Lista de Poemas
Vício
Sinto-o
queimando as
minhas entranhas
como uma floresta
em chamas,
difícil de conter
as labaredas,
e ele escalar as
paredes do meu
quarto, se espalhando
e dominando tudo o
que é meu
e nunca estou sozinho
pois ele me espreita
nas esquinas enquanto vago
por aí,
e sei que não se
vence todas as batalhas
muito menos todas
as guerras,
cedo ou tarde eu acabo
cedendo, recorrendo
a ele, impotente
e frágil,
me entrego
e declaro desistência
pois eu sei,
sei que não se luta contra
o que você é,
eu satisfaço meu
vício e desapareço
na fumaça do meu cigarro;
leve, quase invisível,
eu não sou nada,
apenas o resto de um cigarro
vagabundo,
um vinho barato
um poema fracassado
que o poeta descartou
na lixeira às 2h da manhã.
Pertenço a você
A minha pena?
Prisão perpétua,
pois estou
para sempre preso
nesse amor,
para sempre
preso nesse
jeito de fazer amor.
É desconfortável a
situação, essa
impotência que
sinto,
vulnerável e
estático,
enquanto
você atravessa
o meu peito e
deixa exposta
a minha alma porque
de início nunca sei como
reagir aos disparos à queima
roupa que são os teus beijos.
É quase masoquismo
gostar das marcas
que sua boca deixa
em meu corpo,
das marcas que
suas unhas deixam
em minhas costas.
É quase escravidão
ser tão seu assim.
E esse seu olhar
que me diz o que
fazer,
eu sei exatamente
quando devo acelerar
ou diminuir.
É quase dependência
não ser capaz de
passar um dia sequer
sem sentir teu corpo
sobre mim,
sob mim
em frente a mim
ou qualquer outra posição
que venha a mente.
É quase insanidade
ser cativo desse sentimento,
desejar não ser liberto
me apaixonar pelas
grades da sua prisão,
doce prisão.
Essas paredes
que tremem
essa cama que já
cedeu tantas vezes
e que agora
já nem nos damos
o trabalho de ergue-la,
são testemunhas
da verdade irrefutável:
somos a catástrofe atômica;
somos a implosão do edifício;
somos o impacto do meteoro;
somos a destruição da avalanche.
É quase o fim do
mundo quando você
olha para mim.
É quase uma erupção
a sensação que você
causa quando
tua língua trilha
o caminho em minha
barriga.
Enquanto escrevo
sinto a abstinência escalar
a minha espinha como
um gato e já não posso
esperar para sentir
outra vez o gosto
da sua excitação.
E sempre que você
inicia um incêndio
em mim, eu tenho
vontade de me alastrar
até consumir e destruir
todos os móveis ao redor.
É quase obsessão
te pertencer assim.
As relações humanas
O que é o amor
senão a
autoflagelação?
É como o atrito da lixa
sobre a pele que,
passado um longo período,
abre uma dolorosa
ferida que se cura
lenta e
melancolicamente.
As relações humanas
são dolorosas;
é uma busca por
conforto,
abrigo,
paz e carinho
no outro que nunca
leva a lugar nenhum,
pois constantemente
nos deparamos apenas
com as ruínas do que
constumava
ser um
coração,
então são as nossas feridas
somadas às feridas
do outro,
nossas feridas
contra as feridas do outro,
dando início a uma
longa batalha
onde uma das partes
sai mais machucada
e arrasada do que entrara.
Já me cortei
me queimei,
tive meu peito
alvejado por falsos
amores e falsas
amizades,
ja machuquei quem
dizia me amar,
já feri e fui ferido
e não há uma forma
segura,
não há uma
faixa delimitando uma
distância
até onde em uma
possoa você pode chegar,
pois não há entrelinhas,
não há formulário
manuais nem
nada do tipo que explique
uma pessoa,
você escolhe
o quanto de você
vai permitir
ser queimado nessas
inevitáveis aproximações
que temos que fazer
no decorrer da vida e
resta apenas torcer para
ser forte o bastante
para ser resistente o bastante
a ponto de suportar
as feridas que
cedo ou tarde virão.
