Lista de Poemas

Hermenêutica do outro

Enquanto eles gritam
rezam
choram
adormecem
imploram o perdão
comungam o erro, a traição
matam sem saber porque, se matam
enquanto eles traem seus próprios corações
enquanto procriam
mentem
sabotam
corrompem
distorcem o plano
meditam, consomem, somem
enquanto acreditam.
Eu calo!
612

Carta a uma bela alma

Terça-feira, 20/10/2015

Olá!
A tua doce presença me ilumina, tu es um farol? Sim tu es um farol iluminando meus pensamentos. O que vê? Me diz se tu consegues enxergar algo além de inocência, pura inocência de uma criança presa ao tempo do querer sem ver, do sonhar sem fim. Escrevo-te para enterrar o silêncio entre nós. As tuas armadilhas me capturaram não é competição, mas gosto de saber que você venceu. E como já disse a maré esta virando e isso me parece bom, portanto deixa o teu pensar habitar em mim, deixa pelo menos o teu sentir mergulhar nessa maré de águas calmas e por palavras viajar até esbarrar no tempo construído para o encontro interminável. Vejo-te por versos, versos cheios de vida e me seguro apertado de sofrer como um ser humano jamais sofre, parece-me o tempo ideal para uma ilusão amorosa, esse tempo de dialogo zero e corações libertos, estou a embarcar nessa enrascada prazerosa do sentir, porque agora consigo sentir. Um dia encontraremos um ao outro e enquanto esse dia não chegar sufocarei as dores da ausência sob juramento da paciência e na sabedoria de sempre estarei ao seu lado decifrando sentimentos e ressuscitando o verbo acontecer.

Do teu mais assíduo admirador

Poeta das montanhas
682

Carta a um inquieto



Sábado, 26 de setembro de 2015

Meu velho,
Existe um caminho ao longe que poderia te levar ao paraíso dos campos férteis. Esse caminho poderia torna-lo menos triste, menos desatento para o viver a vida, menos indiferente. Veja, essa é uma geração de pervertidos e quando falo pervertido não estou a falar só na perversão do sexo em si, mas na perversão a tecnologia, ao dinheiro, ao insano e miserável, você é um estranho entre todos esses pervertidos, eu sei. Me falaste de amor alguma vez? Não carrego em minhas lembranças se quer uma unica menção tua aos sentimentos humanos mais intensos. Falas muito pouco, o teu silêncio é um deus dentro de ti e esse deus construiu paredes resistentes e dessa resistência nasceu o congelamento para a vida, para tua vida cinzaescurecida, para o vegetar dos sentimentos estranhos. Onde estão tuas lembranças agora? Porque não me contas das tuas magoas passadas, sei do teu sentir latente, sei das tuas fraquezas que habitam as entranhas do teu lapidar o tempo inconscientemente. Revela-me as tuas dores, liberta por definitivo essas amarras falsas de um existir sem fundamento. Permita-me alcançar as tuas náuseas diárias e sentir o teu sentir para poder compreende-lo sem imaginar o que eu não posso imaginar. Sabe? Vejo-te como um ser intocável, não intocável no sentido de palpável, mas intocável no sentido de alcançar desde teu sentimento mais brando ao mais escuro, adentrar a tua cabeça e conhece-lo sem meio termo seria pra mim um privilegio. A tua face me agrada, ela disfarça um sofrimento de muitos anos, ela é pesada como o passado, na verdade ela carrega um passado mal compreendido é isso que sinto, desculpe-me se estou sendo inconveniente aos teus hábitos, mas penso que me deste liberdade de falar tudo depois que trocamos algumas palavras, confesso que não teria coragem de falar tudo isso pessoalmente, porque como é de costuma você encontraria um jeito de terminar o mais rápido a conversa para poder se desfazer de minhas bobagens. Essa acabou sendo a unica maneira de falar o que penso de ti. Es resistente porque luta contra um inimigo que nunca mostrara a cara. Se esconder do mundo talvez não seja a melhor maneira de vencer as angustias, esquecer o outro não passa de desculpas para não firmar sentimentos incompatíveis a sua forma de existir. Considero-te como a nenhum outro ser na face da terra, mas por favor a indiferença para com o outro é desleal. Peço-te meu velho algo mais em prol da nossa amizade: não me esqueça amanhã.

de todo meu coração

Poeta das montanhas
631

Meia-a-meio

Uma


Coisa


É


Certa


Temos


Um


Interesse


Em


Comum


Logo


Nada


Temos


A


Perder


Vamos


Em


Frente


Ao


Invés


De


Brigarmos.


Porque


Não


Nós


Amamos?

614

Inspiração

No caminho para o trabalho

na madrugada quando o sono não bate na porta

no banheiro quando o chuveiro chove

em qualquer lugar quando a mente ligeiramente se distrai

essa é a rotina do pescador de palavras.


A inspiração começa percorrendo tímidas linhas

Foge do nada

E em algum lugar inesperado ela aparece

E se torna magistralmente bem vinda.


No ritmo da palavra certa

Seguindo o som aberto das metáforas ocasionais.

A poeira da imaginação vai te levando

Te levando até o limite dos pensamentos

Tornarem-se fetos e ganharem vida.


A grande gravidez do poeta.

Carrega por alguns meses a inspiração viva

Os sentimentos e os resguardos de viver

E a necessidade de parir, a dor do parto

Faz-se em qualquer lugar, inesperadamente.

Então, eis ai o nascimento.

Eis a dor

Eis a cria.

