Julian Lael

Julian Lael

Graduado em Direito pelo Centro Universitário do Espírito Santo (UNESC), Especialização em Direito Penal e Processo Penal pelo Centro Universitário do Espírito Santo (UNESC). Especialização em Inteligência de Segurança Pública pela Universidade Vila Velha (UVV). Graduado em Letras Português pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Atua como Professor na Educação Básica na Secretaria Municipal de Educação de Cabo Frio/RJ (SEME/CF-RJ). Formação docente e educação básica.

Perfil
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O Horizonte: Sou Eu!

J.E. Leal

 

Hoje fomos ao monte Olimpo depois do café da manhã. À bela vista, o oceano Atlântico em toda sua extensão e imponência à nossa frente parecia calmo. Livre de qualquer ondulação em toda a sua superfície, resplandecia ali um sol de brilho aconchegante, convidando-nos à praia. Ao largo, passeava um grande barco de velas coloridas. Lançando-se ao mar azul, parecia seguir seu caminho no sentido ao infinito, rumo às estrelas. Sem destino certo, deixava seu rastro suave entre as espumas brancas das pequenas ondas.

Atrás de nós, passava protuberante a ponte da cidade presépio que, em seu movimento frenético, mostrava-se fortemente pesada. Ela trazia a vontade do caos vivo na geografia do desconforto urbano. A estrutura encontrava-se agitada pela passagem vagarosa de um pesado navio e seus dois filhos rebocadores por debaixo de sua envergadura. Na batida das hélices, espumavam-se histórias de sangue das coisas mortas por baixo da superfície fervilhada de vidas.

Ali no alto estávamos nós, um e outro, no silêncio da observação admirada na deslumbrante paisagem vitoriana, em puro êxtase e contemplação. A olhos vistos e não tão distante, a vitória dos sonhos estava próxima aos homens canela-verde. Do alto daquele monte, observávamos o céu, o mar, o santo graal e a ponte. No comando estavam as aves em seu voo, planando, prontas a replicarem sua linguagem. Elas mergulhavam rumo ao infinito azul na luta pela sua própria sobrevivência.

Foi quando me perguntei se estava sonhando de olhos abertos ou se era uma doce miragem. Naquele dia, tive medo de ser um breve passageiro, pois o meu navio ainda nem desatracou do porto seguro rumo às intrépidas aventuras que todo homem deve ter para contar suas próprias histórias. Infelizmente, fomos colhidos pela tarde, que já prenunciava o anoitecer após a agitação de um dia diferente dentre tantos outros.

Então esse homenzarrão de rosto tisnado, com um aspecto bravo — do tipo daqueles homens que sentimos terem atravessado longínquas memórias em diversos lugares desconhecidos por entre perigos constantes —, e cujo olhar sereno agora parece conter-se lá no fundo de sua alma, queria paz e curtir a paisagem. Não acreditando no que se transformou, superando o engano da palavra e da sensação que experimentou, esse homem enérgico nunca teve medo de nada, mesmo diante do perigo iminente. Ficou emocionado, agitado e, ao mesmo tempo, ansioso. Mas o horizonte é o mesmo, e o homem tornou-se outra coisa.

Contudo, a história do sangue de quem é corajoso não acontece por acaso. Ela se impõe perante um ataque, não importando se o homem está diante da morte inevitável e prestes a conhecer o Deus do submundo, ou perto de todas as formas conhecidas de perigo que acontecem em certas circunstâncias anormais e sob certas influências misteriosas, nessa trajetória dos riscos iminentes. O verdadeiro ser descobre-se ante o medo, que é algo instável como um acontecimento ou reminiscência dos horrores de uma guerra injusta, como as de outrora. Esse homem não acredita em lobos ou leões. Imagina enxergar uma silhueta no meio da floresta à noite e sabe que não há como escapar ao próprio medo.

Descobri que eu sou dono do meu próprio destino. Pois se antes me sentia inseguro por medo do escuro, sem conseguir ver nada, compreendi que a escuridão não era só inimiga, mas também minha amiga; ali eu também não era visto. Tornei a senti-la e enxergá-la como aliada do passado, no presente e no futuro, em meio às agruras da vida.

