Lobices

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n. 1945 PT PT

n. 1945-12-08, Porto

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TRAGO COMIGO

"...trago comigo a seda do teu cabelo, a maciez do teu beijo, a doçura do teu toque, o brilho do teu olhar, a atenção do teu escutar... trago comigo, na minha pele, na minha alma, no meu coração, a tua essência aqui brotada em mim durante os momentos da fruição dos seres que se tomam serenos mesmo num simples abraço... é apenas um hiato de tempo este espaço que nos separa... de resto, tudo está aí como tudo está aqui... um saber de um sabor a sentidos vividos em amor..."
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Poemas

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O DELEITE DO AMOR

"... o teu corpo doce, deitado no leito, de pura seda acetinada feito, exalava o perfume perfeito... deixava antever, sem te tocar nem sentir, o esbelto prazer de olhar para ele e bastar sorrir... mais não seria necessário se a força do desejo se quedasse por ali... mas a languidez da libido perfurava todo o sentido em te possuir... aproximei-me de ti sem te olhar e sem que me visses... era apenas um desejo que bastava que sorrisses para que eu parasse e não prosseguisse... mas os teus lábios carnudos abriram-se em pétalas desnudos e me sorriram num convite perfeito... o ardor estava ali, a teus pés e meu corpo teceu o desejado amor de tudo o que depois aconteceu... volteámos a alma, os sentidos, a voz rouca, o arfar da pele, o toque no teu mar e o saboroso doce a mel... perfurei tuas entranhas em doces movimentos com forças tamanhas que te fizeram sugar teus próprios gemidos... a doçura perdura dentro de nós e antevê-se nos nossos olhos o desejo de, novamente, a sós, voltarmos a ser um só corpo e um só desejo num derradeiro lampejo de profunda paz... o deleite do amor que ele nos traz..."
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AGARRAR O TEMPO

"...e os dias escorrem por entre os meus dedos e não os consigo agarrar... e as horas se esvaem em momentos de saudade e de desejos de presença... e os minutos contam quando se pensa no que queremos que seja e sentimos não poder ser... até que surge o momento em que o encontro se apraz nele mesmo e nos delicia com todos os segundos que o toque nos propicia... e os dias que escorrem pelos dedos deixam de existir e a paz volta a fazer-nos sorrir... e o ciclo continua numa luta de vontades e de saudades... as idas e as vindas e o abraço da chegada e o abraço da partida... ambos transmitem o mesmo mas com sentido diferente... ambos são enlaces mas um traz o sorriso e o outro leva a lágrima... até que nova vinda que nos anima surja após os dias que escorrem pelos meus dedos... e, nessa altura, desaparecem todos os medos e fica apenas a troca dos segredos que guardados foram nos momentos que escorreram pelos dedos... e esses breves dias que tão rápidos passam por nós, trazem-nos os sorrisos, os beijos, os abraços e sabemos que não estamos sós... temo-nos um ao outro, por tempo que sabemos ser pouco mas que vale pela ânsia daqueles que nos escorrem pelos dedos... e o beijo sela a doçura do tempo em que a dor perdura na esperança que depressa passe a amargura dos dias que nos escorrem pelos dedos e não os conseguimos segurar... sabemos apenas que, pelo menos, amar a cada segundo que passa é uma bênção que fica cá dentro e não foge como o tempo que gostaríamos de prender... mas a dor da ausência ajuda-nos a vencer..."
617

TELA

"...gosto de desenhar no meu corpo a pura entrega de quem ama... gosto de desenhar na minha alma a luz dessa verdade... escrever com os meus olhos a leitura da saudade... garatujar nos sons as palavras sussurradas... saborear na boca, nos lábios a doçura do mel do teu beijo desenhado desejo de quem procura o abraço esperado... gosto de desenhar nos teus ouvidos as letras que formam os sentidos... desenhar, por fim, já por sobre o esboço da obra final de quem no auge do encontro sente-se sonho sabendo ser real... pairar na tela do teu corpo e desenhar as cores do amor que num todo se move completo no ser que temos por modelo... e sendo-o, tê-lo, possuí-lo e transformar a obra num plano final que dá ao desenho o toque especial como que uma assinatura sobre a obra acabada... depois, ficar a mirar tudo o que havia sido feito para ter ali, na minha frente, a concretização do sonho e saber que todas as palavras ditas ou as desenhadas ou as escritas houveram sido assimiladas, saboreadas e entendidas como brotadas de dentro do meu ser... gosto de desenhar sim, no teu corpo, o meu eu e no fim ao olhar a tela preenchida em ti soubesse ali ter tudo o que havias querido da presença do meu amor..."
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PORQUE TE AMO ?

