José Roberto Tolentino

José Roberto Tolentino

n. 1957 BR BR

n. 1957-05-02, Salvador-Ba

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Eternamantes

Gosto das coisas duráveis
que as quero permanentes
como gema inalterável
como cena no presente
como nó inarredável
como deus onipotente.

Gosto das coisas seguras
que nelas eu adormeço:
mão de pai na noite escura
um colo como endereço
criador e criatura
olhar do santo de gesso.

Gosto das coisas eternas
que as quero sempre antes
como adulações maternas
como anel de diamantes
como toque em tuas pernas...
Gosto de estarmos amantes.
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Poemas

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Eternamantes

Gosto das coisas duráveis
que as quero permanentes
como gema inalterável
como cena no presente
como nó inarredável
como deus onipotente.

Gosto das coisas seguras
que nelas eu adormeço:
mão de pai na noite escura
um colo como endereço
criador e criatura
olhar do santo de gesso.

Gosto das coisas eternas
que as quero sempre antes
como adulações maternas
como anel de diamantes
como toque em tuas pernas...
Gosto de estarmos amantes.
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Minhas Impressões

Sete mil lanças na carne e nos ossos
Sete mil dores de parto por lança
Sete mil vezes, suores nos corpos
Sete mil gritos e um nó na garganta.

Sete mil coisas zombando do eterno
Sete mil tempos perdidos no mundo
Sete mil bestas atadas em verso
Sete mil nadas e um zero rotundo.
779

Um após o Outro

Os dias são tristes, mas não é por culpa deles
coitados, que só cumprem o que trama o destino.

Os dias acompanham, atenta e impotentemente
a trajetória do piloto em direção ao muro
sem conseguir parar o tempo.

Os dias sopram brisas para secar lágrimas
e fazer cantar as folhagens que ouvem lamentos e suspiros
dos que perderam entes ou se perderam de amores;

Os dias se rebelam muitas vezes
e enchem de muito sol e poucas nuvens
horas em que aviões despencam sobre casas;

Os dias chovem quando eu vou à praia
porque não foram avisados
com a devida antecedência.

Os dias tendem a ser menores nas férias
por motivos que ainda não entendi direito.

Mas os dias são sempre clones de si mesmos.

Os dias não estão nada satisfeitos
com o que se faz deles.
Os dias querem ser melhores.
Os dias querem melhores dias.
744

Posição de Sentido

Já li e escrevi muito... e nada.
Queria fazer um poema
que desse sentido à vida.
Queria fazer um poema
para dar sentido à vida.

Eu, que já toquei o topo da montanha
contemplo, como um Cristo, a planície vazia
onde serpenteia a música mais estranha
que, de tanto harmonizar, não melodia.

Onde está a razão de Deus nessa harmonia?
Onde está Deus em eu-acima-da-planície?

Eu hei sentido que não tenho sentido
e tudo é menos que um jogo de palavras.
Atire o primeiro xis quem há sabido
onde se acende o som e a luz se apaga.

Deus vive a montar estratagemas de morte;
a vida deixa-a como ardil para inocentes.
Quis me equilibrar, fazendo de Deus suporte:
tomei-lhe as mãos e vi-me solto de repente!

Sigo sem Deus, sem deuses e comigo
como uma esfinge, vivendo por viver
sem ter poema e sem ver nenhum sentido
em viver, em morrer, em não morrer.
694

Psicanálise

Quando o firmamento se posiciona
e instala a noite que, imóvel, assiste
os dramas do mundo de sua poltrona
fazendo de conta, fazendo ar de triste;

Quando a dita noite instalada e fingida
repete seu canto de torpe sadismo
eu viro de costas, eu cubro a ferida
eu faço de conta que não é comigo.

Há tempos livrei-me das minhas agruras
mandando pro espaço meu ar paranóide;
pra dar nome aos astros com minhas torturas
lancei mão dos gregos (que sabem de Freud).

Lá no alto céu coloquei minhas dores.
Sublimei nas estrelas minhas feridas:
elas que pulsem, que sofram horrores;
elas que fiquem com as dores da vida.
712

Novamente

Tudo já foi dito
mas eu vou dizer de novo.

Que mortes passem obliquamente
dilacerando o texto
expondo o nervo
deixando o verso inacabado.

Mortes de renascer mil vezes
até que se conclua o tempo;
até que se satisfaça o fado.

O texto nada mais é
do que o início repetido;
do que o fim antecipado.

O nervo dilacera o texto
que expõe o verso
que satisfaz o tempo
e que conclui o fado.

A morte, como já foi dito,
passa obliquamente...
643

Dilúvio Eterno

À beira da estrada e acima e ao longe
erosões de outras chuvas me dizem do tempo;
esculturas cavadas na carne do monte
despertando a atenção pro que já estou atento.

Vou girando o volante e também a cabeça
fixando a estrada e fitando o abismo
onde gotas de chuva percutem a terra;
onde terras feridas aumentam abismos.

Em conluio com o tempo que toca seu hino
com a cumplicidade da chuva escultora
vai, assim, o planeta cumprindo o destino
deafundar-se em si mesmo nas eras vindouras.
796

Aging

When the shadow of age comes
only helplessness remains.
We sing our songs for no one.
We give our cries in vain.

For the best of our days are gone
and the rest of our hopes are dead.
Now the space is still to come
and the time stands not ahead.

Friends no more than names in stones.
Tears of widows upon their graves.
Wives living their lives alone
Left in freedom as life slaves.

While I'm passing my days at home,
writing letters I never send,
I say to myself, "now it's done!"
It's too late to be the end!
748

Dilema

Quero um vocábulo sonoro como um proparoxítono:
as proparoxítonas são as mais melodiosas das palavras.

Quero algo suave como um crepúsculo
tocante como um armistício
silente como um prelúdio
profundo como uma carícia;
e ao mesmo tempo algo totalmente diferente:
contraditório, imprevisível, selvagem, pungente.

Quero a síntese da fêmea
na leoa ou na tigresa
que é lânguida com o filhote
e implacável com a presa.

O que eu quero mesmo é um poema
pra impressionar a namorada
(aquela "sem a qual a vida é nada").

Mas que palavra, porventura, a faria retratada?

Não confessarei nem sob tortura!

Ela continuará misteriosa e irrevelada;
ora maliciosa, ora cândida:
meu proparoxítono cantado Ângela.
794

Os Olhos do Tato

Na madrugada todas as horas são pardas
(e o olhar obsessivo adora simetrias);
toda cor se degrada nas lentes do tato
e formas desiguais ganham certa harmonia.

Abolida a visão em proveito do toque
o contato penetra pela superfície
em diversos sentidos, com um novo enfoque
diluindo na mão o que o olho fazia.

No teu corpo o que eu toco é o prazer exato;
o contorno uniforme que se evidencia
e se espalha por dentro e por fora o contato
e retorna pra mão em forma de poesia.
706

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