João Felinto Neto

João Felinto Neto

n. 1966 BR BR

n. 1966-10-04, Mossoró

Perfil
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Sepultamento

Os meus olhos pregados
no infinito
como os pregos nas tábuas
cravejados,
e de pontas viradas,
redobrados,
sustentados e fixos
numa curva.
No aconchego da madeira macia,
minhas costas
nos ossos da bacia
consolam meu corpo
tão curvado.
Pelo tempo que tenho acumulado,
a ferrugem do mundo
me comeu,
e a tampa que pregam
me prendeu
para sempre num rito consumado.
Por debaixo da terra
condenado
a ser parte da mesma
e não ser eu.

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Poemas

5

TORRE DE BABEL

O juiz do supremo,

Jeová,

se irrita e sai do sério,

quando seu filho Jesus

vai à noite, ao cemitério.

 

No boteco do Davi,

onde quem manda

é o Golias,

não há funda,

quem afunda

na cachaça, é o Isaías.

 

No salão do senhor Sansão,

quem faz o cabelo

é sua mulher Dalila.

 

As mulheres de Salomão,

o cafetão lá da vila,

choram e sentem solidão

quando estão de barriga.

 

Lúcifer anda arrasado,

o seu mundo virou trevas,

por ter visto abraçados,

Adão e a senhora Eva.

 

Noé, o velho barqueiro,

não gosta de animais.

No entanto, adora um peixe-frito

no barzinho lá do cais.

 

Essa torre de Babel

é o mundo em que vivemos,

onde não há inocência.

Se algum nome ou fato ofender,

é mera coincidência.

266

A GRAÇA

Deus me deu o fardo

para eu achar pesado

o termo ser livre.

 

Deus me deu o espelho

para ver se aceito

esse meu rosto triste.

 

Deus me deu o segredo

para pensar, eu mesmo,

o que é ser tolice.

 

Deus me deu a culpa

para eu pedir desculpa

por qualquer deslize.

 

Deus me deu a dor

para eu sentir pavor

do seu dedo em riste.

 

Deus não me deu nada,

eu que faço a graça

crendo que ele existe.

343

TODO AMOR

Todo amor é uma história

mal contada ou vivida;

é a mais pura verdade

ou uma grande mentira;

é um conto de fadas,

uma história engraçada

ou sofrida;

é partida esperada,

um punhado de nada

e muita lida;

é a mais doce calma

ou a mais bruta briga;

é o silêncio noturno,

caminhar no escuro;

é sorriso, é lágrima;

é andar pela estrada

sem saber da chegada;

é a procura incessante;

é viver cada instante;

é esperar pela noite,

é temer pelo dia;

é correr abraçado;

é olhar para o lado

e ver sua companhia;

questionar o seu hoje

e lembrar do seu ontem,

fazer planos futuros;

é andar sobre o muro

arriscando ser vítima;

é uma roupa estendida,

uma outra passada;

é comida queimada;

é a fé recolhida;

é sinônimo de um

vezes o outro;

é também desconforto;

é uma dor esquecida;

é lembrança de casa,

é tarde demorada;

é saudade que habita;

é olhar sobre os ombros,

o abraço mais longo;

é querer redobrado;

é menino levado,

um ou outro que grita;

é a calma de antes;

é o livro na estante;

é poltrona na sala

e TV colorida;

é barriga pra fora;

é correr contra a hora,

esquecer o bom-dia;

é um dia, quem sabe;

é talvez seja tarde;

é uma bela amizade

ou uma eterna intriga.

Todo amor é, enfim,

uma enorme vontade;

é começo, é fim,

é uma realidade.

312

PEDESTAL DE BARRO

Revogo silêncio

ante palavra e voz.

Reato os nós

que me prendem ao medo.

Reavivo memórias

em busca de segredos

que já não interessam mais.

Reclamo por paz

em meio a intensa guerra.

Replanto a erva

que não nasce mais.

Relato as dores

de males e fome.

Repito o meu nome,

antes de dormir.

Reato os laços

que me prendem aqui,

ao pedestal de barro.

268

PROSAICA VIDA


Chovia.

Minha mãe condenava Deus

(Que o diabo o conserve em casa).

Calça as sandálias,

o relâmpago é uma brasa

e o trovão é um adeus.

“Tem piedade de minha alma”,

estava escrito na capa

de um velho livro meu.

Crescia.

A tristeza me abraçava

como a morte se agarra

com alguém que já morreu.

O filho é ou não é meu?

Minha mãe, se escutava,

nunca o respondeu.

O meu pai bebia as mágoas

pela dor que lhe nasceu.

Como seu filho, eu também.

Nosso consolo era a bebida.

E todo o cotidiano

de minha prosaica vida

era um amém.

324

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