Janio Lima

Janio Lima

Um garotinho sentado no silêncio inicial da vida Brincando com as cigarras cantantes do final de tarde Catando frutinhas sobre o capim esverdeado. Sorrindo às vezes com as firulas dos saguins nas árvores.

n. , Aracaju-SE

Perfil
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Hermenêutica do outro

Enquanto eles gritam
rezam
choram
adormecem
imploram o perdão
comungam o erro, a traição
matam sem saber porque, se matam
enquanto eles traem seus próprios corações
enquanto procriam
mentem
sabotam
corrompem
distorcem o plano
meditam, consomem, somem
enquanto acreditam.
Eu calo!
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Poemas

23

Os prantos de uma vida à toa

Não, homens não choram!

Mas quantas vezes já chorei na imensidão escura do meu ser

Nas horas livres de investigação da alma;

Na fatia triste de algumas canções de Pink Floyd;

Como não chorar com “wish you were here”

Nas próprias cenas acidas do filme “O império do sol” onde o valente

Garotinho com seu kadilac prata caçando a porteira de sua gaiola.

E como o valente garotinho do filme aprendo uma nova palavra todo dia

Ponho-as em práticas e sufoco a mim mesmo

Aprendo a sonhar desaprendendo a viver

Sou ilustrador do tempo incomum,

incabível em mim mesmo corro todos os dias para o ponto de partida

o tiro não soa, então retorno ao santuário dos sonhadores.

Um dia era manhã ensolarada um passarinho apossou-se de mim,

Mas não era nada, avisou-me que para possuir asas

era preciso saber equilibrar-se nas alturas do mundo.

Um dia eu chorei, era noite de lua um cisco estelar entrou em meus olhos

Eu todo alumbrado naveguei em prantos.

O imaginário transgredindo alavancando as horas, trabalhando sem cessar

O mundo a dois passos da destruição e um homem não pode chorar.

Um pedaço de mim ainda é pranto o outro é solidão

Dos espaços que ainda não construir.

643

Aos poucos

Vou dizendo aos poucos.

porque tudo se faz aos poucos

com cada coisa em seu lugar

posso ser alguém descrevendo-me

posso ser outro alguém vivendo-me

posso ser mais ou menos

posso ser mais

posso ser menos

vou dizendo aos poucos.

629

A voz do silêncio

Um dia vamos sentar e conversar

Mas hoje quero apenas silêncio.

Sinto necessidade de mais vazio

Você nunca sentiu essa vontade gritante de silêncio?

Acho que você não conhece a língua do silêncio.

Fazer com que as coisas sumam,

O tempo pare repentinamente

Diante dos seus pensamentos vagos.

O medo vai embora

O peito largo acomoda bem o vazio.

A solidão é como um amanhecer neblinado

Em que a frieza do pensar te conduz para bem longe

Para distante de tudo que te reduz.

Neste momento só o silêncio me constrói.

667

Eu distante

Ando distante de mim e da vida.
Carrego uma essência pesada,
Um verdadeiro pudor a tudo que se molda social.
A verdade dos homens é um redemoinho de coisa alguma,
As minhas próprias verdades nunca dizem nada.
Essa atmosfera emporcalhada me repele
Só a um verbo ao qual ainda me apego: fugir.
Minha vontade, minhas dores, minhas miudezas saudosistas
Requerem uma reavaliação, pois sou eu mesmo feito dessa
Nostalgia aqui calada no peito frio e asqueroso.
Sentimental poucas vezes fui, sentimentos mastigados
Muitas vezes engoli. Eis, pois a velha arte de não se encontrar.
455

