Charles Bukoswki disse uma vez: "O Amor é como quando você vê a névoa de manhã, quando você acorda antes do sol nascer. É como um breve instante que depois desaparece. Apenas isso, o amor é uma névoa que queima com a primeira luz de realidade".
Achei isso genial, mas o que eu posso dizer sobre o amor?
O amor é a risada escandalosa. É a saudade do abraço caloroso ou do sexo de encaixe perfeito. Revira-se só na noite e a saudade é tudo que se tem além das cobertas. Sim, o amor poderia ser tudo isso, mas talvez estejamos falando de um modo superficial.
O amor são duas pessoas correndo na chuva por entre as ruas alagadas, e embora aqueles pares de sapatos encontrem seu destino no lixo, aquela tarde ficará guardada na memória enquanto a vida existir.
O amor é a conversa da qual você poderia ali morar, só alternando entre um abraço que você chamaria de lar. É o momento em que você toca o interfone da garota e então ela aparece na janela e seus olhos vagueiam a calçada em busca de alguém. Então seus olhos me localizam e ela sorri. E aquele sorriso, caro leitor, aquele sorriso é o amor.
Mas não acaba ai, haverá minutos entre ela sair da janela, sorridente e abrir o portão. Lances de escadas, talvez 16 degraus, e a cada passo, uma memória. A vida vai golpear a mente dela com seus traumas e bons momentos. Seus passos serão ouvidos ao longe, seu chinelo saiu. Pausa para ajeita-lo ao pé. Agora aquele grande sorriso pode ter se transformado em meio sorriso, mas se houver a vontade de ter este meio sorriso, então, isso é amor. O passado vai lançá-la à deriva enquanto caminha automaticamente até o rapaz. Mas vos digo criaturas, se houver ainda aquele meio sorriso, isso é amor.
Quando ela o envolver com os braços, naquele abraço que faz a vida valer a pena e seu cheiro invadir sua mente, e perceber aquele aroma perfumaria alguma possui, então eu direi, meus caros, que isso também é amor.
Não quer dizer que o amor seja só isso, nem dizer que somente o amor seja suficiente. Naqueles instantes em que ela descia os degraus e tudo mudaria, o amor não seria suficiente, mas se sorriu, ainda que com meio sorriso, aquilo era amor, e se tem amor, ainda que não suficiente, já era meio caminho andado.
Um sorriso para te odiar, E um olhar para abraçar. Corpos quentes Suor, Respirações ofegantes, E mãos que se apertam. Dormir, Recomeçar, Eu te amo, Gozamos. Corpos quentes. Por falta de definições melhores Nos odiamos ao extremo. Corpos Quentes Agora deixe a chuva cair lá fora. Aqui dentro molhamos tudo que podíamos. Agora deixa o vento bater na janela. Vai ser apenas a nossa respiração nesse quarto. Agora eu quero você, E você não precisa responder, Só continue sorrindo e aperte minha mão mais uma vez. A madrugada já vai passar.
De "Saideira".
188
Sobre Amor e Música
Sobre o amor e a música, entender? Você ouve a melhor melodia, voz, ritmo, aquela barulheira infernal que define sua vida. Pode ser aquela coisa melancólica da qual você coloca a cabeça na janela do carro num dia de chuva. Pode ser também alguma coisa excitante, aquelas batidas que te causem frisson. Enfim, você sem tanta informação sobre outros idiomas vai até a fonte de tradução mais próxima e descobre então que a letra daquela canção falava de qualquer outra coisa, mas não do que você estava realmente sentindo. E era algo assim que eu estava pensando naquela noite. Aumentei o som e dei mais um trago.
De "Saideira".
