Lista de Poemas

Ida e volta




"Ida e volta"





O mar que não tem a lua,
É real não tanto quant'eu,
Nela me vejo aquando se preenche
Em lua-grande e aí perco a dimensão

Do real da lua, que praias
Nem tem, nem areal serei eu,
Sou alguém que se esconde,
A pluma e o medo do escuro

Que presumo teve algum
Cosmonauta num fato preso,
Tanto me pesa ser súbdito
De um mundo em, que à 1ª vista,

Nada tem "que-se-diga" ser meu,
Ou só minha, quanto a maré
Da lua é, em toda a volta eu e
Só eu, um mar sem luta, ateu

O mar que não tem a lua, nem
Porto-seguro pra nau d'fumo
Em que viajo, sem ter partido
Do areal onde fundeei meu reino

Em lua-meia, defunto me acho
Mas não me sinto morto ao
Olhar na lua a porta, apenas duvido
Que me conheço se real sou,

"Ida e volta" ..."volta e ida"









Joel Matos (04/2018)
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365

Como rei deposto numa nação de rosas ...








Como rei deposto numa nação de rosas,
Tenho palavras sem futuro, sem álibi
Nem provas, a recordação é um mito
Tal como o universo é infinito, as rosas, flores.

Coroai-vos de espinhos e tereis ares de rei,
Coroai-me das mesmas e renunciarei nesse dia
Ao trono temendo que elas aí murchem,
Tal como a maioria dos homens que sonham

E não podem ter, sensibilidade é aquilo que
Não se pode possuir, digamos que é
Preciso sentir pra ser leal à ideia do príncipe,
Ser vencido é abdicar dessa realidade de

Dimensão divina como rei deposto numa
Nação de rosas, vê-las é o sentimento desfraldado,
desfeito o pau da bandeira, do Império,
Como um rei deposto numa nação sem rosas,

Um testemunho antigo acrescenta à razão
Não só o que me faz, mas o que traz meu
Coração súbdito do rei, do reino longínquo
Que é onde a utopia é estrela e a coroa é de farsa ...






Jorge Santos (05/2018)
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419

Pena ser levado a sério e ainda...



Tenho a figura imaginada de me pai,
Da minha mãe a atitude espiritual,
A realidade é minha mas não o direito
A ela, pois isso é a coisa mais absurda

Que existe, sob pena de ser tomado
A sério quando falo de mim próprio ou
Sobre mãe pai ou sogros excepto esposa,
-Digo que tenho a figura imaginada

Do pai-do-céu, não do meu nem a minha,
Qualquer coisa que nem somos nem
sonhamos, amamos nos outros nós-
-Próprios por isso plagiamos pra justificar

Quem somos, eu tenho pena de ser
Levado muito a sério, não o mereço,
Pretendo que seja tomado como pouco
Sério, tal qual é a ideia que fazem

De um louco com-um-certo-juízo,
Jamais com o juízo-certo pois até a verdade
É falsa, sou feliz sem entender nada
E a memória se agrafa no corpo dos mortos

Pra que a alma não erre por corpos que não
Conhece a forma certa e a idade,
Sob pena de ser levada a sério também,
Aquilo que não tenho, eu pareço,

Desprezo os outros como um calceteiro
Pisa a pedra no passeio, por instinto
Não por vontade, como quem erra a sorte
Errei eu a vida, pena ser levado a sério ainda,

E ainda ...







Joel Matos (05/2018)
http://joel-matos.blogspot.com
349

(Demente em contra-mão)






(Demente em contra-mão)



Pra mim o inferno
é onde toda'luz é rara,
Dispersa a névoa,
Suspensa no dia,
Em que tud'é pó
E no que me fizer então,

Pra mim o paraíso
é aí e só falta beber
A ira d'est'alma torda,
Que me conjura e dói,
Como o instinto aceso,
Dum louco no verão,

Pra mim o inferno
é onde me sento,
Timoneiro de cento
E um torpedeiros e penso
Se amanhã serei eu pó
Em contra-luz, eu não,

Apenas céu e vento lento,
Minh'alma sem ralho,
Bocejo de "gajo" manso,
Disperso, infeliz "à sorte"
De fruta podre e tão só...
(Demente em contra-mão)







Jorge Santos (05/2018)
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376

Põe flores no meu quarto ou não, nenhuma ...



Põe flores no meu quarto,

Nem só as casas geram ruas,
Ao passar destruí-as uma a uma,
Duas a duas, nenhuma resta
Durmo a céu-aberto, m'embala

A alma, não preciso de tecto,
(Põe flores no quarto ou não,
Não ponhas nada por enquanto)
Vivo sem querer, sonho sem sentir,

Caminho, não para passear em ruas,
(Falsa idéia essa de serem casas)
Onde ando concerteza não é certo,
Nem só as casas geram luz,

O coração humano é um universo,
Não o ver é estar dentro ou perto,
Procuramos e não vemos nossas casas,
Contemplamos a distância com timidez

De vaga-lume, usamos guarda-chuva
Aberto quando a alma não precisa
D'tecto, nem o arame do trapézio
É fixo, a giz se desenha e altera,

Há que não fechar duas a duas,
As janelas das ruas, uma a uma,
Quarto a quarto, certo no Homem
É o génio, esferas serão casas,

Nós os anjos...

