jeronimo_collares

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Sobre mim, em ti

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operários II

envelheço as rugas
porque não tenho pressa

quando morre a labuta
da noite, caem as estrelas em vão?

o que escreve
um operário após um
dia de chão?

e sentado, a beira da minha testa,
canso os braços do pão

recosto sob as horas
à espreita do Cão

releio as sobras
de uma vida em vão

mas envelheço as rugas
porque não tenho pressa

jeronimo
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Poemas

16

Devota

quando menina

ocupei assento

em paróquia e exclamação

 

do Paramento, pouca memória

as sobras de um rosário entre

palmas quais mitigavam a fome,

o comungar-me entre dois corpos

 

dessa oração

não vi o fim, nem porta

e como sacramento

me fiz devota

 

e hoje, hoje meus cabelos

exponho ao hábito,

se não da carne, a renunciar o regalo

e do pesar-te em meu ventre

apenas o fardo:

 

deus, dai-me um pouco de perdão


jeronimo
217

da pele

a pele é o jardim das vaidades
de uma alma que seca

do corpo, arranham
espinhos e já não posso tocar a chuva

as horas fadigam o tempo
corroem a memória

mas quero cobrir-me da casca
e contar sobre a melancolia das folhas

e quando deitar na terra úmida,
me dissolver nas sombras

que dos meus restos
alimentem a terra, mas não por algum pesar

porque a pele é jardim das vaidades
de uma alma que seca

jeronimo
237

Sinos de Gaza

e choram os sinos

sob um céu de estrelas

que caem reinando à sorte

onde homens, já sem sombras,

se dobram a morte
 

jeronimo
209

Menininha da lua

e sorri, meia e tangente,

bailando em noites cadentes

 

é prata de um quarto crescente

que perde, no ensaio, um dente
 

jeronimo
216

reza flor

flores na janela

cultivam longa espera

devotando à rua, capela

 

reza flor II

 

rezam flores em capela

cultivam dores e espera

os que fazem das ruas, janelas

 

reza flor III

 

rezam dores, sem espera,

os que não cultivam flores

nem das ruas - janelas

 

reza flor IV

 

rezam ruas, dores e janelas

cultivam flores, capela

de tão longa, resta espera
 

jeronimo
210

Lavadeiras

cá, a palavra não fala

mas canta a um rio

a rodar teias no cio

 

Caminho dos Escravos

morreu Ouro, Córrego da Prata

da Boca do Inferno, ainda sonha

o Rio Jequitinhonha

 

Bica das Monteiras

bate em pedra,

Santa Clara, lavadeira

 

suor é mina d’água

a quarar o tempo

em ordem e entendimento

 

não esqueçam nossa lida

d'água branca

pois diamante foi voz

de um canto já distante
249

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