Na trilha da vida, fui covardemente traído e abandonado. Fui entregue aos leões por meus indignos familiares. Eu não sabia que o caos e a destruição estavam infiltrados no mesmo sangue que jorrava em minhas próprias veias, às quais estendi a mão para ajudar, por diversas e repetidas vezes. Conquanto eu buscasse ajudar, a inveja e a ingratidão sempre sobressaiam. Mas tudo isso não passou despercebido frente às agruras de uma vida sofrida e humilhada, em um tempo que remontou duas décadas e passou pelo meu horizonte — o mais alto patamar do sofrimento, em frações de segundos refletidas de uma vida inteira estigmatizada na infância e adolescência.

Foi nesse mesmo local em que fui vítima de uma conspiração armada, julgada e condenada por pura inveja e ganância de um cão ingrato que mordeu a mão daquele que o alimentou. Taxado como suspeito para ser jogado aos leões ou atirado aos lobos do mar, de cima da ponte para a escuridão das profundezas, por uma família de miseráveis — pobres coitados que sempre ajudei em seus pedidos —, isso serviu para que eu me resignasse, sem me entristecer ou ter a menor nostalgia. Mas medo não senti. Diante da alta traição, já a pressentia em casa.

E, no entanto, como esse traidor é o próprio filho da Morte, o seu sol não mais brilha. Sua vida esvai-se e se dissipa em um escuro nevoeiro de maldade em seu coração e mente. Seus dias de uma vida lenta e dolorosa estão contados. Preparem-se bem, sorriam e acenem, senhoras e senhores. Pois aos chacais a vida não serve para nada; espalham o seu melhor horror no dia a dia, noite adentro, semeando a discórdia e a desunião. Tenho pena da sua forma de parasitar no mundo. Resignem-se imediatamente.

Pois as noites já não são tão claras e não estão mais a seu favor nessas suas vidas vazias, de almas igualmente negras e comezinhas, refletindo inquietações mais sombrias que encharcam os seus cérebros. Se o seu mau-caratismo e a sua maldade são como altas montanhas, vagas e desiguais, diferentemente vemos a lei do retorno, que atrelará suas ações a seus resultados. Tudo isso implicará uns aos outros em si mesmo, e tu te afogarás em tua própria arrebentação, alardeada nesse teu reflexo de ódio.

Nessa visão de horizonte, observa-se o mar furioso ficar mudo e sem movimento no seu devido tempo. O sol devorará a face da hipocrisia de norte a sul nessa vida mesquinha, que escorre pela chama implacável da raiva e da ingratidão que corroerá os pilares da ponte de sua existência medíocre. Não adiantará nenhum protesto de seus cavalos, que o enterrarão até os joelhos — homenzinho cuja alma está perdida nas encostas de surpreendentes colinas de seus verdes pastos queimados pela ira. Ao jogar no poço uma época e uma história de vida, ele não considerou os bons tempos de vivência entre dois amigos.

Se já não nos falávamos, por sermos esmagados pelo calor da sua inveja, da ganância e da preguiça que se alastrou em seu lombo, saiba que não me sinto ressentido ou culpado. Meu horizonte é muito maior do que o seu laço de passarinheiro, enquanto tu ficas remoendo-se com essa sede vil que abate todo aquele que caminha nesse deserto perverso da mente.

Eis que, de repente, o meu irmão caiu do cavalo e bateu com a cabeça de frente com a dura realidade da vida, fulminado em sua amarga ilusão. Por quanto tentei em vão salvá-lo, por diversas vezes na trilha da vida, até que aquele dia retumbante e inexplicável que me foi premeditado enchia-me os ouvidos com o seu ruído caótico, intermitente e incompreensível. De inveja hedionda, perpetrada por aquele cadáver mal-amado no interior daquele barraco incendiado pelo ódio, entre quatro paredes de areia e miséria, enquanto o eco da injustiça lançava sobre nós todo o seu veneno, ao amaldiçoado barraco de número cinquenta e seis, rufarão os tambores da morte, da miséria e do sofrimento. Só lamento.

E nesse dia compreenderei o que é ser lenda; e saberei me portar melhor ainda quando essa ocasião chegar… Os boçais serão surpreendidos naquele ruído insólito, atribuído ao eco de lamúria, engrossado por lágrimas sepultadas no silêncio sepulcral multiplicado pelas dunas do vale da sombra da morte. Ao chegarem ao Estige, não terão as duas moedas para Caronte fazer a sua travessia e serão arrastados, numa saraivada de arrependimentos, pelas corredeiras do caudaloso rio. Não mais terão nem as ervas daninhas que plantaram em vida para se agarrarem; e, sempre que o fenômeno do arrependimento acontece, já é tarde demais, estando carimbado em seus pergaminhos. Ouvirão o rufar daquele tambor que os chama e os arrasta rio abaixo até as profundezas, e por ali não passaria nem uma só espécie que não merecesse tal destino. E isso para eles é tudo o que resta. Mas somente mais tarde virei a saber disso.