Um horizonte próximo

Sim eu consigo enxergar,
Está se aproximando cada vez mais
Estou quase lá, vejam só como é grande a extensão da conquista.
Não é preciso fechar as portas, nem apagar as luzes novamente,
O vento carrega as incertezas e as impurezas da vida.
Também não é preciso chorar mais vezes
Nem ouvir as canções pesadas, as antigas bandas de rock se foram
Você está ai a um passo do esquecimento, um dilúvio quase te afunda
Uma tempestade de solidão quase te leva, você é forte, você foi forte
Aquela mulher não te ama mais, você foi forte...
Você está quase lá. Olhe adiante. O que vê? Consegue vê a multidão
Se desmanchando, os soldados foram embora, a forca continua lá,
Mas você está caminhando para além dela, você está quase lá.
Essa é a tua última chance, talvez aja alguém te esperando
Você precisa caminhar mais rápido.
Está quase lá, está cada vez mais próximo.
Sorria agora, é preciso deixar uma brecha.
É preciso sentir algo diferente
É preciso está atento, portas como essa só se abrem uma única vez.
Está quase chegando, percebe o som estremecido de cada passada?
Esqueça a forca, as lágrimas, esqueça a multidão siga adiante
E atravesse a porta. O que há lá? Não pergunta entra.


435

Um amor tão firme quanto prego na areia

Já fazia mais de duas semanas que não se viam
Ele louco de saudades dela, não via à hora de reencontrá-la
E finalmente quando houve uma brecha entre o trabalho e a faculdade
Resolveu ligar pra ela para marcar de se encontrarem.
-Oi! Liguei só para saber se posso ir até ai te ver?
-Não, não precisa. Bjs!
542

Um mendigo sem sapato

Um sapato dispensado na rua
E o dono do sapato deve de está
Por ai à toa, a vida acolhe os homens à toa,
Deitado na calçada coberto por um jornal
E de pensar que ele próprio já leu o jornal
Sentado na varanda em sua cadeira especial.
O homem trôpego sem um sapato e sem
Nenhum destino, homem sombra. O sol
Nasce, mas ele prefere à noite crua em sua lua
Desvanecida sob o relento infinito.
A beira de um abismo existencial estende a mão
Ao primeiro que passa e não recebe nem se quer
Um olhar humano, um olhar de bicho para bicho,
Outra mão não alcança a sua nessa extrema distância
Entre almas desconexas com a realidade.
O sinal pode ser uma esperança, mas os vidros
Estão todos fechados, o sinal trabalha rápido
E os ônibus estão vazios.
Vidas e mais vidas em movimento aleatório,
Vidas e mais vidas andam retos sem expressão,
Vidas esquecendo vidas enquanto os sinais abrem
E fecham destruindo esperança e alongando a
Distância entre os seres humanos. Um sapato ficou
Para traz e mais adiante seu dono não é melhor.
471

A vida

Comendo as horas
esquecendo pensamentos;
refazendo caminhos;
pisando em espinhos;
naufragando sonhos;
revivendo tudo;
soltando lágrimas fingidas;
apressando a vida,
essa vida sem pressa
vida de quem ama e sofre.
494

Monotonia

Daqui a pouco vai chover,
Daqui a pouco também o pão estará pronto,
E o café estará cheirando,
A mesa preparada para o jantar.

Daqui a pouco estará chegando à hora de dormir.
As luzes se apagarão,
Mas a solidão não se apagará
A solidão nunca se apaga.
O coração continuará vazio e sombrio.
As mãos continuarão a bailar no ar
A procura do que tocar.
As mãos vazias do desejo.

Daqui a pouco fará frio
Daqui a pouco o vento soprará forte
Tão forte quanto o desejo de desaparecer dessa vida
Monótona que se estende em mim.
599

Dor na alma

Não é o peito nem o coração que dói
São os sentimentos doloridos que calejam minha alma.
A alma lateja uma dor incurável e não consegue suspirar
Diante de tanta nostalgia. Eis o preço da distância, da separação
E da liberdade impulsiva.

A dor escura que habita um lado inteiro sem descanso
A dor certeira que fura o alvo num instante,
A dor congênita freando o duelo entre razão e loucura.
Foram-se ávidas muitas soluções, restaram apenas
Resquícios de ideias rasas, ocas, vazias. Não existe solução.

A dor bate e se espalha é como as águas de uma cachoeira
Despencando no riacho expansivo.
Não, não é o peito nem o coração que dói
É a ferida da alma ardendo em chamas
De reviver e remoer coisas passadas,
De andar em campos de guerra, de andar
Sobre os trilhos feitos trem desgovernado,
De subir em uma jangada sem equilíbrio.
O peito não dói, nem o coração.
É a ilusão de querer o impossível que
Afeta a alma frágil.
598

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