João Felinto Neto

João Felinto Neto

n. 1966 BR BR

n. 1966-10-04, Mossoró

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Sepultamento

Os meus olhos pregados
no infinito
como os pregos nas tábuas
cravejados,
e de pontas viradas,
redobrados,
sustentados e fixos
numa curva.
No aconchego da madeira macia,
minhas costas
nos ossos da bacia
consolam meu corpo
tão curvado.
Pelo tempo que tenho acumulado,
a ferrugem do mundo
me comeu,
e a tampa que pregam
me prendeu
para sempre num rito consumado.
Por debaixo da terra
condenado
a ser parte da mesma
e não ser eu.

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Poemas

6

Sepultamento

Os meus olhos pregados
no infinito
como os pregos nas tábuas
cravejados,
e de pontas viradas,
redobrados,
sustentados e fixos
numa curva.
No aconchego da madeira macia,
minhas costas
nos ossos da bacia
consolam meu corpo
tão curvado.
Pelo tempo que tenho acumulado,
a ferrugem do mundo
me comeu,
e a tampa que pregam
me prendeu
para sempre num rito consumado.
Por debaixo da terra
condenado
a ser parte da mesma
e não ser eu.

584

Poetas

São tantos os poetas

Quanto estrelas,

Dispersos em bandeiras

Pelo mundo.

 

Eternos e profundos

Pelas letras,

Em digressões soberbas,

Em dimensões sem fundo.

 

São tantos os poetas

Que o planeta,

Em tinta de caneta,

É resumo.

 

Enorme rascunho

Em línguas estrangeiras.

A tradução perfeita

Das emoções do mundo.

 

610

MOSAICO

Em minha mão,

Mil pedaços.

Antigo quadro,

Uma mesa,

Alguém que come calado

Com discrição ou tristeza.

 

E lado a lado

Na mais extrema destreza,

Enfileirado

Sob a antiga nobreza,

Assenta-se o mosaico.

 

Sob os meus pés, o passado

Em um quadrado,

Pintado

Nesse retalho do tempo.

 

Breve momento

Guardado

No mais antigo mosaico

Preso à calçada,

Ao tempo.

 

642

SÓ EM TE AMAR

Só em teus lábios,

Eu encontro meus gemidos.

Só em meus gritos,

Eu consigo te encontrar.

Como enganar

A emoção de estar aflito.

Eu te preciso

Como a noite, do luar.

 

Só em teus passos,

Eu caminho decidido.

Surpreendido,

Tento não justificar.

Sem teus abraços,

Os meus beijos são sofridos

Como os feridos

Que não podem se curar.

 

Só em te amar

É que eu encontro o sentido

De tudo aquilo

Que consigo imaginar.

 

587

NUMERAL UM

Eu atribuo

Minhas palavras ao poeta.

Uma espera

Numa tarde em jejum.

Nós como dois,

Dividimos.

No que dera?

Apenas um.

 

Eu me situo

Nas medidas de uma régua.

A mais complexa

Ou talvez a mais comum.

Sou menos um,

Minha conta se completa

Com menos um.

 

Eu me anulo

Numa soma que me zera.

Um dois que nega

A existência de mais um.

Sou incomum,

Tabuada que ainda preza,

Numeral um.

621

CONTRACEPTIVO

Eu não sei se é o desespero

que me leva à loucura

quando o sexo estupra

a minha alma,

ou a calma

que advém do meu tormento

pelo tempo

que passou em minha palma.

Movimento anormal

de penetração moral

em sua saia,

e no cheiro da indecência,

feromônio da ciência

em uma jaula.

Uma fera excitante

que no último instante, ofegante,

cospe a vida

no seu couro de borracha.

Não há luta, nem corrida;

há uma triste despedida

de um suposto vencedor

que foi fruto de um amor

e se enforcou

com a própria cauda.

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