"...amo-te porque te amo... porque me sinto bem quanto te olho... quanto te toco... quando te beijo... quando sinto a tua pele perfumada junto da minha... quando te vejo sorrir para mim... quando ouço a tua voz... quando te ris... quando me tocas, me acaricias e me fazes sentir homem... amo-te quando me dizes que também me amas, quando me dizes gostar de mim, quando me olhas e vejo no teu olhar a tua alma e o reflexo da minha... quando sabemos que nada mais no mundo nos importa... quando sentimos que tudo o que gira à nossa volta está parado e somos o centro de tudo... amo-te quando te digo que te amo, quando te sussurro palavras ternas, quando ouço as que me dizes... amo-te quando me dás um mimo, um sabor, o roçar ao de leve ou mesmo forte... amo-te porque te amo... porque te sinto bem quando me olhas... quando me tocas... quando me beijas... quando sinto que sentes a minha pele... quando te sorrio... quando ouves a minha voz... quando me rio... quando te toco, quando te acaricio e te faço sentir voar... amo-te quando estou aqui ou aí... amo-te mesmo quando não estamos ou não somos... amo-te porque sei que te amo, porque sinto que te amo, porque vivo esse amor duma forma terna, doce, suave e pura mesmo quando os corpos se entrelaçam e vibram em loucura... amo-te assim, tão simples...tão tudo em ti e em mim..."
553

ACABARAM-SE AS PALAVRAS

"... terminaram as palavras... as letras deixaram de existir... as frases já não podem ser formuladas e a comunicação escrita ou falada findou... o Homem deixou de poder dizer um simples vocábulo e nem um só ditongo se consegue escrever ou articular... mas a sua necessidade de gritar leva-o a inventar novas formas de comunicar... passa a usar o seu corpo para insinuar as sílabas e começar a juntar os elementos que formam a ideia, a imagem ou apenas o sentido... o seu corpo passa a ser a caneta ou a corda vocal... e as mãos tocam ali, acolá ou aqui... movem-se no espaço e sentem que do outro lado existem outras mãos que fazem o mesmo... e todos começam a gesticular... e do gesto, passam ao encontro, ao toque mútuo, ao abraço, ao enlace, à carícia, ao beijo, à ternura, a todo o género de acto que defina um desejo de comunicar, de dizer: estou aqui, estás aí, podemos falar?... então trocam-se os toques e todos se movem no mesmo sentido... no Mundo existe o silêncio mas passou a existir o abraço... algo que o Homem já havia esquecido há muito... e apesar de o riso não ser articulado, existe o sorriso... e apesar do grito se ter silenciado a lágrima pode escorrer pela face e dessa forma se diz o que se passa, o que se sente, o que se deseja, o que se vê e o que se quer que seja entendido... o Homem calou a voz mas não consegue deixar de comunicar... e o seu corpo passa a ser o elemento base dessa acção... e, dessa forma, mesmo não podendo dizer que se ama, pode-se dizer o mesmo num sorriso, num beijo, num toque, num abraço, num desejo... e o Amor, por mais que o Homem possa perder as suas faculdades, jamais morrerá... e Amar, continuará a ser o único caminho!..."
574