Segundo minha percepção, as noites deles cairão mais cedo na escuridão de seus próprios sofrimentos, até que seu céu se apague completamente. Apesar de tudo, ainda me lembro de quando íamos cear e dormir em casa, todos juntos como irmãos, companheiros fraternais. Por vezes, eu erguia os olhos e murmurava, verificando a segurança, o conforto e o bem-estar de cada um. Perguntava-me, em silêncio: Será que estão bem?

Mas o pai matara todos os nossos sonhos antes de dormir. Desde então, a noite parecia o fim do mundo, um pesadelo contínuo que nos perseguia em nossas recordações. Hoje, os três filhos estão casados, mas não convivem entre si. As trevas deles são ainda mais profundas. Não vejo nada de bom no passado, nem à minha volta ou no entorno daquela época. Sobrou apenas a ramaria de uma árvore frondosa que plantei no passado e que lá ficou, sem arrimo.

Surgiu-me na memória um velho quadro inesquecível da época de estudante, em preto e branco. Eu era jovem, ainda uma criança, vestindo uma camisa branca de tergal com bolso e botões. Estava sentado a uma mesa, ladeado por uma pilha de livros de um lado e, do outro, por um globo com um mapa-múndi ao fundo. Encontrava-me de braços quase cruzados, sobrepostos um sobre o outro em cima da mesa, testemunha de um bastardo passado inglório. Desse passado que não volta, não quero mais nem as lembranças.

Esta noite também não estou outra vez à espera deles. Por vezes, contudo, volto a lembrar o quão forte e resiliente fui para sobreviver ao caos. Por um instante afligi-me, mas depois tranquilizei-me como pude. Fiquei feliz por ter ido, justamente naquele dia, tirar aquela foto: o retrato de um sobrevivente ante o horror. Ponho-me a refletir e a contar a mim mesmo as histórias do meu horizonte do passado. No presente, vislumbro ainda os passos do futuro; só assim consigo me acalmar e resistir de pé.

Junto à fogueira da vida, vejo hoje um homem velho. É um cão bravo, maldoso e desdentado que reluta contra a morte. Está quase cego, já sem os seus grandes bigodes negros, ostentando um olhar sisudo e uma expressão grave e aguda sendo torrados pelo tempo. Hoje, ele é só mais um daqueles cães sem dono e sem destino, perdido no tempo e no espaço. Um animal que já morreu e só esqueceu de cair — que me perdoem os cães.

Lá no passado, o temporal que insistentemente açoitava e abalava as estruturas do pequeno barraco por lá ficou. Deixou muitas cicatrizes; uma espécie de buraco aberto junto ao peito. Pela fresta da fechadura da porta, via-se acontecer, repetidas vezes, a confusão armada por esse algoz retumbante. Eram panelas batidas e pratos que voavam ao vento sob o clarão da tempestade, em meio a grandes relâmpagos. Apesar de todos os meus esforços, eu mal sentia a beleza da vida diante do profundo terror instalado na alma daquelas pessoas. A cada vez que esse animal parava de falar, todos os ouvidos se punham a escutar ao longe a quebradeira geral dentro do barraco, mantido a duras penas.

Por estar cansado de assistir a essas ações imbecis, tentei fugir por diversas vezes, sem contudo lograr êxito. Então, resolvi me dedicar aos estudos para sair dali. Mas a mulher miseravelmente sempre caía de joelhos nos seus cantos, escondendo o rosto. Ela pedia aos filhos para tornarem a aceitar aquelas agruras, argumentando ser pelas razões do sangue.

Com o passar do tempo, percebi que o horizonte sou eu. Hoje, eu imponho meus limites aos meus próprios ombros e cobro o respeito merecido. Mesmo diante daquela visão assustadora, frente à atuação daquele animal naquele lugar e em meio àquelas pessoas de cabeça dura, eu não sucumbi. Todavia, o cão maldito não dava sossego no barraco. Farejava e urinava até nas paredes, fazendo sempre o bambu gemer para nos ferir. Aquele animal guardava muito rancor e nos deixava atormentados.

