Lista de Poemas
operários II
envelheço as rugas
porque não tenho pressa
quando morre a labuta
da noite, caem as estrelas em vão?
o que escreve
um operário após um
dia de chão?
e sentado, a beira da minha testa,
canso os braços do pão
recosto sob as horas
à espreita do Cão
releio as sobras
de uma vida em vão
mas envelheço as rugas
porque não tenho pressa
jeronimo
porque não tenho pressa
quando morre a labuta
da noite, caem as estrelas em vão?
o que escreve
um operário após um
dia de chão?
e sentado, a beira da minha testa,
canso os braços do pão
recosto sob as horas
à espreita do Cão
releio as sobras
de uma vida em vão
mas envelheço as rugas
porque não tenho pressa
jeronimo
228
Janeiro febril
na romaria das ondas,
rogo à Iemanjá, aparição
mas não para render fé ao infortúnio
ou oferecer alguma dívida à louvação
apenas a súplica de quem afoga:
dai-me o canto das marés e oração
rogo à Iemanjá, aparição
mas não para render fé ao infortúnio
ou oferecer alguma dívida à louvação
apenas a súplica de quem afoga:
dai-me o canto das marés e oração
jeronimo
296
cravos efêmeros
resta a noite
do rumor da partida
a ideia batida
de um corpo de cor
e deito-me ao escopo, é ofício
o adeus sem dor
do rumor da partida
a ideia batida
de um corpo de cor
e deito-me ao escopo, é ofício
o adeus sem dor
jeronimo
287
banco
hoje estou mínimo
tão mínimo de mim
e figuram os laços
de um qualquer retrato
mas estou mínimo
mínimo de mim
esboço algumas linhas
num papel feito de água e nanquim
e cada gota que se esvai
leva pouco, um pouco de mim
mas ouço passos e moças
carros e poças
seguro as mãos,
os talhos, as louças
porque estou mínimo,
jeronimo
tão mínimo de mim
e figuram os laços
de um qualquer retrato
mas estou mínimo
mínimo de mim
esboço algumas linhas
num papel feito de água e nanquim
e cada gota que se esvai
leva pouco, um pouco de mim
mas ouço passos e moças
carros e poças
seguro as mãos,
os talhos, as louças
porque estou mínimo,
tão mínimo de mim
jeronimo
204
indefere
habito uma casa que não é minha
do hábito, um corpo que não é meu
do cansaço, a fadiga distancia os braços
de um amor que não foi teu
não há beira de morada
nem um mar que céu apruma
reza, a cor é púrpura
da noite que não adia
me fiz do encalço e
do desprezo
o silêncio não é recluso
porque da morte não há partida
e se nalgum dia retornar
àquela casa
sem mora ou recaída
jeronimo
do hábito, um corpo que não é meu
do cansaço, a fadiga distancia os braços
de um amor que não foi teu
não há beira de morada
nem um mar que céu apruma
reza, a cor é púrpura
da noite que não adia
me fiz do encalço e
do desprezo
o silêncio não é recluso
porque da morte não há partida
e se nalgum dia retornar
àquela casa
sem mora ou recaída
não diga adeus a despedida
jeronimo
189
operária
quem é essa
que me amarga os olhos
que da carne fogem os ossos
dos passos tropeça a hora,
que da boca saliva o encalço
de mãos atadas à história?
quem é essa
que nos dias se perde da sombra
das noites, finda mulher e ronda
e ainda seca da cama, amanhece
por ternura a seu cantar?
quem é essa
por quais gemem os muros
correntes, pedras e murros
desbotando os homens
da cólera do pesar?
quem é essa por qual
chora o verdugo, os clarões
os Papas e os miúdos
das roupas e abusos
e ainda insiste em passar?
quem é essa
que desabotoa da terra
as cercas e as vestes da 'Besta'
que a posse finda
por tanto matar?
jeronimo
que me amarga os olhos
que da carne fogem os ossos
dos passos tropeça a hora,
que da boca saliva o encalço
de mãos atadas à história?
quem é essa
que nos dias se perde da sombra
das noites, finda mulher e ronda
e ainda seca da cama, amanhece
por ternura a seu cantar?
quem é essa
por quais gemem os muros
correntes, pedras e murros
desbotando os homens
da cólera do pesar?
quem é essa por qual
chora o verdugo, os clarões
os Papas e os miúdos
das roupas e abusos
e ainda insiste em passar?
quem é essa
que desabotoa da terra
as cercas e as vestes da 'Besta'
que a posse finda
por tanto matar?
quem é essa?
jeronimo
205
carta
sob entorno e vidro
desafiei ao mar
um aviso:
aqui, houve um homem
partido que navegou
escondido entre
bordas e linhas
jeronimo
desafiei ao mar
um aviso:
aqui, houve um homem
partido que navegou
escondido entre
bordas e linhas
de um triste improviso
jeronimo
195
oração
rezo
um terço de sangue
e nele, não há Marias
não há Senhores
não há a graça
ou reino,
nem culpa à piedade
não firma
palmas e castas às horas, rima
silencia
e do ventre
laça o vime,
das ruas, as flores
jeronimo
um terço de sangue
e nele, não há Marias
não há Senhores
não há a graça
ou reino,
nem culpa à piedade
não firma
palmas e castas às horas, rima
silencia
e do ventre
laça o vime,
das ruas, as flores
das lutas, os amores
jeronimo
211
reza flor
flores na janela
cultivam longa espera
devotando à rua, capela
reza flor II
rezam flores em capela
cultivam dores e espera
os que fazem das ruas, janelas
reza flor III
rezam dores, sem espera,
os que não cultivam flores
nem das ruas - janelas
reza flor IV
rezam ruas, dores e janelas
cultivam flores, capela
de tão longa, resta espera
cultivam longa espera
devotando à rua, capela
reza flor II
rezam flores em capela
cultivam dores e espera
os que fazem das ruas, janelas
reza flor III
rezam dores, sem espera,
os que não cultivam flores
nem das ruas - janelas
reza flor IV
rezam ruas, dores e janelas
cultivam flores, capela
de tão longa, resta espera
jeronimo
197
Devota
quando menina
ocupei assento
em paróquia e exclamação
do Paramento, pouca memória
as sobras de um rosário entre
palmas quais mitigavam a fome,
o comungar-me entre dois corpos
dessa oração
não vi o fim, nem porta
e como sacramento
me fiz devota
e hoje, hoje meus cabelos
exponho ao hábito,
se não da carne, a renunciar o regalo
e do pesar-te em meu ventre
apenas o fardo:
deus, dai-me um pouco de perdão
ocupei assento
em paróquia e exclamação
do Paramento, pouca memória
as sobras de um rosário entre
palmas quais mitigavam a fome,
o comungar-me entre dois corpos
dessa oração
não vi o fim, nem porta
e como sacramento
me fiz devota
e hoje, hoje meus cabelos
exponho ao hábito,
se não da carne, a renunciar o regalo
e do pesar-te em meu ventre
apenas o fardo:
deus, dai-me um pouco de perdão
jeronimo
203
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