Lista de Poemas
Cedo serei, sou …

Por vezes não sei
Por onde ando, se no campo da batalha
Onde quem não m'lembra sou
Ou aonde crês tu ser agente secreto
Do que passa e passou - sem se mover,
Crês tu poeta ser, convence-te
Que a lembrança é passar e ver,
Convém ser o que passou pra ser,
Pra que fique do que penso o que sou
E pra que me lembres poeta, ou
Vento sendo, sou poeta, improfícuo
Eu sou, és tu meu solo infértil ou não,
Comecei cedo sendo faúlha,
Agora sou vento, bravio como convém,
Cedo serei mais além que desta vida,
Às vezes sou nem lembro o quê ou quem,
Entender-me cansa, sonhar menos,
As vezes as faúlhas queimam,
o estandarte e sujo-o de terra e hulha
Mas o vento ao passar como
Um rio, lava-me a consciência
E volto a ser criança brincando
Aos soldadinhos de chumbo,
Até rebentar outra terrível
Guerra do fogo mal apagado,
As vezes as faúlhas queimam
o estandarte e sujo-o de cinza
Eterna nos azuis montes
Por onde ando e faz frio e aí
Passo a ser eu, de novo Ivan,
Por vezes nem sei ao que vou
Preso, se à graça eterna ou apenas
Ao peso de um pedaço de carvão
E terra infértil, o artificio de um mendigo
É o instinto, em mim tão pacato
Que nem o sinto mover ou se por mim
Passou cem vezes sem duvidar que me divido,
Entre quem sou e quem nem serei ...
Joel Matos (03/2018)
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499
(Do que me vai na alma)
(Do que me vai na alma)
O que me vale no fundo
É nem alma ter, falo novo
Numa linguagem sem futuro,
Tão pobre quanto as flores
Que crescerão na tumba,
Depois de morto qualquer dia,
Todos têm pose, eu quero posar
Um dia onde mora a luz,
Como um rito que em mim sinto,
O que me vale no fundo,
É ter consciência de Zodíaco,
E seguir nos rios como que signos
Onde mora a luz, é nem alma ter,
Ser quando eu quiser
A ultima jornada e à roda nada
Nas voltas que o mundo dá,
Numa viagem sem futuro,
(Do que me vai na alma )
Joel Matos (09/2017)
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801
Não saberia que dizer …

Não saberia que dizer se me encontrasse
Com o silêncio "cara-a-cara", frente-a-frente
E a sós com ele, talvez olhasse pra trás
E pedisse que não me abandonasse a última
Frase, a última palavra com sentido que disse
Sem a sentir pronunciar, sem a pesar nos lábios,
Sem a ver distanciar e sentir que vai linda,
Inda mais linda a quem a vê chegar parece,
Do que quem a viu partir pra um lado incerto,
Não saberia que dizer se me encontrasse
Com o silêncio pois ele guarda segredos meus,
Despe-os como eu não sei, nem meu coração
Traidor, assim o silêncio me devora as mãos
Não o peito, cheio de iras e ais, infiel o sinto
Labirinto de enganos, inda mais que o silêncio
Plano, oco por fora e branco por dedentro dele,
Finjo que minha alma é ele sem ser sem a ter,
Que dentro de mim ouve sem falar, que se esconde,
Sem me dar o que preciso pra sentir e dizer e
Falar, deixando-me por contar o que penso a fio
E com gestos inúteis que transformo em sombras,
Ainda que o silêncio me devore as mãos, trago
Flores que não posso explicar ao silêncio vago,
Anódio, infinito, árduo ...
Joel Matos (09/2017)
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727
O meu reino é ser lembrado …

O meu reino é ser lembrado,
O meu reino é mais que profundo
E cobre-se de tantos grãos d'prata
De quanto é feito o mundo
Em pingos de chuva, pântanos ...
O meu reino é puro quanto o espírito
De todos os seres humanos
Tão quanto eu, areais e grão-
-Mestres escondidos em pantanais
Profanos, meu reino é d'ouro
E palha quanto de breu e sem brilho
O meu reino, o meu divino reino
Vai do pensamento à criação,
Pois o existir não é o pensar ser,
Mas o ser lembrado, "O Incriado"
Cobre-me de tantas lembranças
De quantas o mundo meu é gerado
Sem um Deus dourado e de falso
Estuque ou barro mole, podre e pobre,
Bastardo sem nome,
O meu reino é ser lembrado ...
Joel Matos (11/2017)
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741
Nêsperas do meu encanto…

