Janio Lima

Janio Lima

Um garotinho sentado no silêncio inicial da vida Brincando com as cigarras cantantes do final de tarde Catando frutinhas sobre o capim esverdeado. Sorrindo às vezes com as firulas dos saguins nas árvores.

n. , Aracaju-SE

Perfil
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Hermenêutica do outro

Enquanto eles gritam
rezam
choram
adormecem
imploram o perdão
comungam o erro, a traição
matam sem saber porque, se matam
enquanto eles traem seus próprios corações
enquanto procriam
mentem
sabotam
corrompem
distorcem o plano
meditam, consomem, somem
enquanto acreditam.
Eu calo!
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Poemas

10

Toda tristeza

Estou triste porque este será meu último século

Estou triste pelos objetivos mal conquistados

Estou triste porque a história não condiz aos fatos

Estou triste porque o verbo amar se tornou insustentável

Estou triste porque nunca chorei quando foi necessário,

Nunca se quer despejei uma lágrima sem importância.

Estou triste pelo fim de uma geração e revoada de outra

Indiscreta, mal sabedora das vertentes giratórias em nós.

Estou triste por ter certeza que meu pai foi e continua sendo

Um herói e nunca juntei coragem suficiente para lhe dar um abraço.

Estou triste pelas nascentes que morrem, pelas arvores que caem

Estou triste pela formiga que trabalha sem cessar

Estou triste pela joaninha que caiu depois de quebrar as asas e atrasou seu voo.

Triste pelas vidas que não se firmaram

Triste pela cor cinza do seu desespero

Triste pelo mendigo que tem nas mãos a liberdade e não sabe usar

Triste pelo pedaço de pão jogado no asfalto

Triste por aqueles que só sabem atirar pedras e por aqueles que

Não sabem o valor de uma vida, seja ela qual for.

Estou triste porque ninguém nunca me encontrou

Estou triste por ser triste

Estou triste porque poeta que sou envaideço-me com nada

Estou triste pelo findar de cada momento transformado em passado

A tristeza me corresponde fielmente

Um semipoeta da solidão mochileira

Um poeta que ouve as montanhas

E sente o peso de cada rejeição.

Estou triste porque nunca soube ser diferente.

Estou triste porque ser triste é ser diferente.

693

Os prantos de uma vida à toa

Não, homens não choram!

Mas quantas vezes já chorei na imensidão escura do meu ser

Nas horas livres de investigação da alma;

Na fatia triste de algumas canções de Pink Floyd;

Como não chorar com “wish you were here”

Nas próprias cenas acidas do filme “O império do sol” onde o valente

Garotinho com seu kadilac prata caçando a porteira de sua gaiola.

E como o valente garotinho do filme aprendo uma nova palavra todo dia

Ponho-as em práticas e sufoco a mim mesmo

Aprendo a sonhar desaprendendo a viver

Sou ilustrador do tempo incomum,

incabível em mim mesmo corro todos os dias para o ponto de partida

o tiro não soa, então retorno ao santuário dos sonhadores.

Um dia era manhã ensolarada um passarinho apossou-se de mim,

Mas não era nada, avisou-me que para possuir asas

era preciso saber equilibrar-se nas alturas do mundo.

Um dia eu chorei, era noite de lua um cisco estelar entrou em meus olhos

Eu todo alumbrado naveguei em prantos.

O imaginário transgredindo alavancando as horas, trabalhando sem cessar

O mundo a dois passos da destruição e um homem não pode chorar.

Um pedaço de mim ainda é pranto o outro é solidão

Dos espaços que ainda não construir.

641

Meia-a-meio

Uma


Coisa


É


Certa


Temos


Um


Interesse


Em


Comum


Logo


Nada


Temos


A


Perder


Vamos


Em


Frente


Ao


Invés


De


Brigarmos.


Porque


Não


Nós


Amamos?

625

Agenda poética

Tomar café as sete para começar a tecer o dia.


As oito de bicicleta até a biblioteca municipal multiplicar saberes


Dez e meia ainda na biblioteca lendo Thoreau e imaginando Pessoa


As onze e meia fazer o almoço enquanto Pink Floyd toca a meia altura


Uma hora depois de almoçar apreciar um delicioso vinho, o mais barato


Como de costume aqueles com gosto de simplicidade.


14h tentar escrever um poema vulgar e melancólico ou


um poema solidão depois de chorar meia dúzia de palavras enxutas


As 16h 30min estender no varal o poema pronto para quarar


18h comprar o pão quentinho


19h 30min esquentar a água para o mate de Saché, não sou do sul mas gostaria de o ser.


