Lista de Poemas

Poema ao pai ausente

Caro pai,
os fogos de artifício
explodem no céu
iluminando a cidade
e a luz invade o quarto
onde sozinho eu assisto
um novo ano começar.

Outro natal
chega e rapidamente
se vai e sua ausência
ainda é uma ferida aberta
em minha vida,
mas saiba que não
o culpo por não ter
sido forte o suficiente
por não ter amado o
suficiente para ficar.

Caro pai
completarei dentro em breve
22 anos mas eu
não espero
mais o telefone
tocar
não espero mais
ouvir a batida na
porta, e também
deixei de mentir sobre
a falta que eu julgava
não sentir.

Creio que me tornei
uma boa pessoa
apesar de você
ter me dado todos
os motivos para seguir
o caminho inverso.

Pai, espero que
não tenha se afogado
nas garrafas de whisky,
e que também não
tenha perdido os pulmões
depois de tantos cigarros
acesos durante anos.

A essa altura você
deve estar sentindo
pena de si mesmo por
por não ter nenhum dos
seus filhos ao seu redor
enquanto você apaga as velas
do bolo.

Em minha vida,
você é a sombra que
desaparece na escuridão e
eu sou a sua imagem
e semelhança, pai:
um acumulador
de fracassos.

Caro pai,
adeus.

1 184

O observador

Eu vi os ditos profetas subirem
o morro a passos largos em puro
frenesi buscando por qualquer
merda que aliviasse a falta de
sentido em suas vidas.

Eu vi o rebanho devorar a si mesmo
enquanto os pastores salivavam
sobre um banquete de ambrosia.

Eu vi os fiéis se sentirem mais
próximos de Deus na medida em que
depositavam sua fé em contas bancária
de ditos portadores da palavra sagrada.

Eu vi o dedo sendo apontado
em todas as direções exceto
para si próprio.

Eu vi o santo condenar o
pecador apenas para enaltecer
seu ego refulgente que ofusca até
mesmo a mais pura e divina luz.

Tanto olhei que acabei enxergando tudo:
não há santo entre os mortais,
e os verborrágicos da palavra de Deus
são geralmente dignos de
desconfiança.

Eu vi Deus olhando para
tudo isto aqui e se arrependendo
do que fez.
280

Você

Você é aquela última
dose de whisky antes do
bar fechar,
aquele último trago
do último cigarro
na madrugada
silenciosa e gélida,
a última flecha
disparada por um arqueiro
faminto que invade o
peito do cervo lançando
seu coração
contra o tronco da
mais distante
árvore do bosque,
a última corrente vital
que passa pelo meu corpo
antes de ser permito
a minha eutanásia.

Você é a ferida que
mais me doeu,
o maior dos meus
enganos
o motivo da minha
insônia
a causa e consequência
dos meus erros,
a maçã envenenada.

Você é a minha
fome e a
minha sede,
que só se saciam
se tenho sobre mim
o teu corpo quente
que me queima como
a brasa sobre a pele.

Meu amor é como
a frágil chama de uma
vela que luta contra
os ventos do seu se afastar,
pois eu preciso de você
como meu refúgio,
meu álibi, minha amante
minha amiga, minha cocaína.

E como um navio
naufragado e esquecido
eu permaneço a esperar
submerso nas
profundas entranhas
do mar, que você
se torne para mim
apenas uma vaga
lembrança, mas
no momento você é
tudo o que eu quero
tudo que desejo, tudo
que eu amo.

306

Tolo coração

Permito que
este estúpido coração
continue se aventurando
nessas loucas paixões
relâmpago que nunca
duram.

Esse tolo não aprende.

Permito que ame
desenfreadamente e
exageradamente,
seja por longos anos
ou passageiros dias que
se dissolvem como o açúcar
na água.

Permito, embora
eu saiba da dor que
uma hora ou outra
põe abaixo a porta e
sem pedir permissão
se instala.

Como poderia ser
real se não fosse assim?
Como se uma bomba estivesse prestes
a explodir no peito,
como se estivesse
saltando de paraquedas
e ele não abrisse
ou quando se
escapa por pouco
do afogamento e
respira como se
não houvesse mais ar.