Nespereiras, o meu encanto...
Entendo mal todo o pomar,
Nespereiras do meu encanto,
Folhas pregadas a um tronco,
Firmes, sossegadas, nenhuma
Se destaca, o meu pensar não
Também, fez-me "Soba" o circular
Sono e as folhas tapam o solo
Nu, postiça a sensação de paz,
Remota a glória que me coroa não
E às vespas douradas pretas,
Entendo mal o sacro pomar só,
Faz-me falta o ar liso, a vigília
Morro sem razão concreta, aparente
Ou epidémica, pregado ao tronco,
Decorativo, sossegado, perpétuo
Nespereiras do meu encanto
Que despidas nunca pude admirar
Escuta-as débil o ouvido meu
E é só...
Entendo mal o pomar todo
De perto poderiam representar
Um sentido oculto antigo que
Eu quero sentir, mas não,
Nespereiras do meu encanto,
Folhas pregadas ao tronco
Impedidas de abalar do mundo
Assim eu, humano rude, manco, feio,
Nespereiras do meu encanto,
Nêsperas, o meu canto...
Joel Matos (09/2017)
http://joel-matos.blogspot.com
744
(Busco a eternidade-num-saco-vazio)

Só basta a eternidade a mim,
Só me basta a eternidade,
Não quero ficar "pra-história",
Apenas por falar "falas-de-bruxo",
Nunca ninguém houve "em-tempos",
Nem teve por nome "chamar-se-eu-mesmo" isto,
Como eu me-chamo de-místico,
Só me basta a eternidade,
Pois que nada me é precioso demais,
Sonhar não é preciso, se o que faço é desperto,
Dormir é o paraíso, porque não dormir
Eu pra sempre,
E aquilo que sonhasse,
Fosse eterno,
Só basta a eternidade a mim,
Continuado já eu me suponho e prolongo
Nisso que digo sem esforço,
É como soltar o ar dos pulmões...
Como sentir o peso do cabelo,
Não o sinto, nem os sonhos pesam,
Penteiam-me os cabelos,
Assim a eternidade é uma condição
Que não me pesa, pois não a tenho,
Não a sinto sob a fronha,
No entanto brinca comigo
E com o meu desejo,
Só basta a eternidade,
A mim que a todo o momento morrerei
De enganos, disfarçado em dia
Que dá luz a tudo e até aos ombros
E aos passos que dei,
Acima de tudo sabendo
Que um dia morrerei, como tudo
Que se parte e se foi,
É isso que os poetas tendem
A ser, parecidos ou iguais ao que flui,
O que me resta é guardar o tempo
Bem dentro, assim como uma flor seca
Se guarda num livro que não se lê,
Soltar o ar e seguir o vento,
Pra parte alguma,
Quanto basta pra ser eterno ...
(Busco a eternidade-num-saco-vazio)
Jorge Santos(01/2018)
http://namastibetpoems.blogspot.com
702
Sublime, suprema arte …

Sublime, suprema arte ...
A vida é uma curta aberta
Entre tempestades, é a bonança,
No entanto cabem nela,
Todos os comuns sonhos,
E outros menos normais
De ermitas e simples gente,
Pra quem a vida é arte
Sublime, suprema, não tão
Pequena quanto a nossa,
Se é que ela existe como
Conta-corrente eu nado-morto,
Miragem no deserto,
A vida é uma curta aberta,
E eu acabo por ignorar,
As estrelas que do céu
Me vêm pouco e sem tempo
Entre as tempestade, a bonança
Entre morte e renascimento,
Quem me dera ser monge
Ou camponês, pra ter estrelas
A apontar do céu pra mim,
Mesmo na noite mais escura
Que o breu e fazer da morte,
Instante menor que vida ultra,
Sublime, suprema arte,
A vida é uma vala-comum aberta,
Por onde passam destinos
Soberbos e sobejos humanos,
Despojos desiguais, uns mais
Intensos mais nobres que de Roma,
Os centuriões guerreiros das guerras
Púnicas, outros que a gente perde
Pra morte...
Joel Matos (01/2018)
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773
As estradas fora d’alcance …

