a viagem

Tão curto o tempo

Enquanto realidade fui apenas fantasia

Enquanto sonho desabrochei minha verdade

E no despertar do augusto dia

Dei asas a minha liberdade.



#daalmaparaaescrita

641

Sem título

Na construção do verso

Nesse tecer de letras

Transformado em palavras

No sofrimento da criação

No suor... Na emoção

O que brota é um poema

Que rasga a pele

Como semente que renasce

E vai enraizando e sangrando a terra

Da dor intensa ao alivio

Como gozo, final de amor...


#daalmaparaaescrita

642

ALZHEIMER: a dor do esquecimento

Lembro-me perfeitamente dos tempos de infância

De correr pelas campinas, apartar as vacas

Brincar com meus irmãos, ir aos bailes para namorar

O tempo passado me é o mais presente

Esse presente que são apenas borrões

Sei que fico agressiva, irritada

Repito as mesmas perguntas o tempo todo

Os que estão a minha volta também se irritam

Não sei o que acontece comigo

Esforço-me para lembrar, mas não consigo

Percebo minha fala estranha

Não consigo formular frases, nem as mais banais

Por isso acho melhor ficar calada

Esqueço o chuveiro ligado, mas nem sabia

Que tinha ido ao banheiro

Alguns rostos à minha frente não consigo distinguir

Acho que são meus, mas não me lembro

Dizem que são meus filhos, meu marido

Mas eu não os acho na minha memória

São estranhos que brigam comigo

Meu andar já não é tão fácil como nos tempos de juventude

Será que caí e me machuquei?

Não me lembro

Vejo os dias nascerem e partirem

E vou criando um mundo só meu

Pareço uma estranha diante de tantos estranhos

Só queria que não brigassem comigo

Fico sozinha querendo entender  as coisas

E me disperso com tanta facilidade

Será que estou doente e não me dizem nada

Ontem tentei comer um pãozinho sozinha

Mas as minhas mãos me traíram

Agora elas tremem e evito segurar as coisas

Porque esses estranhos brigam comigo

Passo horas olhando o céu, existe alguém lá

Mas não consigo me lembrar

Hoje eu ganhei um abraço, fiquei tão feliz

Mas não sei quem é a moça

Ela diz que é minha filha

Mas eu não sei se tenho filhos

Fiquei com pena dela, coitada

Ela acha que eu sou a mãe

Vejo-me tão enrugada, acho que estou velha

Mas nem sei que idade tenho

Será que já cheguei aos quarenta?

Perguntei  isso outro dia e um rapaz

Que eu nem conheço me chamou de vó

Achei tão estranho...



#daalmaparaaescrita

655

Será?

Será que sentirei saudades amanhã quando acordar?
Será que o céu vai estar tão azul que vai meus olhos ofuscar?
Será que terei como primeiro pensamento a lembrança 
De algo que me fará sorrir e desejar?
Será que despertarei daquele sonho cheio de realidade fantasiosa?
Será que amanhã meu dia trará com ele o perfume da rosa rubra
Encharcada de essência e liquidez amorosa?
Será? ...Será? ...Será? ...Será?...
Será que amanhã meu caminho tão cheio de espinhos
Me levará para outros trilhos, para novos caminhos?
Será que amanhã minhas perguntas mal feitas 
Encontrarão ao longo do dia  as respostas perfeitas?
Será que amanhã o grande Júpiter vai minhas energias
Tão escassas enfim recarregar?
Quanta idiotice verbalizada
Quantas palavras desorganizadas
Quanto verbo preguiçoso 
Mas, será que eu em algum momento
Dessa minha existência infinita
Encontrarei respostas ou farei perguntas
Que de alguma forma me alivie essa 
Intensa necessidade de saber?
Melhor entrar na imensidão do sono
Sem perguntas a fazer
Sem desejos ou fantasias
Enquanto o corpo adormecer
Minha alma irá ao encontro
De tudo que vale a pena saber
Amanhã... Bom, amanhã é amanhã...
Resta-me apenas os olhos cerrar e a voz emudecer
Para depois despertar em um novo alvorecer.
864

Bom mesmo

Bom mesmo é achar que a vida é um conto
E nesse tecer de pontos 
Vamos descobrindo o verso e o anverso
de sentir-se palavras ora grafadas
Ora pensadas, ora soltas no tempo
 E com apenas um sopro
Levadas para longe pelo vento.
Bom mesmo é achar que tudo vale a pena
E se a alma for pequena
Pequena também será a viagem...
Bom mesmo é sentir...Resistir...Incutir...
E acima ou apesar de tudo SORRIR!
1 038

A arte de se encantar

Manhã de primavera com cara de outono

O sol disputando a beleza com o céu azul

O vento trazendo com ele pequenos vislumbres

De história a ser contada, cantada, manifestada

Sentar à mesa junto ao bule de café

Café preto, colhido, torrado e moído

Rodeada de amigos novos e antigos

Abrir os olhos e os ouvidos

E permitir que memórias venham nos encantar

Nesta escuta destituída de interferências

Que nos leva a viajar nessas lembranças

Recheadas de personagens que viraram história

Que se materializaram no barro modelado

Nas mãos que dançam no ar como se o movimento

Fizessem essas lembranças bailar

O perfume do mato, o galo que chegou tarde

Mas ainda acha que vale a pena cantar

Essa simplicidade tão cheia de verdade

Esse encontro de riquezas que não tem

Moedas que possam esse instante pagar

A indescritível arte de se encantar

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