Jorge Santos (05/2018)
http://namastibetpoems.blogspot.com
386

Minha alma é um lego





Minha alma é um lego


Minha alma é um lego aos bocados,
Pena eu não os saber montar certo
Nem direito, sobram sempre peças
E o mais difícil é montar as palmas

Nas mãos e na ponta dos dedos, as
Unhas e o encantamento na floresta
De cabelos, não recordo cada um dos
Pelos ou a ordem por que são postos

Os cotovelos, apostos ao torço,
Não sei desmontar palavras,
Sinto-lhes a angustia de sentirem
Presas a mim, tanto que não posso

Definir o que sentem ser amor ou
Ódio por serem presas e não guelras,
Que nos pregaram na boca.
Minha alma é um leque aberto q-b.,

Minha alma é um lego e os pedaços
Pensam não os saber montar, nem certo
Nem direito, falta sempre o pulso no braço
E o mais difícil é montar as palmas

Em pleno voo, abertas quando.bato.asas,
Fechadas porque as celas tem grades,
Querendo eu escrever meu nome no
Espaço Em Letra Grande Gigante, Maior

Que o Maior Monte, Lago ...





Jorge Santos (05/2018)
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334

Coroai-me de espinhos frios ...







Coroai-me de tudo
Quanto dói, rosas de espinhos
Pra me crer um crivo
Que vive cirandando

Nesse corpo pra morrer,
Pois ele me devolve
Tanto quanto sente,
Coroai-me de tudo que é feio

E do que é estranho, do sabor da pimenta.
Vivo no rosto dum estrangeiro
Vindo d'França, que ninguém entende,
Coroai-me de flores murchas,

E estas se julgarão gente dest'mundo
E donas do meu coração,
Já que por fora não pareço quem sou,
Coroai-me de espinhos tortos,

Vodu ou solidão ,
Consciência de broca,
Aquela de que me tornei
Amigo, ela me envolve

Do tecido com que é feita,
Antigo quanto a passagem
D'onde tudo volve e avança,
Excepto minha alma cansada

Duma vida de peneira andante ...










Jorge Santos (04/2018)
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451

Com'um grifo ...



Com'um grito ...

Como eu, o grito
Cresce à vista a ira,
O vasto e o calado,
A solidão do prado,

Com o meu grito,
Nem porto ou cais
Poderá ser d'vendavais
Abrigo,

Como eu grito,
Nem os pássaros
E o cio dos lobos,
Parideira com dor,

Como eu nem os
Animais ou a fúria
De seis/sete Búfalos,
Como eu, o grito

É ter cinco pedras
Na mão e determinação
Fora-do-normal
De gorila grisalho,

Do Adamastor
O urro, a dor de Joana D'arc
No lume, um murro
Como grito rouco

Na comuna de Paris,
Das barricadas, "Liberté Égalité
Fraternité"
Que estilhaçou a história,

Como o meu grito,
Precede o silêncio,
Assim o galope,
Inação não é luta,

É esquecimento,
Sejamos cavalos de tiro,
Gorilas, Ursos, Bois ou Brutus,
Cães com pulgas,

Mas não deixemos
De gritar "Porra"
E libertar do peito o urro
Da Vitória convicto e bruto,

Com'um grifo ...

Joel Matos (05/2018)
http://joel-matos.blogspot.com
444

Matéria é escuro e o ouro...




A matéria é escura ...



Leve, leves as sombras almas,
A ciência aos espíritos não importa,
Em analogia a luz é a ribalta,
Aos olhos do oculto, do mistério,

As minhas visões são mero limo,
Ideia abstracta e nua o que penso
E vejo como velas, se não houver
Luz e vida agora, minha alma será

Apagada de vez, mais valia estar
De olhos fechados, vendo a sombra
De meu mestre, que assistir do
Alto da torre do sino ao fim do dia

Breve, breve a sombra das almas,
Vieram para louvar a ânsia de viver,
A ciência aos espíritos não importa,
A arte é o outro lado, a dança eterna,

A vida escura que nem o meu
Respirar interrompe e onde os
Sentidos meus se movem como fumo,
Em analogia a luz é a ribalta

E o ouro... matéria é escuro.











Jorge Santos (04/2018)
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408

Eu não digo...




O silêncio é para os outros,

Não me calo, prefiro apregoar
Alto o preço a pretender qu'valho
O que não digo entre "comas",

Parêntesis, repito o que disse
À partida como que a recuperar
Forças ou pra produzir algum
Efeito(até aí sou só aparências)

O silêncio é para os gordos,
Eu cerro os dentes mas apenas
Por fachada pois falo de mim
Sem parar e em letra grada,

Alivia-me o ranger das portas
Rolas sussurrando sob um'asa,
Alibi perfeito prá nota falhada,
Sinistro é quem se exprime,

Deduzindo ser a arte um ritual
De sentimento beato, profundo,
Exclusivo pra extrema unção
Dos mortos ou pra uma orgia

De defuntos em semana gorda,
O silêncio é para os mortos,
O falar pra mim é uma grávida
parindo, pelo menos eu sinto

Que palavra tem ser, vida, peso.
O silêncio é para os outros,
Eu não digo, arrepia-me o ranger
Dos dentes nos outros...



Joel Matos (04/2018)
http://joel-matos.blogspot.com
365

Comentários (4)

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nilza_azzi

É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.

namastibet

obrigado a todos que me leram

ricardoc

Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.

131992

muito intenso seus poemas, adorei.