As estradas fora d'alcance ao Homem,
Eu sou o oposto de tudo que é nítido, sonho déjà-vu,
Que não procura factos verídicos no seu conteúdo,
Desejo e Sonho a sequela do sonho que detesto,
Sou aquele que procura semear em terra alheia
A discórdia por deuses que não tiveram seguidores,
Sou o engaço de mim mesmo, margem de rio-
-Meio. Sinto-me um contabilista ilógico
E contar ouro, não sendo importante,
A bem da verdade não conto, faltam-me números,
E os axiomas que afirmo, meus não são
Mas d'outros, assim como a opinião, pouca
Tenho, creio no que conheço por simpatia,
Mas principalmente se tiver "patine" preta,
E um pouco mais que eu, em altura ao peito,
Flutuo sobre cidades e serras ao jeito de um mago.
Acima delas me inspiro ainda que poucos percebam
O sentido que é imperceptível a olho nu, o buraco
Da agulha e o palheiro, não existiriam fábulas
Sem mim, nem lugar pra Aleister Crowley no cais
Dos Infernos. O paradoxo é um sufismo com 4 vias,
Todas elas escolhas adequadas, explicam a criação
Do bem e do mal, do real e do sonhado, do mistério
Ancestral dos anjos terem asas nas costas e voarem
E os homens pés, meias e botas que prendem ao chão
Cientes das estrelas se acharem eternamente no céu,
Fora d'alcance ao Homem, não às gaivotas do mar
Pra quem as estrelas são estrada e o temporal casa...
Joel Matos (02/2018)
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696
Finjo compreender os outros …

Finjo compreender os outros
Sobretudo os mortos, minha memória
Tanto faz lembrarem quando me for,
Se nada fiz de bom a ninguém,
Nem a mim tampouco, indiferente
Ao circo, a indiferença é um cinzel
Que me iguala aos outros nos cantos,
Reduz arestas, sobretudo aos mortos
Das campas rasas como estas daqui,
chuva é detergente, erva não cresce,
Finjo entender dos outros sobretudo
A poesia, não faço parte do publico
Fraudulento estragado, não me apraz
Ser enterrado no vão de um buraco
Feito no chão, igual aos outros mortos,
Aos quais o inútil não destrói, a mim
Me dói tanto que me transforma em
Lívido, eu que era do tom das alvoradas,
De total silencio, de quando tudo é mudo,
Finjo compreender os outros qb,
Sobretudo os mortos da praça Camões,
Do numero dez em diante, incenso branco
Sentimento de culto, Pascoaes,
Finjo compreender nos outros,
O comum comigo no exterior,
Olhos e ouvidos, o resto são males de sono,
Tão brancos, breves quanto alucinações
De louco, fujo de compreender isso
Quase tudo, sobretudo nos poetas mortos
Despidos da matéria, sonho o absoluto
Em quadrantes de sombra e lua,
Imortal a poeira antes de ser ouro puro,
Tudo o resto males e marés de esforço,
Olhos e ouvidos comuns a um umbigo
Dos outros comigo...
Finjo compreender outros, esses.
Joel Matos (09/2017)
http://joel-matos.blogspot.com
818
Meu cabelo é água e pêlo, sonho é sentir vê-lo…

Meu cabelo é água e pêlo,
Acho-me estranho da ponta do pé à raiz
Do cabelo, dilui-me como água a ignorância
De não percebê-lo a pensar, será que
Estou doente ou dói realmente cada pêlo,
Desperta-me antes que desperte o dia
E antes que comece a ser ou não eu,
Meu cabelo é de água e sonho feito pêlo,
Assim sendo o que penso é infiel à boca,
Fala numa língua estranha que só eu entendo,
A não ser que caia chuva e neve de gelo
No meu rosto demente de actor sem público,
Mostro que sei qualquer coisa útil apoiado
Nos ombros de cegos com real visão de tudo,
Excepto do próprio eu, entre nós um muro
Que apenas cai quando durmo ao relento,
Caindo sou outra pessoa, noutro universo além,
Meu cabelo é água e pêlo, sentirá ele meu pensar
Ou quantas vezes sonhei entre florestas d'almas,
O enigma é minha alma seguir numa direcção
Que ninguém conhece, como uma confissão celeste
Definida plas linhas da mão que são Leste/Oeste,
Apenas "esses e zês" ao acaso a palma da mão toda
E da ponta dos dedos, às raízes do pouco cabelo,
Acho isso tão estranho como vê-lo a brilhar,
No espelho e os destinos por abrir, sonho é o sentir
Numa língua que só eu entendo porque não existo
Nem tenho forma, quando estou de mim fora,
Sou uma soma de tudo quanto posso nem ser,
Meu cabelo é água e pêlo ...
Joel Matos (01/2018)
http://joel-matos.blogspot.com
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Comentários (4)
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É bom ler o que escreves; tens ritmo, domínio da línguagem poética e abordas temas intensos.
obrigado a todos que me leram
Igualmente! Estou me familiarizando com a plataforma. Abraços, RicardoC.
muito intenso seus poemas, adorei.