Então, recompus-me homem aos dezesseis anos. Enfrentei-o em defesa da mulher que estava sendo enforcada por ele. Ele lançou-se sobre mim numa espécie de paroxismo de terror familiar, praticado por um cão furioso. Abrindo a porta dos fundos que dava para uma pequena área de serviço atrás do barraco, atirei o animal para fora de casa.

O cão dos infernos calou-se naquele instante. Ficamos, porém, mergulhados num silêncio ainda mais aterrador. De repente, todos juntos sentimos um sobressalto: alguém deslizava ao longo da parede exterior em direção à porta da frente. Depois, o vulto passou encostado à lateral com passos pesados, tateando a estrutura com mãos raivosas. Rosnando e roçando na parede, arranhando e batendo fortemente, ele começou a berrar como uma criança má.

O cão bêbado apareceu com a cabeça encostada no vidro da basculante da cozinha. Seus olhos estavam vermelhos de álcool e fúria, como os das bestas-feras. Saindo de sua boca, vinham apenas maldições e pragas mil em um som arrastado e pastoso, para logo depois converter-se em um murmúrio lamentoso. Logo em seguida, um barulho desconfortável estourou na cozinha. O cão velho babava de raiva e começou a chorar, colocando-se na posição de vítima, como sempre fazia após passar o efeito ébrio de suas bebedeiras.

Os filhos se precipitaram e o perdoaram, deixando um grande buraco aberto em seus corações, almas e corpos. Ficaram ali até o alvorecer, incapazes de se moverem ou de pronunciar uma só palavra, espantados e traumatizados. Junto às paredes daquele barraco, restaram apenas traumas, castigos, espancamentos e desilusões.

Hoje, acuada em seu canto, jaz uma vida miserável à espera da morte, que outrora foi tão clamada por ele. Hoje, na certeza dela, o velho cão dos infernos teme morrer. O algoz desdentado, com o focinho estilhaçado pelo decurso dos noventa anos desperdiçados em uma vida inútil, finge esquecer tudo o que de ruim falou e fez.

Por conseguinte, o homem de rosto tisnado calou-se ante o seu horizonte promissor. Ele lembra também das belas histórias vividas na construção de sua própria jornada, estabelecendo uma meta de verdade absoluta: com o tempo tudo passa, o homem não é eterno, mas é livre para desbravar os horizontes que quiser.

E aqui fica o alerta: se você me desrespeitou e eu bati em retirada no meu silêncio, te dou um conselho: não confie mais em mim.

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Biografia
Sou Jorge E. Leal, Graduado em Direito pela Unesc em 2006, Professor de Língua Portuguesa, formado pela UFES em 2016, Pós - Graduado em Direito Penal e Processo Penal, pela UNESC; Pós - Graduado em Inteligência de Segurança Pública, pela UVV em 2010, e dentre muitos outros cursos relacionados a educação, incluindo formação em Neurolinguística, através da plataforma AVAMEC, concluído em fevereiro de 2025. Sou extremamente compromissado com o ser humano, principalmente pelos que estão em período de desenvolvimento, como os nossos alunos, um educador indignado com os rumos atuais da educação em nosso país, e que está sempre em busca de alternativas que tragam uma melhora no pleno desenvolvimento dos alunos e consequentemente na qualidade do trabalho do professor.

Poemas

81

Me inclui fora dessa

Jorge E. Leal

 

Não quero fazer parte dessa festa,

Pois toda a graça virou confusão!

Quem aguenta dar o tiro na testa?

Que foi que fez, viu, ouviu ou então?

 

Vamos ao que de real interessa,

Não se precisa o preciso nisso,

Para fechar a questão tão depressa,

Corram que dá tempo contra o feitiço.

 

Ou fujam todos da guerra astuta,

No salão que se faz hoje vazio,

Enquanto o maestro esconde a batuta.

 

Cubram-se dos atropelos da vida,

Sem as migalhas da queda absoluta,

E achem o doce dom da despedida.

4

Jovem Fla: via a Pista

[Viagem às raias do significado]

Dodge Leal

 

Flamengo via no coração,

O seu amor por ele, amar.

De tão sublime sua paixão,

Foi bom sentir o seu calar!

 

Na veia corria seu sangue,

Marcante o aroma da glória;

Pulsar sentidos, se zangue,

Nesse vai e vem da vitória.

 

A musa desse jogo encena,

Os amenos sonhos, ilusões,

Assim, a alma entra em cena.

 

A tela resplandece a copa,

E faz de mim o seu comparsa;

Zigue-zague no gol ensopa!

