Um amor tão firme quanto prego na areia
Já fazia mais de duas semanas que não se viam
Ele louco de saudades dela, não via à hora de reencontrá-la
E finalmente quando houve uma brecha entre o trabalho e a faculdade
Resolveu ligar pra ela para marcar de se encontrarem.
-Oi! Liguei só para saber se posso ir até ai te ver?
-Não, não precisa. Bjs!
Um mendigo sem sapato
Um sapato dispensado na rua
E o dono do sapato deve de está
Por ai à toa, a vida acolhe os homens à toa,
Deitado na calçada coberto por um jornal
E de pensar que ele próprio já leu o jornal
Sentado na varanda em sua cadeira especial.
O homem trôpego sem um sapato e sem
Nenhum destino, homem sombra. O sol
Nasce, mas ele prefere à noite crua em sua lua
Desvanecida sob o relento infinito.
A beira de um abismo existencial estende a mão
Ao primeiro que passa e não recebe nem se quer
Um olhar humano, um olhar de bicho para bicho,
Outra mão não alcança a sua nessa extrema distância
Entre almas desconexas com a realidade.
O sinal pode ser uma esperança, mas os vidros
Estão todos fechados, o sinal trabalha rápido
E os ônibus estão vazios.
Vidas e mais vidas em movimento aleatório,
Vidas e mais vidas andam retos sem expressão,
Vidas esquecendo vidas enquanto os sinais abrem
E fecham destruindo esperança e alongando a
Distância entre os seres humanos. Um sapato ficou
Para traz e mais adiante seu dono não é melhor.
Amor fingido
Ela diz me querer
Ela finge está bem ao meu lado
Sei que é balela, ela finge mal
Seus olhos não brilham e a satisfação de uma mulher
Apaixonada não é transmitida em seus gestos.
Talvez eu esteja observando além das minhas próprias
Imaginações de poeta sem noção.
Ela me conta isso e aquilo
Eu calado estou sempre a ouvir, o silêncio diz tudo
O silêncio é porta voz
Soa bem mais forte que qualquer palavra inverossímil.
Ela fala eu escuto
Meu silêncio pergunta, ela não responde
Vejo um abismo de arrependimento logo à frente
Sinto um falso romantismo me rodear
E lamento por está vivendo um romance
a 100 milhas de distância.
Estou cansado,
Vou atrás dos sentimentos que me procuram
Cansei de oferecer tudo e receber nada.
Danem-se as ponderações do amor,
procuro apenas ser compreendido.
Sou o que sou se não pode me amar
afaste-se de mim, seu fingimento é como o fogo
a me queimar. Se não consegue retribuir o carinho
que te dou tudo bem, mas deixe de ser fingida
e deixe-me a sós, prefiro o silêncio e a solidão
ante a seu amor sem carinho, sem respeito ao
sentimentos dos outros, sem responsabilidade.
Afasta-se por favor,
Afasta-se, não sou homem de adulação.
Monotonia
Daqui a pouco vai chover,
Daqui a pouco também o pão estará pronto,
E o café estará cheirando,
A mesa preparada para o jantar.
Daqui a pouco estará chegando à hora de dormir.
As luzes se apagarão,
Mas a solidão não se apagará
A solidão nunca se apaga.
O coração continuará vazio e sombrio.
As mãos continuarão a bailar no ar
A procura do que tocar.
As mãos vazias do desejo.
Daqui a pouco fará frio
Daqui a pouco o vento soprará forte
Tão forte quanto o desejo de desaparecer dessa vida
Monótona que se estende em mim.
Ópera
É um drama complexo e indefinível
A vida de um homem que leva no peito
Um amor que está perto e distante.
Essa dança de ver e não ver inaudível
O instante de riso no coração estreito
Essa vida de dois infratores amantes.
Vejo-te como o céu tão distante
Quero-te agora, aqui, neste instante.
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A vida
Comendo as horas
esquecendo pensamentos;
refazendo caminhos;
pisando em espinhos;
naufragando sonhos;
revivendo tudo;
soltando lágrimas fingidas;
apressando a vida,
essa vida sem pressa
vida de quem ama e sofre.
Dor na alma
Não é o peito nem o coração que dói
São os sentimentos doloridos que calejam minha alma.
A alma lateja uma dor incurável e não consegue suspirar
Diante de tanta nostalgia. Eis o preço da distância, da separação
E da liberdade impulsiva.
A dor escura que habita um lado inteiro sem descanso
A dor certeira que fura o alvo num instante,
A dor congênita freando o duelo entre razão e loucura.
Foram-se ávidas muitas soluções, restaram apenas
Resquícios de ideias rasas, ocas, vazias. Não existe solução.
A dor bate e se espalha é como as águas de uma cachoeira
Despencando no riacho expansivo.
Não, não é o peito nem o coração que dói
É a ferida da alma ardendo em chamas
De reviver e remoer coisas passadas,
De andar em campos de guerra, de andar
Sobre os trilhos feitos trem desgovernado,
De subir em uma jangada sem equilíbrio.
O peito não dói, nem o coração.
É a ilusão de querer o impossível que
Afeta a alma frágil.
A espera
Ascendam-me um
charuto estou
a beira da loucura
provisória, quero distanciar-me
dos sustos malévolos de ideias
insanas que consomem minhas
vontades.
Ascendam-me um charuto
coloquem o vinho sobre a mesa
e saiam. O resto é comigo.