619

Um pouco mais de fôlego

Ando meio fora de foco

Se pelo menos entendessem

Minha necessidade de tempo.

Deem-me tempo pra pensar

Minhas lembranças apagam-se

Aos poucos.

Prometo que voltarei a habitar-me

Prometo abraçar o arrependimento

E chorar em uma tarde fria de inverno.

Prometo estar aqui antes do próximo

Entardecer, antes mesmo de mim.

Prometo, mas



dei-me tempo...

652

Por um instante de paz

As ruas gritam depressivas

De nada servem os sinais ao meio dia

Todos querem ir e voltar rapidamente.

Um jovem em sua motocicleta espatifa-se

Um grito maior

Ecoa no peito de um pai

Que perde

Que chora

Que ora

A dor escorre em

Saudades de uma vida

Em inicio de construção.

627

Levante

Um dia acordaremos

E depois do sono profundo a realidade se fará outra.

Um dia os primeiros raios de luz ofuscarão em seus olhos

As gotas de orvalho de uma manhã doce escorrerão entre

Seus dedos dos pés. Você vai olhar para frente e seguir

Em direção ao oriente e lá poderá gritar de calafrio.


Um dia você vai acordar e do nada vai abrir a janela

E assistir a grande marcha para o oriente. Estenderá

Sua visão para 10 mil quilômetros à frente e atrás

E não verá nada além de pés marchando, uma grande

Marcha, e então ouvirão sussurros e gestos marchando

Para o oriente.


No meio do caminho a chuva cairá fina e lentamente sob as cabeças

E fará poças rasas onde se sujarão os meninos pobre

De cada nação. O que era disperso vai se tonando solido.

Não a motivo para se cantar apenas uma vez, gritar apenas um grito,

Dançar apenas um coro, insultar apenas um canalha vamos em frente

Marchando até o oriente que lá o levante se fará constate.


Um dia acordaremos completamente

A luz de uma ideia distante iluminará nossa mente

O sol aquecerá nossas vertentes e toda cidade cantara o hino

Feito para o planeta inteiro, para todos, cantara em coro

O hino da liberdade, o hino do levante, o hino a caminho do oriente.

E todos marcharão contente para o esplendor de uma conquista pós outra.


E então derrubaremos as velhas formas de domínio

Os velhos medos,

Os velhos gritos de guerra,

As velhas lutas que se fizeram inútil ao longo dos anos,

A velha sede insaciável.

Desvendaremos um novo jeito de bradar

Daí se levantará todos àqueles que dormiram além da conta.

O oriente despertara se todos marcham

Marchem para o oriente!

Marchem para o oriente !

646

Toda tristeza

Estou triste porque este será meu último século

Estou triste pelos objetivos mal conquistados

Estou triste porque a história não condiz aos fatos

Estou triste porque o verbo amar se tornou insustentável

Estou triste porque nunca chorei quando foi necessário,

Nunca se quer despejei uma lágrima sem importância.

Estou triste pelo fim de uma geração e revoada de outra

Indiscreta, mal sabedora das vertentes giratórias em nós.

Estou triste por ter certeza que meu pai foi e continua sendo

Um herói e nunca juntei coragem suficiente para lhe dar um abraço.

Estou triste pelas nascentes que morrem, pelas arvores que caem

Estou triste pela formiga que trabalha sem cessar

Estou triste pela joaninha que caiu depois de quebrar as asas e atrasou seu voo.

Triste pelas vidas que não se firmaram

Triste pela cor cinza do seu desespero

Triste pelo mendigo que tem nas mãos a liberdade e não sabe usar

Triste pelo pedaço de pão jogado no asfalto

Triste por aqueles que só sabem atirar pedras e por aqueles que

Não sabem o valor de uma vida, seja ela qual for.

Estou triste porque ninguém nunca me encontrou

Estou triste por ser triste

Estou triste porque poeta que sou envaideço-me com nada

Estou triste pelo findar de cada momento transformado em passado

A tristeza me corresponde fielmente

Um semipoeta da solidão mochileira

Um poeta que ouve as montanhas

E sente o peso de cada rejeição.

Estou triste porque nunca soube ser diferente.

Estou triste porque ser triste é ser diferente.

679

Os prantos de uma vida à toa

Não, homens não choram!

Mas quantas vezes já chorei na imensidão escura do meu ser

Nas horas livres de investigação da alma;

Na fatia triste de algumas canções de Pink Floyd;

Como não chorar com “wish you were here”

Nas próprias cenas acidas do filme “O império do sol” onde o valente

Garotinho com seu kadilac prata caçando a porteira de sua gaiola.

E como o valente garotinho do filme aprendo uma nova palavra todo dia

Ponho-as em práticas e sufoco a mim mesmo

Aprendo a sonhar desaprendendo a viver

Sou ilustrador do tempo incomum,

incabível em mim mesmo corro todos os dias para o ponto de partida

o tiro não soa, então retorno ao santuário dos sonhadores.

Um dia era manhã ensolarada um passarinho apossou-se de mim,

Mas não era nada, avisou-me que para possuir asas

era preciso saber equilibrar-se nas alturas do mundo.

Um dia eu chorei, era noite de lua um cisco estelar entrou em meus olhos

Eu todo alumbrado naveguei em prantos.

O imaginário transgredindo alavancando as horas, trabalhando sem cessar

O mundo a dois passos da destruição e um homem não pode chorar.

Um pedaço de mim ainda é pranto o outro é solidão

Dos espaços que ainda não construir.

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