4

Lírica Polêmica

Dodge Leal

 

Pra viver poesia;
poesia pra viver.
Toma aí um poema;
poema um aí toma.

 

Na vida, a poesia;
poesia na vida.
Fica um poema;
poema um que fica.

 

Tudo é poema;
poema é tudo.
Poema e poesia;
poesia e poema.

 

Licença poética
e versos livres!

 

6

Mafuá Filosófico

 Jorge E. Leal


Hoje acordei para o nada,
Só ficar filosofando,
Quem seria minha amada?
Se estivesse brincando.


Por que há tanta bagunça?
De onde vim e para onde vou?
Atordoado na furdunça,
Ser na vida meio show.


Triste é perder a inocência...
Que nos dói nos sentimentos.
Despir-nos de nossa decência,
Delírio que abala os momentos.


Enquanto a mente vai imunda,
Presos na mesma barafunda.

5

Conto o conto

Jorge E. Leal

 

Aqui, nesse conto que conto, vive-se um território devastado de espaços quebrados de almas perdidas, sem uma única moeda para Caronte. Nadam em suas pieguices, esmolam dia após dia, por décadas, acreditando no conto de fadas que irá tirá-los de sua realidade nua e crua.

Não sei se conto. Saber ao certo sobre mais nada é uma dádiva ou uma maldição, vivendo entre aqueles que nada sabem, os que sabem que não sabem e os que não sabem que sabem — e, se soubessem, fariam dar certo. Ninguém tem consciência de nada; nadam numa dimensão perdida, mas ninguém se importa, a não ser com o próprio umbigo da imediatez.

Desconto que a tez, há muito queimada do ralo ao sol radiante em meio a pedras, desertos e à parca vegetação, foi destruída pelas ações insanas, impensadas face ao futuro das gerações vindouras. Que arrependimento deve ter a cobra rastejante, remontando ao dia da maçã! Pois ela não mais pode cravar seus dentes em meio à folha que caiu e definhou sua árvore da vida.

De onde escorre esse líquido vital que destrói tudo ao seu redor, refletindo-se em tudo, desde o inseto que voa entre a floresta devastada soltando seus zumbidos de tristeza, de medo e de vergonha pelo que a cobra fez? Mas de quem é a culpa? Dos incautos humanos sedentos de poder e dominação ou da cobra esguia e traiçoeira, que não mediu as consequências de seu ato?

Não se conta o tempo da finitude do mundo ou da infinitude do universo nos ecos que não se escutam pela arrogância e desplante do nada. Pois em tudo está a presença do homem, naturalmente imperfeito, sem saber ao certo qual o seu papel na natureza e qual é a natureza dos seres no mundo. Gritante é o desafio de fazer o bípede chegar a essa compreensão.

Talvez, e só talvez, haja uma solução para o problema em sua essência desumana; uma luz no fim que possa separá-los do silêncio em seu ego, do grito de socorro da mãe natureza, e que possa lhes permitir libertar-se dessas amarras, dessa prisão que impingem a tudo e a todos ao seu redor.

Escutem, por exemplo, a esses absurdos e abram os olhos. Entre os arbustos, busquem a acuidade para ver através das folhagens com uma visão periférica e diretora de profundidade. Mas a mãe natureza não responde; se cala e faz acontecer a olhos vistos, ante a descrença do Homo sapiens.

Mas saracoteiam perguntas sem respostas: quem, como, onde, por que... sem som de retorno, num silêncio sepulcral que arrepia os ouvidos, que não contam a história marcada por tragédias perpetradas alhures e algures, por fulano, sicrano e beltrano, todos juntos e embolados, ajudados por aspones e asmenes, sem pesar as consequências de seus atos e de suas ações insanas e impensadas.

A realidade do mundo está mais feia do que batida de carroça, que espalha o homem para um lado, o cavalo para o outro, a carroça em cima dos dois e as mercadorias perdidas sabe-se lá onde. Podemos imaginá-los: o cavalo pensando no que fez de ruim para estar ali naquela situação, e o homem querendo atribuir ou distribuir a culpa a alguém ou a alguma coisa.

Não resta dúvida de que a carroça e o cavalo cumprem sua missão do dia a dia. Já o homem, por outro lado, deixa a desejar. Eis que sobrevoa a dúvida sobre quem tem mais cérebro: o cavalo, que não sabe o que faz, ou o homem, que sabe e é o senhor da razão. Como estaria o mundo se fosse o inverso no pensar, querer e fazer de ambos?