181
O Álbum de Fotos
Aquela cama seria vendida. E nos conhecemos no mercado; Não de fato no mercado, mas éramos conhecidos das redes sociais. E nos conhecemos no mercado. Tínhamos bebido e a “nossa história” foi mais do que breve. Perdi a aposta. Fui o primeiro a ir ao banheiro. Foram 2 semanas de sexo alcoólico. E logo na primeira noite, puxei meu álbum de fotos debaixo daquela cama. No fundo, eu queria fingir que ela se importaria, de fato eu tentei acreditar que assim faria. Porque você está me mostrando isso? Perguntou ela, e eu não lembro se fiquei sem graça, mas não, ela não era fria, só não tinha interesse. Noites depois ela me convidou para uma festa e me alertou para que eu não achasse estranho se outros chegassem nela. Eu disse que não ligava. E então senti o ar gelado quando a porta da geladeira se abriu. Estávamos naquele mesmo mercado. Escolhi minhas cervejas. Escolhi as últimas porque sempre as da primeira linha estão quentes. E o ato em si demorou alguns segundos, talvez minutos. Ela mexia no celular e eu pensava sobre minha resposta enquanto selecionava as latas. De fato eu não ligava, de fato sabia que não iria para a tal festa. Mas por algum motivo eu tentei criar algum interesse, e ela nem se importou em fingir. O álcool ainda te levará a lugares, pensei. Formamos uma boa dupla naquelas duas semanas. Mas nunca saberemos o que tínhamos em mente naquelas noites; várias rotas de fuga, fugimos enquanto podíamos. Fugimos enquanto queríamos.
De "Saideira".
223
Memórias
E irei me lembrar. Lembrarei dos seus pés se erguendo para olhar pela janela, Lembrarei do sorriso que abriu quando se desequilibrou, Mas lembrarei também de seus pés quando os nossos estavam juntos. E ainda me lembro De como foi acordar com seus olhos gigantes me olhando, Lembrarei de como eles se fechavam pequeninos quando você sorria em seguida, Mas lembrarei também que eu poderia ter morado neles. E espero me lembrar De noites aleatórias de conversas que abraçavam, Lembrar dos momentos que já não mais te ouvia, Sentia apenas seu cheiro e lia seus lábios. Espero lembrar desses pequenos detalhes, Mas lembrar também de apenas viajar em seus movimentos. Ver seu rosto corar quando eu já não pudesse mais disfarçar. Você era como uma dança, e tínhamos aquele encaixe perfeito. Do último poema escrito, Te conheci. De viver você, Este é o primeiro. O mundo pode ser um local tão cruel e há tantos caminhos, que espero poder me lembrar de você. E este que talvez nem seja um poema, Não será o ultimo, não foi o primeiro, Foi um daqueles devaneios perfeitos, Quando a ansiedade fez engasgar e o coração acelerar, Que tudo me levou a você, Outra vez. E tudo bem, Este é mais um dos inúmeros caminhos. Mas amanhã quando estivermos ainda mais distantes, Só quero poder dizer que me lembro Do último dia em que nos vimos, Ao primeiro quando nos encontramos. De nossa última dança revirando toda sua cama. Espero me lembrar.
De "Saideira"
179
Sob Os Olhares dos Deuses
Quando as torres desabam e os céus deságuam, Quando as paredes tremem e o som abafado se mistura aos trovões, É hora de dizermos aos deuses que estamos aqui e aqui ficaremos. Quando o dia amanhece e nus acordamos, Zombemos do mundo que acabou de abrir os olhos e façamos nossa festa, Nossa homenagem às expressões sérias e entristecidas pelas ruas. Levantemos nossas cabeças aos céus, E agora diga-me garota, Somos parte de algo. E se nós formos os entristecidos, Bastará você se curvar, Minha cerveja será derramada, E gota alguma será desperdiçada, Você sentirá. Nossas mãos serão instrumentos, Dentro de bocas, Envolta de pescoços, Deixaremos marcas, Unhas nas peles criarão mapas, Então prenderemos o ar e repetiremos. Libertaremos algo, Nos provaremos. Encha a sua mão de você e me sirva, Deixe me sentir teu prazer. Quando seu mantra morder meus ouvidos, Curve-se sobre mim, Que me ajoelharei sobre vossas pernas abertas. Deixemos o vinho, A cerveja e o gozo escorrerem por nossos corpos. Teremos nossa ceia, Nossa reciprocidade e nossa verdade. E quando nossas carnes estiverem expostas e as peles avermelhadas, Prenderemos a respiração por mais uma vez, Apenas para soltarmos algo na face dos deuses e vos dizer, Que ali ficaremos.
De "Saideira".