VIVI ATÉ ESTE MOMENTO OITO MIL SETECENTOS E QUARENTA E DOIS DIAS
volta em torno do sol
meu "retorno de saturno" está cada vez mais próximo;
o crepúsculo da alma avança
enquanto a existência tem sido uma odisseia monótona-
sempre essa busca de sabe-se lá o quê.
contemplo outra noite que chega, fica e se vai.
repito novamente os passos de ontem,
com a singela diferença de acreditar cada vez menos
em uma metafisica regente.
me vejo encurralado
como se cada escolha a partir de agora
fosse o ferro quente para a pele.
e como a figueira de Sylvia,
minhas opções começam
a murchar e apodrecer
enquanto me paraliso incapaz de escolher
aniquilado pela infinitude de cada caminho.
Todos esses dias vividos até aqui
e ainda assim sei tão pouco sobre
o que quero de mim.
VIDA NORMAL, SAUDÁVEL E FELIZ
doe seu tempo( cada segundo)
doe sua alma( toda a sua cor )
doe sua mente( cada pensamento)
pendure seus sonhos no gancho
tal como a carne abatida à machadadas.
sonhe com férias e fins de semana
e pense em suicídio às segundas.
marque consultas com o
cardiologista
ortopedista
psicanalista.
convença a si mesmo de que leva uma vida normal, saudável e feliz,
que uma hipoteca datada até daqui a 60 anos
e um cubículo que atende por seu;
que te aparta dos vizinhos odiosos de quem
você tira sarro por ter meio metro a mais
é o ápice da felicidade humana.
agradeça a Deus pela sexta-feira às
17h59
amaldiçoe a existência às 23h59 do domingo.
leve as crianças ao shopping
compre tudo o que puder e o que achar que pode
escarneça dos idiotas
que vivem de música, pintura e poesia.
quem eles pensam que são, vivendo os
sonhos deles?
mas tudo bem,
eles não têm a sorte de uma rotina
de 12 horas de servidão.
CIGARROS, DESEJOS E SUSPIROS
dura tão pouco — e são
tantas as angústias que carecem
de alento.
Um cigarro apenas é tão pouco —
e são tantos os amores que sonho
em (re)viver.
Um cigarro apenas é tão pouco — e
é tão profunda a dor que busco
curar.
Um cigarro apenas é tão pouco — e
tenho tanto a esquecer.
O pensamento segue pelo labirinto
de memórias & desejos
e lá se vão cinco, dez, um maço inteiro de cigarros
e sinto que esse vazio
se alastra no meu peito
cansado de tanto anseio infundado
nem todos os cigarros do
mundo seriam suficientes
para acalentar todo esse
caos alocado em
minha alma.
Moscas, teias e aranhas
Me sinto desesperado
como a mosca
presa na teia de
aranha que vi
essa manhã;
Pobre mosca,
sem chance alguma,
nenhuma escapatória
possível,
se debatendo
se enrolando cada vez
mais
enquanto a aranha
se aproximava lentamente
com movimentos frios,
calculados,
sem pressa alguma.
Uma predadora fatal,
sádica e implacável.
E esse é o sentimento
que a vida causa às vezes:
Somos como a mosca
que não sabe nem explicar
como diabos foi parar naquela
situação.
Em um piscar de olhos,
um passo em falso e você já era:
você está preso em uma teia
gigantesca,
seja ela um falso amor
um emprego que você odeia
mas não consegue sair,
o rumo que a sua vida levou
e você não entende como
isso foi acontecer ou
qualquer coisa do tipo.
A vida é a nossa teia e
também a arranha-
vira e mexe
caímos feito moscas
em uma de suas armadilhas.
Aquela mosca que vi essa manhã
não faz ideia do quão bem
eu entendi o seu desespero.
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