Permito que ele
se arrisque sem
pudor,
sem medo
sem jogos
sem se esconder,
eu o deixo exposto
como um alvo para
flechas e
todas as vezes que
o atingiram, ele
sangrou e ainda
sangrará,
mas nunca deixará
de pulsar e
nem um milhão
de tambores
serão capazes de
silencia-lo.

Somente assim é real

270

Rejeição

É esse peso sobre
o peito, insuportável
e doloroso
como a pressão no
fundo do mar.

É o que me mata
mentalmente e me
torna menos que as
cinzas em um cinzeiro
que transborda,
o que me faz
socar o espelho
por não suportar
minha cara de idiota.

Colide em mim
a vontade de gritar e
a vontade de permanecer
dentro do silêncio
inalterado da rejeição.

Eu estou cada vez
mais desesperado,
e a insanidade bate à
minha porta todos os dias,
permito que entre e
atravessamos juntos
madrugadas que parecem
não ter fim.

Sob o efeito da paranóia
eu trilho esse caminho
sem volta,
fumando sem parar,
tentanto não enlouquecer
completamente.

Ouço o triste blues
que soa pelo rádio
e então não estou
sozinho afinal:
somos milhares,
milhares de almas e
corações dilacerados
pela covardia de pessoas
que não sabem o que é
amar.

Vivo essa tragédia
que nunca
parece chagar
ao fim, mas eu,
cedo ou tarde chegarei...

se já não cheguei.

315

Arrependimento

Me sufoca,
esse arrependimento
que se espalha por minha
garganta;
eu trago a fumaça
e jogo vinho barato
para não senti-lo, mas
é inevitável.

Eu joguei contra
a parede todos os retratos
dela mas sua imagem
se tornou tatuagem em
minha mente.

Não há como apagar.

Os homens não
amam, elas dizem,
mal sabem que
todos nós levamos
em nossos ferrados e
mutilados corações,
uma ferida aberta que
nunca cicatriza,
e toda vez que uma
nova paixão explode
em nós, tememos
que o final seja o mesmo.

Outra vez
outra vez e
uma vez mais.

É arrependimento
essa voz que berra
em minha cabeça
quando em vão
tento fechar os olhos para
dormir.

É arrependimento
o que me observa enquanto
subo os degraus às escuras em
direção ao meu quarto
incompleto,
quarto que já foi feliz
um dia.

Outro quarto agora
há de irradiar felicidade
em outra casa, quem
sabe, outra cidade.

O que eu deixei ir
agora faz feliz alguém
que diferente de mim,
realmente mereça.

Eu me esforço
para manter meu
sorriso mais cínico:

"Eu estou bem."

Eu detive a faca e
o queijo , mas ainda
senti a fome,
eu quis mais,
e agora,
está tudo perdido.

As plantas estão morrendo
em meu jardim, pois
eu matei quem davam-lhes a
vida...
e a mim também.

297

Depressão

Eu penso em
onde estarei
amanhã;
daqui a uma semana
um mês
um ano.

O tempo que
mutável sendo,
nos muda
dia após dia e
deixamos de ser
pouco a pouco o que
éramos-
nunca mais seremos
os mesmos.

Olho para
o rosto refletido
no espelho e o
reflexo é outro,
desconhecido e estranho.

Distante
distante.

E eu que já fui
tão esperançoso
e cheio de energia,
hoje me vejo preso
na inércia do meu
quarto sexta-feira
à noite,

e a única
coisa que se move
é a fumaça do cigarro
queimando esquecido
no cinzeiro.

E lá fora há uma
multidão que urge
como leões e todos
estão desesperados
para viver a vida ao
máximo.

Eu me pergunto
o que houve comigo
nesses últimos anos,
para onde foi a minha
sede por vida?

Mas de alguma
forma eu sinto ter
vencido toda essa
agonizante,
louca e inútil
depressão.

Eu não a sinto
mais,
ela é agora
apenas algo que vejo
passando de relance
pelo canto dos olhos,
como um vulto sem forma.

Algo que só existe
se eu parar
para olhar.