195
Gigante Eterna
Não me lembro, Outono talvez. O cheiro era bom, E como uma mariposa em queda livre, Aquela folha se desprendeu de alguma árvore, Invadiu meu quarto pela janela aberta e pousou suave em meu rosto. Não me lembro, bati a testa na mesa. A folha veio daquela grande árvore. Aquela gigante viu planos de um casal na noite anterior. Notou como se olhavam lá embaixo, Como se tocavam. E a cada risada alta, a cada olhar trocado, Uma folha despencava feliz. Não me lembro, Só vi quando a folha foi varrida em direção a rua, O rapaz a chutou, A garota a pegou, Ajeitou o cabelo e a colocou por detrás da orelha. Quando se abraçaram no muro aos risos pela ventania que os atingiu, Nem perceberam que a folha se foi, Partiu. Não me lembro, Parecia ser a mesma Folha-Mariposa. Naquela noite foi levada de volta a praça, E outro casal estava ali, Riam abaixo daquela gigante eterna, E a folha se juntou aos montes que começavam a cair da grande árvore. Se espalhavam pelo jardim.
De "Saideira".
204
Sua Face
Ela era tão linda que eu dizia ter saído de um álbum do Dylan.
De "Saideira".
210
Sobre o Amor, Criaturas
Charles Bukoswki disse uma vez: "O Amor é como quando você vê a névoa de manhã, quando você acorda antes do sol nascer. É como um breve instante que depois desaparece. Apenas isso, o amor é uma névoa que queima com a primeira luz de realidade".
Achei isso genial, mas o que eu posso dizer sobre o amor?
O amor é a risada escandalosa. É a saudade do abraço caloroso ou do sexo de encaixe perfeito. Revira-se só na noite e a saudade é tudo que se tem além das cobertas. Sim, o amor poderia ser tudo isso, mas talvez estejamos falando de um modo superficial.
O amor são duas pessoas correndo na chuva por entre as ruas alagadas, e embora aqueles pares de sapatos encontrem seu destino no lixo, aquela tarde ficará guardada na memória enquanto a vida existir.
O amor é a conversa da qual você poderia ali morar, só alternando entre um abraço que você chamaria de lar. É o momento em que você toca o interfone da garota e então ela aparece na janela e seus olhos vagueiam a calçada em busca de alguém. Então seus olhos me localizam e ela sorri. E aquele sorriso, caro leitor, aquele sorriso é o amor.
Mas não acaba ai, haverá minutos entre ela sair da janela, sorridente e abrir o portão. Lances de escadas, talvez 16 degraus, e a cada passo, uma memória. A vida vai golpear a mente dela com seus traumas e bons momentos. Seus passos serão ouvidos ao longe, seu chinelo saiu. Pausa para ajeita-lo ao pé. Agora aquele grande sorriso pode ter se transformado em meio sorriso, mas se houver a vontade de ter este meio sorriso, então, isso é amor. O passado vai lançá-la à deriva enquanto caminha automaticamente até o rapaz. Mas vos digo criaturas, se houver ainda aquele meio sorriso, isso é amor.
Quando ela o envolver com os braços, naquele abraço que faz a vida valer a pena e seu cheiro invadir sua mente, e perceber aquele aroma perfumaria alguma possui, então eu direi, meus caros, que isso também é amor.
Não quer dizer que o amor seja só isso, nem dizer que somente o amor seja suficiente. Naqueles instantes em que ela descia os degraus e tudo mudaria, o amor não seria suficiente, mas se sorriu, ainda que com meio sorriso, aquilo era amor, e se tem amor, ainda que não suficiente, já era meio caminho andado.
De "Saideira".
227
Mais Uma Dose
E por hoje eu só queria o nosso ontem, Por hoje entrelaçaríamos os dedos, Por hoje a tomaria inteira mais uma vez. E por hoje eu queria sua música, Por hoje nosso ritmo sairia pela janela, Por hoje teríamos aquela pausa quando os olhos se voltam para o teto. Agora olhe para mim. Uma só respiração. Agora cante, Me deixe ouvir sua canção. Por essa noite poderíamos, Por essa noite eu amaria, Por essa noite beberia mais uma dose de você.
Trecho de "Saideira".
218
Incendiários
Dos pés a cabeça Por entre as coxas e colchas, Faça-me apenas um favor, Teu corpo molhado no meu, Mantenha-o assim.
Fogo Ligue o som, Abra a janela. Volte. Abafe o som. Meus dedos, Tua boca. É nosso tempo.
Repita-me. Teu cheiro, Nossa respiração. Agora toque. É nosso tempo.