21h ler o poema do livro de cabeceira dos versos que me enobrecem 'meu amanhecer vai ser de


noite'


22h continuar a ler o mesmo livro 'no fim de tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal: Meus


filhos, o dia já envelheceu, entrem pra dentro'


23h Saborear outro delicioso vinho enquanto todos dormem tranquilhamente


00h assistir algum programa na TV ate o tedio começar a nascer e se estabelecer


2h fechar os olhos para sonhar com o tempo em que a vida seja tão mais


Intensa quanto os versos de Ilíada.

659

Aos poucos

Vou dizendo aos poucos.

porque tudo se faz aos poucos

com cada coisa em seu lugar

posso ser alguém descrevendo-me

posso ser outro alguém vivendo-me

posso ser mais ou menos

posso ser mais

posso ser menos

vou dizendo aos poucos.

626

Por um instante de paz

As ruas gritam depressivas

De nada servem os sinais ao meio dia

Todos querem ir e voltar rapidamente.

Um jovem em sua motocicleta espatifa-se

Um grito maior

Ecoa no peito de um pai

Que perde

Que chora

Que ora

A dor escorre em

Saudades de uma vida

Em inicio de construção.

640

Levante

Um dia acordaremos

E depois do sono profundo a realidade se fará outra.

Um dia os primeiros raios de luz ofuscarão em seus olhos

As gotas de orvalho de uma manhã doce escorrerão entre

Seus dedos dos pés. Você vai olhar para frente e seguir

Em direção ao oriente e lá poderá gritar de calafrio.


Um dia você vai acordar e do nada vai abrir a janela

E assistir a grande marcha para o oriente. Estenderá

Sua visão para 10 mil quilômetros à frente e atrás

E não verá nada além de pés marchando, uma grande

Marcha, e então ouvirão sussurros e gestos marchando

Para o oriente.


No meio do caminho a chuva cairá fina e lentamente sob as cabeças

E fará poças rasas onde se sujarão os meninos pobre

De cada nação. O que era disperso vai se tonando solido.

Não a motivo para se cantar apenas uma vez, gritar apenas um grito,

Dançar apenas um coro, insultar apenas um canalha vamos em frente

Marchando até o oriente que lá o levante se fará constate.


Um dia acordaremos completamente

A luz de uma ideia distante iluminará nossa mente

O sol aquecerá nossas vertentes e toda cidade cantara o hino

Feito para o planeta inteiro, para todos, cantara em coro

O hino da liberdade, o hino do levante, o hino a caminho do oriente.

E todos marcharão contente para o esplendor de uma conquista pós outra.


E então derrubaremos as velhas formas de domínio

Os velhos medos,

Os velhos gritos de guerra,

As velhas lutas que se fizeram inútil ao longo dos anos,

A velha sede insaciável.

Desvendaremos um novo jeito de bradar

Daí se levantará todos àqueles que dormiram além da conta.

O oriente despertara se todos marcham

Marchem para o oriente!

Marchem para o oriente !

660

Inspiração

No caminho para o trabalho

na madrugada quando o sono não bate na porta

no banheiro quando o chuveiro chove

em qualquer lugar quando a mente ligeiramente se distrai

essa é a rotina do pescador de palavras.


A inspiração começa percorrendo tímidas linhas

Foge do nada

E em algum lugar inesperado ela aparece

E se torna magistralmente bem vinda.


No ritmo da palavra certa

Seguindo o som aberto das metáforas ocasionais.

A poeira da imaginação vai te levando

Te levando até o limite dos pensamentos

Tornarem-se fetos e ganharem vida.


A grande gravidez do poeta.

Carrega por alguns meses a inspiração viva

Os sentimentos e os resguardos de viver

E a necessidade de parir, a dor do parto

Faz-se em qualquer lugar, inesperadamente.

Então, eis ai o nascimento.

Eis a dor

Eis a cria.

629

A voz do silêncio

Um dia vamos sentar e conversar

Mas hoje quero apenas silêncio.

Sinto necessidade de mais vazio

Você nunca sentiu essa vontade gritante de silêncio?

Acho que você não conhece a língua do silêncio.

Fazer com que as coisas sumam,

O tempo pare repentinamente

Diante dos seus pensamentos vagos.

O medo vai embora

O peito largo acomoda bem o vazio.

A solidão é como um amanhecer neblinado

Em que a frieza do pensar te conduz para bem longe

Para distante de tudo que te reduz.

Neste momento só o silêncio me constrói.

662

Um pouco mais de fôlego

Ando meio fora de foco

Se pelo menos entendessem

Minha necessidade de tempo.

Deem-me tempo pra pensar

Minhas lembranças apagam-se

Aos poucos.

Prometo que voltarei a habitar-me

Prometo abraçar o arrependimento

E chorar em uma tarde fria de inverno.

Prometo estar aqui antes do próximo

Entardecer, antes mesmo de mim.

Prometo, mas



dei-me tempo...

669

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