304

Apesar de todas as similaridades

Te encontro
nos bares
nos cafés
nas bibliotecas
na fila do cinema
sentada ao meu lado
no ônibus, e sempre é
o mesmo rosto
o mesmo corpo
a mesma forma
de segurar o cigarro
enquanto traga
a mesma forma de
expelir a fumaça,
mas olhando novamente,
é sempre outra pessoa
outra voz
outros olhos
outro cheiro.

Deitada ao
meu lado no
escuro tendo
somente as
paredes como
testemunhas
poderia jurar que
era você,
por um momento
foi você,
a mesma
forma de caminhar
em direção ao
banheiro tropeçando
nas nossas
roupas no chão,
e até mesmo
o hábito de fazer
do meu coração um
cinzeiro para o que
resta dos seus cigarros.

A forma de
partir
de mentir
de se cansar de mim
de me odiar
de me esquecer,
todas foram você
e você não foi ninguém
quando olho
para trás novamente.

O que é você
para mim?
um motivo
para sorrir ou
uma ferida
que nunca se fecha?
O que somos
um para o outro
agora?
desconhecidos?
velhos amigos?

Somos estranhos rostos
disformes no espelho
que reflete o passado.

Sempre parece
ser o teu rosto que
vejo entre a multidão,
mas é sempre
outra pessoa,
e isso tem sido
um alívio.

293

Historieta

Há nesta cidade camas
onde jamais tornarei
a me deitar.

Há nesta cidade
moças de lábios avermelhados
que jamais tornarei a beijar.

Há nesta cidade
faces encharcadas
que minhas mãos nunca mais
irão enxugar.

Vozes que irão
sussurrar segredos
aos ouvidos de um
outro alguém.

Peles que irão
se arrepiar ao
toque de outras
mãos.

Minha imagem
se torna um borrão
insignificante
na mente dessas moças
que hoje sorriem,
e é um riso verdadeiro,
puro,
e feliz-
sem o peso em
seus calcanhares.

Há nesta cidade
alguém que caminha fitando
o chão,
de semblante triste,
pensando em moças
que um dia foram
tudo em sua vida-

e que hoje são a razão
deste poema,
de todos que vieram.

Que virão.

286

O filme que só as paredes assistiram

Você mastiga a pele dos meus lábios
e cuspe fora com descaso-
enquanto sua língua desce
por minha garganta
eu só penso em como os dias
passaram rápido desde a última vez que
você me disse" estou indo embora"
porém, aqui estamos novamente
em meu quarto, nos comendo vivos
na escuridão ao som de David Bowie-
eu entro nesse seu jogo de fingir que não
me importo mas acabo perdendo, como sempre, pois
você joga como ninguém e é isso
que tudo significa para você, afinal:
um jogo,onde só você pode ganhar, onde
você e mais ninguém dita as regras-
eu sigo as doces e iluminadas
curvas do seu corpo e minha boca
toca a sua vagina com a voracidade
de quem encontra água após dias perdido no deserto,
e você suspira alto, escandalosa, como
uma bomba explodindo-
não é estranho que com tantas idas e vindas
a gente sempre acabe assim, em uma foda?
-eu cometo o velho erro e tento
falar sobre nós, mas a sua regra
é essa: não falar sobre amor
e isso, para o meu coração de poeta,
é como um tiro no céu da boca,
mas eu insisto e continuo
jogando apesar dos ferimentos
que esse jogo me causa, e então você
grita"vou gozar!" e caímos
para o lado, exaustos-
eu fico ali,te vendo ascender
um cigarro,expelindo a fumaça
e tudo o que eu queria saber
é o que se passa em sua cabeça,
enquanto na minha,
o filme é o mesmo,
mas a regra é não falar.

306

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Jhonatan Ferreira da Silva, 22 anos natural de Belo Horizonte-MG Poeta amador, vocalista e guitarrista de uma banda de rock alternativo nas horas vagas. Estudo Marketing e pretendo me formar ainda esse ano(2015) se possível( risos) Meus escritores preferidos são: Charles Bukowski; Jack Kerouc, Chuck Palahniuk, Sidney Sheldon, Vinicius de Moraes, Douglas Adams, Oscar Wilde, entre outros. Obs: Sou péssimo em escrever auto biografias.