José Roberto Tolentino

José Roberto Tolentino

n. 1957 BR BR

n. 1957-05-02, Salvador-Ba

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O Ilhéu

A ilha é uma porção de terra
que desertou do continente.
Eu, desertor, aliei-me à ilha;
condenei-me a morrer de tédio constante
ou de maremoto súbito;
isolei-me sem papel, sem garrafa, sem farol.

Morri na ilha deserta.
Morri qualquer dia desses
(perdi a conta dos dias).

Vivi de sol a sol e de só a só
(nem sei qual o dia em que não morri).

A ilha é deserta.

Decerto o deserto sou eu - só
errando na ilha deserta;
morrendo na ilha deserta;
sem dia, nem hora, nem data; no ermo
desperto cansado - já morto a termo.

Vivo, morri, morro, vivi.

O tempo é deserto e o espaço é agora:
faço versos e sulcos na areia das horas.

Quem lerá os meus versos que o mar apagou?
Quem dirá que vivi, que morri, quem eu fui, como sou?
Quem me conhecerá além de mim?
Quem me amará a partir do meu fim?

Morri, um poeta deserto, e só agora me dei conta disso:
morri num dia qualquer na ilha deserta
e nenhum noticiário falará do meu sumiço.

Minha ilha jamais vai ser descoberta.
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Poemas

36

Dissecando a Vida

Entre a adaga e a espada
entra-me a morte na anima.
Corta, navalha-me a carne
com crueldade de lâmina.

A faca-morte me ampara
com seus assentos de gumes.
Quanto mais chega, mais vara
as carnes menos imunes.

Não cicatriza a ferida
- o aço exagera no corte:
é a dor que simula a vida
e a vida que amola a morte.
771

Ato Falho

Muitos têm sido meus equívocos.

Não conheço o exato das coisas
muito menos o gesto preciso.

Admito meus desacertos
(que eles têm a idade do Universo)
mas não minto jamais
(que meus olhos não deixam;
que eles portam o intuito do inverso).

Vou em busca do dia humilde e franco
em que os olhos todos possam expressar
a falha do ato, o semblante do espanto
no exato momento, no ato de errar.
842

Visões

Ante a mim o horizonte e o mar prostrados...
Deitado, aqui, na praia da Bahia
insatisfeito e meio alienado
eu enlouqueço quieto a cada dia.

Vastíssimo horizonte divisado...
que da oriental praia baiana
a horizontal me faz sempre inclinado
a ver muito além-mar a vida humana.

Basta fechar os olhos um instante
pra ter um mundo vário descoberto;
a vida nova paira no horizonte
e só não vê quem tem o olho aberto.

Pra além do muito mar há nova vida
(diversa desta aqui - precária e triste)
presente na visão bem definida
a qual vejo sem ver, mas sei que existe.

Visões. São só visões - não as acolho:
a minha vida excede o inaparente.
Sou bem maior que o que cabe em meu olho.
Toda visão se inclina ante o vidente.
695

Simplificação

Só eu sei como eu passo
na sua ausência;
só eu sei o que se passa
ante a sua iminência.

É como ter o coração crivado de neurônios;
é como ter a alma suspensa na neblina.

Pode ser que seja coisa do demônio;
pode ser que seja uma coisa divina.

Só não me venha reduzir a atração
a uma mera questão de feromônio;
só não me venha atribuir a paixão
a uma simples porção de anfetamina.
638

Uma Palavrinha

Ouve minha palavra!
ela vale mais que mil imagens.

Abraços, beijos, carícias
- pra isso haja imaginação;
mas para o amor por trás disso
não existe imagem, não.

Eu sinto um sentir sem imagem
cujo objeto é mulher.
Não há imagem pro ser
e a minha palavra é.

A minha palavra é fiel
- expressa-me literalmente -
põe o meu amor no papel
enquanto te acolho na mente.

Assim é a minha palavra
e já te dei toda que tinha.
Já te dei a minha palavra
- imagem da palavra minha.
690

As Cores do Tempo

Hoje me olhei no espelho
(que rima com vermelho)
e vi que estava velho
(que não rima com verde).

Um fruto maduro colore
para chamar à atenção.
Um homem maduro se encolhe
para atentar pra razão.

Cores, imagens, idades...
(duro adequar as rimas).
Hoje me olhei no espelho...
corei: vi que estava velho.
704

Cansoneto

Recebe esta canção imaginária
- sonata que recém sonhei pra ti;
compassada de maneira ternária
parte de minh'alma que eu reparti.

Quero despertar-te com mil acordes
e adormecer-te, de novo, em meus braços.
Beijar sutilmente os lábios que mordes;
montar-te os sonhos com sons em pedaços.

E logo quando a ouvires, por certo
suspeitarás que a conheces há muito
(algo tipo: déjà vu ou presságio).

Então, aos poucos, chegarás bem perto
dar-me-ás, na face, um beijo fortuito
e, por fim, me dirás que é tudo um plágio.
957

A Ela

Mulher - objeto não identificado;
indecifrável
e sinuoso objeto
indireto
por linhas tortas
certo
por linhas curvas.

Mulher - esse ser indispensável
(às vezes impensável)
de tão complicado interior.

Mulher - senhora dona dos seios
(esses definidores de mulher)
adoráveis e multiformes
carregados de sentidos.

Mulher - conflito eterno
entre
a carreira
o corre-corre
e a corrida
para os braços do seu homem.

Mulher:
entre o seu falar
e o meu ouvir
entre o seu chamar
e o meu ir
não há simultaneidade.

Mas haverá, creia, sempre
uma total e cúmplice
disponibilidade.
619

Canto Desesperado

Este é mais um canto desesperado
e de nada e a nada servirá.

Como a música de muitas músicas
transportará dores;
veiculará males
como transplante de córnea entre cegos
e de nada e a nada servirá.

Ai, dor torturante
que não quero só senti-la
que, só, não quero tê-la
que antes o mundo precisa vê-la
quanto antes todos devem ouvi-la.

Lanço meu canto desesperado no mar da minha ilha:
como garrafa - afunda de peso;
como rede - volta sem peixe;
como barco - parte-se a quilha.
930

Viver e Morrer de Rir

O que mais tenho feito é ser ridículo
(e olhem que tenho me esforçado
para ser dignamente ridículo).

Em tudo que eu faço, em cada atitude;
nas mínimas coisas, nas de magnitude;
no mais longo texto, no breve versículo;
cantando um cordel, recitando o Talmud
o som do que sou me parece ridículo;
o som do que estou ri de mim amiúde.

Fita-me Deus (que me expõe ao ridículo)
com seu sarcasmo, de grande altitude:
um dos Seus olhos contempla o ridículo;
com o outro olho Ele pisca e me ilude.
764

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