jeronimo_collares

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Sobre mim, em ti

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operários II

envelheço as rugas
porque não tenho pressa

quando morre a labuta
da noite, caem as estrelas em vão?

o que escreve
um operário após um
dia de chão?

e sentado, a beira da minha testa,
canso os braços do pão

recosto sob as horas
à espreita do Cão

releio as sobras
de uma vida em vão

mas envelheço as rugas
porque não tenho pressa

jeronimo
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Poemas

12

oração

rezo

um terço de sangue

e nele, não há Marias

não há Senhores

 

não há a graça

ou reino,

nem culpa à piedade

 

não firma

palmas e castas às horas, rima

 

silencia

 

e do ventre

laça o vime,

das ruas, as flores

das lutas, os amores 


jeronimo
224

carta

sob entorno e vidro

desafiei ao mar

um aviso:

 

aqui, houve um homem

partido que navegou

escondido entre

bordas e linhas

de um triste improviso
 

jeronimo
209

Janeiro febril

na romaria das ondas,

rogo à Iemanjá, aparição

 

mas não para render fé ao infortúnio

ou oferecer alguma dívida à louvação

 

apenas a súplica de quem afoga:

dai-me o canto das marés e oração


jeronimo
315

Devota

quando menina

ocupei assento

em paróquia e exclamação

 

do Paramento, pouca memória

as sobras de um rosário entre

palmas quais mitigavam a fome,

o comungar-me entre dois corpos

 

dessa oração

não vi o fim, nem porta

e como sacramento

me fiz devota

 

e hoje, hoje meus cabelos

exponho ao hábito,

se não da carne, a renunciar o regalo

e do pesar-te em meu ventre

apenas o fardo:

 

deus, dai-me um pouco de perdão


jeronimo
214

cravos efêmeros

resta a noite

do rumor da partida

 

a ideia batida

de um corpo de cor

 

e deito-me ao escopo, é ofício

o adeus sem dor


jeronimo
306

Menininha da lua

e sorri, meia e tangente,

bailando em noites cadentes

 

é prata de um quarto crescente

que perde, no ensaio, um dente
 

jeronimo
212

Lavadeiras

cá, a palavra não fala

mas canta a um rio

a rodar teias no cio

 

Caminho dos Escravos

morreu Ouro, Córrego da Prata

da Boca do Inferno, ainda sonha

o Rio Jequitinhonha

 

Bica das Monteiras

bate em pedra,

Santa Clara, lavadeira

 

suor é mina d’água

a quarar o tempo

em ordem e entendimento

 

não esqueçam nossa lida

d'água branca

pois diamante foi voz

de um canto já distante
244

reza flor

flores na janela

cultivam longa espera

devotando à rua, capela

 

reza flor II

 

rezam flores em capela

cultivam dores e espera

os que fazem das ruas, janelas

 

reza flor III

 

rezam dores, sem espera,

os que não cultivam flores

nem das ruas - janelas

 

reza flor IV

 

rezam ruas, dores e janelas

cultivam flores, capela

de tão longa, resta espera
 

jeronimo
206

Sinos de Gaza

e choram os sinos

sob um céu de estrelas

que caem reinando à sorte

onde homens, já sem sombras,

se dobram a morte
 

jeronimo
206

o prego na parede

ao pregar o prego na parede
João plantou corpo, corpo morto no chão

mas quem foi João, pergunta o mestre,
o mestre ao capelão?

e as horas passam como as cinzas voam,
voam as cinzas de João

mas o prego continuou na parede, imóvel
tal qual pergunta, pergunta do mestre ao capelão

um dia, daquele prego, Maria fez moldura,
inquilina na imagem, era formosura em rendas e tenra idade

sob o quadro, louças finas em fina cristaleira
obra feita dos antigos, agora de moça, moça e rendeira

Maria rendou cidades e rendou lençóis e castidade, por homens de cabeceira

mas os anos passam, e gastam como a saudade,
a saudade da cristaleira, da moça fina e louças de solteira

naquele quarto, (da parede e do prego de João)
vieram os filhos, dos filhos, os netos, os netos da mulher de prateleira

e o tempo passa, o tempo passa como no tempo de João

hoje vagam naquela casa, velha casa, em meio aos pregos sem molduras, a mulher velha e um olhar na solidão

pois foi certeza da idade, da lembrança da imagem, formosura em renda de tenra idade, que a mulher velha tornou-se inquilina da saudade e era filha, a menina do João

jeronimo
260

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