UMA CARTA DE AMOR

"...tens razão, meu amor: nunca te escrevi uma carta de amor... interessante notar que mesmo num tom frio dito assim, sinto a dureza do saber que algo tão simples ainda não foi feito... talvez não tenha jeito... ou será apenas preconceito?... mas, na verdade, nunca te escrevi uma carta de amor, daquelas que levam as mágoas e as saudades em torrentes turvas de rios alterosos em direcção a um mar onde o horizonte se confunde com as cores de majestosos tons... são cartas de amor em que as palavras se confundem com os sentimentos que queremos transmitir e não os sabemos... são cartas de amor em que as palavras se misturam numa amálgama de tonalidades que não duram... são cartas de amor que perduram no tempo sem um lamento mas onde o sentir de um breve sentimento mais não é do que o dizer da palavra em dado momento... são cartas de amor que não escapam ao estereotipo dos sons que se ouvem na escrita e se escrevem com a voz... o som que se debate dentro de nós sem sabermos que já não temos o poder de gritar a sós... cartas de amor dizendo o que não é preciso dizer... cartas de amor falando de coisas que sabemos sentir, possuir, ver... cartas de amor com palavras que transmitem o toque, o cheiro, a visão, o sabor e a audição dos nossos corpos em fusão... na verdade, meu amor, nunca te escrevi uma carta de amor... uma carta que repetisse o que desde o início sempre te disse: que te amo... para quê então, meu bem, escrever o que já se sabe, o que já se tem?... mas um dia vou tentar escrever-te uma carta de amor, uma carta que te leve as palavras que me preenchem e se derramem sobre ti num sabor a tudo o que qualquer homem e mulher podem querer: que se amem a valer sem preciso ter de escrever uma carta de amor, perfeita, bela, cheia de luz e de cor..."
549

SENTIR

"... és sinónimo de paz, na palavra que me dás... és sinónimo de beleza nesse olhar profundo sem mácula de tristeza... és sinónimo de alegria no toque suave que em mim um teu sorriso cria... és sinónimo de paixão quando disfruto o bater mais forte do meu coração... és sinónimo de harmonia quando me beijas enlaçados em sintonia... és sinónimo de luz quando no escuro da noite teu amor me seduz... és sinónimo de serenidade quando no abraço matamos a saudade... és sinónimo de ternura quando na partida o teu olhar em meus olhos perdura... és sinónimo de puro amor quando nos afagamos com a alma e os corpos sem pudor... és saudável loucura quando sinto a nossa mútua procura e nos afogamos no delirar de um sentir que tudo é tão simples quando sabemos porque é que nos estamos a amar... és tudo o que um simples mortal busca na imortalidade que a qualquer um ofusca no silêncio do grito que amaina a febre do ruído que quebra tudo mesmo que fosse granito... és tudo o que o amor busca no olhar, no toque, no beijo que de momento em momento se reduz ao desejo, trazendo como prenda, tecido em flocos de doce renda, o caminho percorrido como sempre desejado, obtido e que a luz em nossos corações se acenda para num florir matinal ou num anoitecer normal, o doce sabor nos acorde ou nos adormeça em profunda certeza que o dia seguinte mais não será do que um novo fruir do amor que nos envolve e a cada momento nos devolve na mais plena pureza do aceno tão natural como há pouco sobre nós desceu... porque se te sinto minha, sei que me sentes teu..."
568

LÁGRIMA

"...ele olhou-a nos olhos e viu uma tristeza profunda na alma ou lá onde é que a tristeza ou a alegria se instalam às vezes em nós... ele olhou-a nos olhos e viu o que ainda não tinha visto: a mágoa de não ser o que queria ser, a dor de não poder, o sofrimento do desejo insatisfeito ou ainda do satisfeito não desejado... olhou-a bem nos olhos e viu-a chorar por dentro sem que uma lágrima bailasse nas pálpebras tão serenamente abertas... olhou-a uma vez mais, sem pressas (ou altivez como quem percebe o que está a fazer, ou a sentir ou ainda a ver), com vagar, com doçura, com precisão... sentiu-lhe a pulsação acelerada quando lhe pegou na mão... tinha-a fria, quase gelada e aquele olhar tão triste ainda mais fria tornava aquela mão... pegou nela e levou-a até ao seu peito... espalmou-a bem de encontro à sua pele em peito nu e com a outra mão cobriu as costas dela forçando-a a ficar ali para que o calor a invadisse... não, nada lhe disse... ficou assim, olhando bem fundo dentro dela... aproximou a sua boca da boca dela, muito lentamente, e muito ao de leve pousou lá um beijo... nesse momento, sentiu nos seus lábios o sabor salgado de uma lágrima... saboreou o gosto e pousou-lhe a cabeça pendida no ombro... apertou-a contra ele e deixou-se ficar assim, juntos... um momento eterno para lembrar se tivesse sido filmado naquele momento... seria uma pose a lembrar para o resto da eternidade... sentiu a mão dela a aquecer e a sua face enrubescer num lento esgar de um sorriso... viu então o seu olhar, até ali perdido, encontrar-se em algum lugar... talvez dentro de si mesma, talvez dentro dele, talvez na fusão dos dois, não interessava, mas ele, o sorriso, ali se encontrava, um sorriso que brotava do calor dos corpos ou do bater de dois corações que se amam e tudo entendem... ele sorriu também, os corpos se moveram e se convulsionaram num espasmo de espanto e de sabor a tudo e a tanto... o doce sabor do perdão... o doce sabor da gratidão... o doce paladar do encontro, do confronto, do calor do ombro deixado de ser almofada para se tornar parte do abraço... e o riso se instalou num suave embalar dos dois ao mesmo tempo que aquela lágrima ficara lá, em lugar distante, perdida, a secar..."
517

