Particular
Não espere que eu te procure, nem mesmo na calada;
Minhas declarações ficam no silêncio, numa caixa encantada;
Só esse meu olhar teimoso que não esconde quase nada;
Revela os meus medos devastadores e até minha paixão engasgada.
Não espere que eu te procure, nem mesmo na calada;
Minhas declarações ficam no silêncio, numa caixa encantada;
Só esse meu olhar teimoso que não esconde quase nada;
Revela os meus medos devastadores e até minha paixão engasgada.
Ainda escrevo cartas de amor, mesmo que não tenham destinatário. Escrevo porque o amor em mim transborda. Sou como o mar imenso e profundo cheio de sentimentos. Sigo minha natureza, minha correnteza e não me importo de não ter um porto ou ao menos um simples farol. Escrevo cartas de amor não porque estou amando, mas porque tenho o dom de amar. Jogo minhas cartas em garrafas em minhas próprias águas na esperança de que em alguma praia meu marinheiro possa estar e tome seu barco a me velejar, que venha desvendar todo meu amor, esse mar de amar...
Não me contento com as palavras que morrem nos pensamentos.
Então as escrevo.
E ao escrever não invento.
Na realidade recrio minha identidade.
Quando escrevo me enxergo, não com os olhos de quem só vê a casca, a forma.
Contextualizo meu autorretrato.
Alguns preferem a foto, outros o fato!
Tenho um coração partido,
um corpo quebrado,
uma mente desordenada,
uma alma trincada.
Tenho tantas formas, tantos pedaços.
Tenho um desejo meio a estes estilhaços.
Sem coroas, joias, nem outro adorno qualquer.
Seja verdadeiro quando e onde estiver.
Desejo um amor que não seja ligeiro.
Desejo um amor das partes ao inteiro.
Com o tempo o espaço ficou ainda maior.
Vazio, sombrio, frio e repleto de pó.
O tempo não curou as feridas da realidade.
Ele arrancou os sentimentos pela raiz sem nenhuma piedade.
Hoje há mais espaço do que eu consigo mensurar.
Não restou semente alguma que eu pudesse plantar.
Meu coração tornou-se um pássaro de ferro que anseia voar.
Mas a desejada liberdade pode o matar.
Liberdade é sentimento, é loucura, é amor.
Lágrimas que molham a flor.
Pássaro de ferro teme o dia que chover.
Uma gota basta para enferrujar e morrer.
Ele; ave de lata, tem medo de voar.
Eu; homem de lata... Tenho medo de amar.
Os dias passam por passar
Espero uma hora que não quer chegar
Seguem, estes olhos, os ponteiros do relógio girar
E tentam, um tanto desesperado, não pensar
Mas ali estou, num canto de um quarto qualquer
A espera do castigo que vier
Abraço o único calor que posso provar
O calor de minhas próprias pernas, exaustas de tanto caminhar
Abalo-me num semitom particular, numa canção que não sei cantar
Eu decoro suas cifras, coloro poemas com sentimentos que não sei expressar
Estou tão vazio das coisas, tão cheio de tudo
Estou cheio de palavras e ao mesmo tempo mudo.
E hoje está meio apagado, meio morto, ranzinza
Está tão vazio, tão vago, tão fúnebre
Tudo tão passageiro, tão sem sentido
Coisas sem noções de existir, existindo
Coisas talvez nem tão necessárias, que não completam nada, só existindo
E tudo continua tão sem par, tão sem lar, tão sem tom, sem cor
E os dias passam por passar
Estou esperando uma hora que não quer chegar
E os dias passam, não tão devagar, sem pressa
Mas estou com medo de que venha passar
E ainda não estou cheio, continuo sem voz, sem melodia
Sem forma, sem um traçado qualquer para me inspirar
seguem, estes olhos, os ponteiros do relógio
E tentam um tanto desesperado, não pensar
Essa é minha mania, um tanto louca, de sempre pensar
Mas continuo tão só, tão perdido
E ali estou, naquele canto do quarto, esperando um castigo qualquer
Abraçando o único calor que posso provar
O calor de minhas próprias pernas, que já exaustas não querem caminhar
Embora tão lindo, esdrúxulo, embora tão forte e imponente
Abalo num semitom particular, de uma canção que não sei cantar
E decoro suas cifras como quem colore seu poema com sentimentos que não sabe expressar
E por mais que eu queira vagar e esconder na multidão
Não esqueço aquela rima que canta... Tão só, tão vazio, tão passageiro
De tanto ouvir qualquer melodia que ao meu deleite trouxesse conforto
Fiquei surdo de vez
Tão no meu mundo, onde só ouço aquela canção
Embora não seja uma lembrança, é meu único som sem lamentar
Hoje tão poeta, tão cativo de todos
Eu não sei como cantar minhas frases sem rima, mas sempre com o mesmo refrão
E continuo tão cheio de tanta coisa, menos do que realmente almejo
Estou tão vazio das coisas, tão cheio de tudo
Tão carente, tão cheio de palavras e sentimentos
Tudo em tom de tão, para cantar que simplesmente estou tão sem você
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