Oferta
Eu vos oferto os meus olhos, ó príncipes, ó mendigos. Que quereis mais?
Viagem à nascente do rio S. Francisco
Dois filetes d'água e as pedras. A água desliza na canastra de Minas, canastra de pedra. Um tamanduá abre os braços no caminho, um gavião carcará vigia o horizonte, um galito move o leme minúsculo, um lobo guará sobe num monte de pedras. Tudo são pedras. As pedras e a água subliminar. A casca da anta entre as pedras, a água entre as pedras e um pulmão explode no ar. A água de pedra líquida voa no ar e corre entre as serras de pedra. E vai o Chiquinho e doa e abençoa. (Mas hoje o Chiquinho morreu de sede.)
O púcaro pícaro
é então que eu me acabo. Eu te quero toda inteira: da ponta do cabelo à ponta do rabo. A vida é breve para o meu desejo. Ah, aproveita o ensejo: me dá a flor essencial da floresta negra. és uma flor. Por que não floresces para mim? Um dia o abismo vai chegar e nesse dia serás (seremos) sombra absurda. O que me darás já não quererei mais.
Chapeuzinho Vermelho
Chapeuzinho tinha uma vontade louca de dar para o lobo morria de inveja da vovó que o lobo comeu uma pá de vezes o lobo fingiu que era a vovó doente na cama comeu Chapeuzinho e viveram felizes para sempre
O moleque na árvore
Olha o moleque na árvore joga pedras no moleque derruba o moleque da árvore O que o moleque foi fazer em cima da árvore? Joga pedras no moleque derruba o moleque da árvore O moleque não é macaco para subir na árvore Joga pedras no moleque derruba o moleque da árvore O moleque não é um pássaro para ficar em cima da árvore Joga pedras no moleque derruba o moleque da árvore É mentira, é mentira O moleque não subiu na árvore você está tendo alucinações com o moleque na árvore, cara
Antiode
Para ser grande, come muito. Mete o pau na boneca, não jogue nada fora da panela. O girassol gira aqui embaixo porque o sol gira lá em cima.
O deserto
O deserto fala comigo, grita, esperneia. Sou areia ao vento, dunas, miragem. Preencho o meu vazio com palavras como um poema, aceito o arco da forma. Aprendo o silêncio com a música, carrego pássaros de sangue nos ombros, contemplo a rosa até queimar os olhos. A minha vida é o violino do abismo. Estou só como uma pedra sem árvore. O poeta lavra a palavra com terra na boca, com espirais de areia e sol nos olhos. O poeta é um cão, ladra na noite, disputa o osso do caos e perde. Cavalgo para sempre o cavalo da loucura.
Prometeu
Sou Prometeu acorrentado a pedra no meio do caminho não é um acontecimento mas o real explode e cai como um pulso cai existo como o meu fígado existe os abutres me espreitam me devoram o fígado que exibo nas mãos sangrentas