ADORMECENDO

"... deixa enroscar-me nos teus braços... coloca tua mão na minha cabeça e enrola os teus dedos nos meus raros cabelos... baixa um pouco a tua fronte e beija a minha boca... deixa enroscar-me no teu colo... sentir a tua maciez e ver de baixo para cima o teu sorriso... ver-te junto a mim e saber-te ali comigo... de tal forma que quando olhas eu sou o teu olhar... de tal forma que quando sorris eu sou os teus lábios... de tal forma que quando me afagas eu sou a tua mão... de tal forma que quando me tocas eu sou o teu corpo... de tal forma que quando me olhas eu sou o teu olhar... deixa pousar o meu cansaço na tua serenidade e sentir a tua paz na minha guerra... baixar as armas e sentir a trégua na tenda que se ergue no deserto da batalha... humedecer as mãos na brisa da água que corre no ribeiro que nos circunda... lavar a cara na frescura do vento que nos embala... sentir que nem tudo é real mas que o sonho nos preenche... sentir que, por vezes, só o desejo chega, só o querer basta, só o pensar nos satisfaz... deixa-me ser não só a realidade mas também o que não somos... deixa-me olhar para dentro de ti e ver-me inteiro... deixa-me tocar-te com o sonho e saber-me parte dele como sei que ele é uma parte do meu eu verdadeiro..."
527

NOVAS PALAVRAS

"... quisera escrever palavras que ainda não tivessem sido ditas ou escritas porque ainda não inventadas e dedicar-tas só para ti... dizer-te palavras diferentes de todas as que já foram ditas, escritas, reditas e reescritas... poder sentir que aquelas palavras eram só para ti e que mais ninguém as houvera lido ainda nem sequer sido sonhadas porque não inventadas nem rotuladas com significados óbvios... poder sentir que o destino delas era único e que mais ninguém se pudesse apropriar delas porque seriam apenas tuas... poder sentir que nada do que pudesse até então ter sido dito havia sido repetido... seriam palavras para escrever um livro onde nele descrevesse tudo o que estivesse na minha Alma e nunca houvera dela saído para o exterior... seriam sim claro, palavras de amor... mas essas existem em todo o lado, estão espalhadas pelo espaço de todos os pontos cardeais, em todos os cantos, dirigidas em todos os sentidos, conduzindo o Amor para a sua simplicidade ainda que indolor... seriam sim claro, palavras de ternura, de carinho, de afago, de candura, de puro desejo de as sorver num só trago e mais não existissem excepto no teu coração pois para ele elas haviam sido dirigidas... queria sim escrevê-las num só fôlego, num só dizer, num só escrever, numa só direcção e saber que as havias recebido, sentido e digerido dentro do teu ser... palavras escritas para mais ninguém as ler... só tu as receberias e as sentirias porque saberias que te pertenciam... queria, pois, inventar novas palavras que exprimissem o que já sabes sem eu as escrever porque tas digo ao ouvido, porque tas entrego no corpo, porque elas se entranham em ti vindas de mim, num crescendo de Amor sem palavras ditas ou escritas de cor, apenas sentidas pelo teu existir... dessa forma, não necessito de as inventar porque elas já existem dentro de ti quando as entendes no momento em que não as pronunciando, a ti somente as entrego... fico assim sem necessidade de as escrever porque elas mais não são do que o sentir em mim a força do âmago do teu ser..."
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