Jorge Caré

Jorge Caré

n. 0000-00-00, Funchal

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Poeta?! Não!

Poeta não sou!

não me lembro de ter pedido
nem a padre nem a anjo transladado
um olhar perdido
vasto e incompreendido,
de magoa quarto de abrigo.

Nao me lembro de ter cruzado
nem com deus nem com o diabo
nem a algum ter ofendido.
A dores não fui crucificado
nem em fogo algum fui punido.

Nunca quis ser artista
tampouco de letras malabarista.
que alma foi esta
quem meu corpo domou,
que sopro me animou,
e em que campos me encontrou,
em que negra lista?


nunca caminhei nas estradas da lua
nunca fui de vagar pela noite nua
nunca bebi os astros de taças douradas
não tive nunca musas amadas
não segui ventos nem suas pegadas,
não quis ir pelo mundo
não me perdi nas encruzilhadas.


Vivi sim, numa névoa prenhe de loucura
na casa do medo, com vil fechadura
queimei tudo o que tinha
para ter luz na podre noite escura
e só vi o lá fora através duma ranhura.


e preso em mim, esse grande turbilhão,
sigo por brumas, não a passo, a tropeção,
monte de cacos colados
asneira de trapalhão
por entre versos suados
de baldios ermos arrancados
bomba sem explosão.
autor de escritos cansados
pulos sem impulsão
textos mortos e enterrados
feitos com dedos amassados,
por mão de poeta, é que não!








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Poemas

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Poeta?! Não!

Poeta não sou!

não me lembro de ter pedido
nem a padre nem a anjo transladado
um olhar perdido
vasto e incompreendido,
de magoa quarto de abrigo.

Nao me lembro de ter cruzado
nem com deus nem com o diabo
nem a algum ter ofendido.
A dores não fui crucificado
nem em fogo algum fui punido.

Nunca quis ser artista
tampouco de letras malabarista.
que alma foi esta
quem meu corpo domou,
que sopro me animou,
e em que campos me encontrou,
em que negra lista?


nunca caminhei nas estradas da lua
nunca fui de vagar pela noite nua
nunca bebi os astros de taças douradas
não tive nunca musas amadas
não segui ventos nem suas pegadas,
não quis ir pelo mundo
não me perdi nas encruzilhadas.


Vivi sim, numa névoa prenhe de loucura
na casa do medo, com vil fechadura
queimei tudo o que tinha
para ter luz na podre noite escura
e só vi o lá fora através duma ranhura.


e preso em mim, esse grande turbilhão,
sigo por brumas, não a passo, a tropeção,
monte de cacos colados
asneira de trapalhão
por entre versos suados
de baldios ermos arrancados
bomba sem explosão.
autor de escritos cansados
pulos sem impulsão
textos mortos e enterrados
feitos com dedos amassados,
por mão de poeta, é que não!








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O Dragão

Há em mim um Dragão adormecido
Uma besta que descansa
Neste quarto enegrecido
Uma vaga que só avança
Para a rocha em tempo devido

E quando a mim a noite alcança
E o manto do silêncio aconchega
O coração bate a compasso, profundo.
Do fundo há um rumor que chega
Algo agita-se nesta natureza.

De súbito ouve-se a trovoada
Mil lobos uivam na madrugada
Ergue-se o mar com a nortada
E a terra sangra, angustiada
Mas o Dragão,
Com alma conquistada,
Não se mexe, não se assusta
Não diz nada.
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