jeronimo_collares

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Sobre mim, em ti

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operários II

envelheço as rugas
porque não tenho pressa

quando morre a labuta
da noite, caem as estrelas em vão?

o que escreve
um operário após um
dia de chão?

e sentado, a beira da minha testa,
canso os braços do pão

recosto sob as horas
à espreita do Cão

releio as sobras
de uma vida em vão

mas envelheço as rugas
porque não tenho pressa

jeronimo
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Poemas

16

indefere

habito uma casa que não é minha
do hábito, um corpo que não é meu
do cansaço, a fadiga distancia os braços
de um amor que não foi teu

não há beira de morada
nem um mar que céu apruma
reza, a cor é púrpura
da noite que não adia

me fiz do encalço e
do desprezo
o silêncio não é recluso
porque da morte não há partida

e se nalgum dia retornar
àquela casa
sem mora ou recaída
não diga adeus a despedida

jeronimo
201

banco

hoje estou mínimo
tão mínimo de mim

e figuram os laços
de um qualquer retrato

mas estou mínimo
mínimo de mim

esboço algumas linhas
num papel feito de água e nanquim

e cada gota que se esvai
leva pouco, um pouco de mim

mas ouço passos e moças
carros e poças

seguro as mãos,
os talhos, as louças

porque estou mínimo,
tão mínimo de mim

jeronimo
217

operária

quem é essa
que me amarga os olhos
que da carne fogem os ossos
dos passos tropeça a hora,
que da boca saliva o encalço
de mãos atadas à história?

quem é essa
que nos dias se perde da sombra
das noites, finda mulher e ronda
e ainda seca da cama, amanhece
por ternura a seu cantar?

quem é essa
por quais gemem os muros
correntes, pedras e murros
desbotando os homens
da cólera do pesar?

quem é essa por qual
chora o verdugo, os clarões
os Papas e os miúdos
das roupas e abusos
e ainda insiste em passar?

quem é essa
que desabotoa da terra
as cercas e as vestes da 'Besta'
que a posse finda
por tanto matar?

quem é essa?

jeronimo
217

operários II

envelheço as rugas
porque não tenho pressa

quando morre a labuta
da noite, caem as estrelas em vão?

o que escreve
um operário após um
dia de chão?

e sentado, a beira da minha testa,
canso os braços do pão

recosto sob as horas
à espreita do Cão

releio as sobras
de uma vida em vão

mas envelheço as rugas
porque não tenho pressa

jeronimo
248

oração

rezo

um terço de sangue

e nele, não há Marias

não há Senhores

 

não há a graça

ou reino,

nem culpa à piedade

 

não firma

palmas e castas às horas, rima

 

silencia

 

e do ventre

laça o vime,

das ruas, as flores

das lutas, os amores 


jeronimo
224

carta

sob entorno e vidro

desafiei ao mar

um aviso:

 

aqui, houve um homem

partido que navegou

escondido entre

bordas e linhas

de um triste improviso
 

jeronimo
209

Janeiro febril

na romaria das ondas,

rogo à Iemanjá, aparição

 

mas não para render fé ao infortúnio

ou oferecer alguma dívida à louvação

 

apenas a súplica de quem afoga:

dai-me o canto das marés e oração


jeronimo
315

Devota

quando menina

ocupei assento

em paróquia e exclamação

 

do Paramento, pouca memória

as sobras de um rosário entre

palmas quais mitigavam a fome,

o comungar-me entre dois corpos

 

dessa oração

não vi o fim, nem porta

e como sacramento

me fiz devota

 

e hoje, hoje meus cabelos

exponho ao hábito,

se não da carne, a renunciar o regalo

e do pesar-te em meu ventre

apenas o fardo:

 

deus, dai-me um pouco de perdão


jeronimo
214

cravos efêmeros

resta a noite

do rumor da partida

 

a ideia batida

de um corpo de cor

 

e deito-me ao escopo, é ofício

o adeus sem dor


jeronimo
306

Menininha da lua

e sorri, meia e tangente,

bailando em noites cadentes

 

é prata de um quarto crescente

que perde, no ensaio, um dente
 

jeronimo
212

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