José Cassais

José Cassais

n. 1954 BR BR

Nascido em 1954, começou a escrever lá pelos 15 anos, depois de ler alguns livros que sua avó lhe emprestava.

n. 1954-09-07, Pelotas - RS

Perfil
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FOLGADO

O gato da casa,
Estirado no sofá,
Sestica e ronrona,
E tanto se lhe dá:
Está em sua zona.

Só levanta pra comer,
Correr, pular atoa,
Parecente até que voa,
Pássaro sem ser.

Peludo está com tudo:
Esta noite saltar
Ainda espera, sortudo,
Escalando a janela,
Na espreita, trás dela.

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Poemas

2

TUA VOZ

Onde se houve a tua voz, tua voz que eu não mais escuto?
Que paredes, que ouvidos percebem o som desta tua voz
Que a mim não chega mais?
Mas o que dizem as tuas palavras que eu não compreendo
Nesta distância? 

Teus lábios movem-se, jorrando uma cascata de frases;
Teus lábios fecham-se quando escutas, abrem-se
Quando cantas... mas eu não posso ouvir.
Sei que falas. A tua boca transborda com tantos tesouros,
Uma a uma libertas as tuas pombas,
Todas brancas de neve, todas de asas rutilantes.

Tua voz transforma o mundo,
Faz com que ele seja habitável, cria um remanso,
Penetra fundo no desconhecido
Extraindo dele objetos familiares;
Tua voz é cotidiano pão do sentido mais comum,
Abre sulcos na terra de cada dia
Onde as palavras se depositam como grãos 
De dourado milho germinando
Ao calor do sol que sempre te ilumina.

Sei que paredes acolhem a tua voz,
Sei que ouvidos estão atentos à tua voz,
Quando falas, quando silencias, quando cantas.
Todavia, eu nada escuto.
Aprisionado nesta distância,
Separado de ti por prédios e quintais, nada ouço,
Embora saiba que a tua voz está soando o dia inteiro.

O Criador colocou no mundo este grão de alegria: a tua voz.
Nós o louvamos, agradecemos a ele por isso;
Pois embora meus ouvidos estejam longe da fonte do canto,
A certeza da tua voz que soa me alimenta 
Com um pão de alegria e coragem.

Pela eternidade soará a tua voz.
Porque os braços do Pai te acolhem
Descerrando-te as portas do mistério,
Eu posso repousar e amar,
Ainda que tu não estejas nesta encruzilhada de tempo e espaço.
Porque cantas, eu posso caminhar.
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INCONCEBÍVEL



Depois de fechar a porta eu me vi a sós 
No quarto que tinha o tamanho do universo.
Todas as coisas que importavam 
Haviam ficado do outro lado da porta.

Do lado de dentro eu não podia mais abrir, 
E, do lado de fora, somente a princesa dos sonhos 
Recônditos poderia, se quisesse, abrir para mim.
Cometas riscavam o firmamento do meu quarto.

Colei o ouvido à porta para escutar os teus passos
Do outro lado, nas tuas ocupações singelas,
Na tua azáfama doméstica. Lentamente,
O som das sandálias diluiu-se no vazio inconcebível.
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