Como explicar tudo isso à grande mãe e às suas leis? Mas tudo isso para o homem é nada. Não se separam nem se misturam as coisas por causa da hipótese do cavalo. Não se para o mundo nem mesmo por causa do homem. Esse homem que enterra a si próprio e aos outros, e tudo ao seu redor; que destrói para construir e constrói para destruir.

Feito de carne e osso, pensa que é de ferro e aço. Chega à conclusão, em seu pensamento, de sua fragilidade diante da dor, mas logo esquece, assim que se recupera. Por ser indigno ao tempo de vida lhe ofertado, ingrato? "Ora, um cavalo não pensa nessas coisas e não se preocupa", reflete o homem descompensadamente. De quem é a razão, afinal?

Enquanto isso, o homem, breve passageiro do tempo, conta que atravessa a vida sem nenhuma ferida até a sua última fronteira. Essa linha que separa a vida e a morte o homem atravessa, mas sabe que não tem mais retorno. Esconde seu medo até o dia de ir e não voltar mais. E jaz aquele homem que ficou trancado na linha do tempo e do espaço, sem fronteira e sem lado.

Resta-lhe o grito desesperado quando a ficha cair. Será tarde demais para se escutar o eco da vida. Então, o homem terá a certeza de que era louco e de que a loucura lhe cegou no espaço de penitência e arrependimento, onde só existe a partida sem volta.

Não sei se conto, o conto que não conto, dura realidade ao se depararem, no subterrâneo, com os vermes em seu território — que estava vazio até a chegada do homem —, sem mais poder afetar as cobras, as pedras ou a vegetação em plena natureza. E isso não é história. Pois não existe estória onde nada mais acontece; não é mais uma história que precise contar, já que ela se conta sozinha para contar o que não se conta e, talvez, não se leve em conta: o conto que conto.

6

PROCURA-SE ...

Jorge E. Leal

Procura-se pra viver poesia: Ou toma aí um poema.
Procura-se versos sobre acontecimentos.
Procura-se a criação da rima perante a poesia.
Procura-se a vida em um só momento, o fantástico da morte,
Procura-se o que aquece, ilumina e nos escurece (...)
Procura-se penetrar no reino das palavras não ditas.
Procura-se onde estão os poemas que esperam ser escritos.
Procura-se por tais seres malditos! Vivos ou mortos!
5

Diabo Encarnado Ectrodáctilo

Jorge E. Leal

Washuawashuawashua, um arrombado!

Belo dia um alien apareceu,
De profundo mundo mui distante.
Trouxe um projeto novo e inusitado,
Ser tão ímprobo e apavorante!


Washua-washuawashua, o riso irado!


Fez seu caminho lá no cotovelo,
Tragou o mundo na sua garganta,
Apontou aos ventos seu pecado,
Com ganância na garra do conflito.


Washuawashuawashua, ecoa abafado!

O falastrão soltou a língua algures,
Mascarou, pintou e bordou o que quis,
Arrepiando a espinha por alhures.

Washuawashuawashua, o povo geme!

Era o demônio em homem, disfarçado,
No compasso da ampulheta, cão infeliz,
Com falsas promessas, pobre coitado.

Washuawashuawashua, pobre coitado!

4

Panóplia Literária

Jorge E. Leal


A bandeira municipal
discute com a bandeira estadual
qual delas é capaz de bater
a bandeira nacional.
Enquanto isso a Constituição Federal
tira ouro do lombo do cidadão.

4

Licença Poética

Aline boa,
Aline bela,
Aline sempre de bom humor.


Imagino Aline batendo na porta do céu:
— Licença, meu Santo Chaveiro!
Esvoaçante, como sempre Aline.


E o bonachão senhor do tempo:
— Entra, Aline traga o sol da abundância.
Você não precisa pedir licença, nem a poética!

4

CLEPTOMANÍACO

Julian Lael

Com o nove, escrevo sem medo:
C-O-R-R-U-P-Ç-Ã-O!
E logo desvendo seu segredo:
C-O-R-R-U-P-T-O-R?!

Não dá mais pra manter o erro;
B-O-N-A-C-H-Õ-E-S...
Aguardem o momento do enterro,
L-A-R-A-P-I-Õ-E-S.

Se chegar ao número nove, sorte!
F-A-N-F-A-R-R-Ã-O...
Mas o barqueiro justo da morte

O aguarda, sedento por moedas.
Ku… V-E-R-M-E-L-H-Ã-O,
O bonachão ladra, futuras quedas...

7

Livros

1

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