A tua voz me fora suficiente. Fora.
Teus olhos me eram sossego, e hoje? Agora!
E me bastaria somente Um beijo. Beijei.
E beijei, e beijei e mais uma vez.
Sonhei em te tocar o corpo ternamente - E toquei.
Terna e desrespeitosamente. Como um bicho...
Bicho ingrato, inquieto, atormentado.
Rogava por teu peito, tua vida, tua alma! Rogava...
(Se tenho) anseio a áurea, o espírito, o cósmico.
Amada, anseio inteiramente ter-te. Ter-te.
Ter-te? Hoje não me basta ter-te!
Ainda jovem ouvi de um sábio grego que,
Me tomariam a inocência,
Me privariam a liberdade,
E parte de minha consciência.
E que não falhariam em me roubar os sonhos,
A força de minhas pernas,
o compasso de meu peito...
Que amputariam meus amores,
Dos carnais - aos virtuosos.
E por fim, definhariam minha dignidade pouco a pouco,
Até que meu nome se fizesse maldito entre trigos e joios.
E eu, simplesmente segui vivendo até que me fosse completamente extirpado o medo do oculto e do incompreensível.
296
A eterna ânsia do Amor Demais
A tua voz me fora suficiente. Fora.
Teus olhos me eram sossego, e hoje? Agora!
E me bastaria somente Um beijo. Beijei.
E beijei, e beijei e mais uma vez.
Sonhei em te tocar o corpo ternamente - E toquei.
Terna e desrespeitosamente. Como um bicho...
Bicho ingrato, inquieto, atormentado.
Rogava por teu peito, tua vida, tua alma! Rogava...
(Se tenho) anseio a áurea, o espírito, o cósmico.
Amada, anseio inteiramente ter-te. Ter-te.
Ter-te? Hoje não me basta ter-te!
439
O golpe
Hoje o céu amanheceu mais turvo,
o ar está irrespirável.
Carros se engavetam no cruzamento,
mesmo as máquinas perderam a força.
Hoje não tem chorinho no mercado municipal,
os músicos estão em prantos mudos.
É primavera e não se vê sequer uma flor,
As árvores estão mortas, como as de Manchester,
os prédios, murchos, curvam-se na diagonal
como quem quisesse descansar.
No hospital, bebês nascem urrando
e os médicos agem fria e naturalmente.
Na indústria a fumaça corre para a chaminé
e se dispersa rapidamente na atmosfera
numa fuga desesperada.
Alguns sentimentos se encontram cativos
nos cofres e presídios da cidade,
outros ainda caminham livres pelas ruas
e fazem revolução.
É o golpe da mágoa, do oco, do ódio.
412
A Vela
E vela é ela
Vela sou eu.
Ela tão bela,
Tão mais que eu.
A chama delas
Em apogeu,
Derrete ela,
Derrete eu.
Num mar de cera
Resto de vela,
Unem-se alegres
Em aquarela,
O lume dela
E o fosco meu.
486
Devagarzinho à morte
Quando partires feche a porta bem devagarzinho, de modo que eu possa contemplar o derradeiro pranto no teu rosto amarguradamente meu.
Celebremos assim os quatrocentos e vinte e dois dias do arrastar de um amor sombrio, nebuloso, úmido.
Ah vida minha, deixa que eu contemple a beleza desta mágoa infinda, deste último instante de palpitação, deste corpo fugindo dos meus braços lentamente - centímetro a centímetro.
Querida, quando partires feche a porte bem devagarzinho, de modo que guardes os quatrocentos e vinte e três dias em que fomos desumanamente tristes...
Dias que chovemos hora a hora, paúra a paúra numa inquietude sólida como a morte.
Horas que passaram cálidas e sujas e murchas e pálidas... e todos os segundos que nos rasgaram impiedosamente.
Feche a porta bem devagarzinho simplesmente, para que guardemos enfim, a última intensidade, os últimos momentos em que estaremos absurdamente vivos.
362
Ouço a Marcha fúnebre da paixão
"No início, flores.
Risos, versos,
palavras eternizadas,
beijos pecaminosos - vão.
Com o tempo tudo é branco, brando, fenecido.
Restam espinhos - nada além de espinhos.
Nada além da dor de saber-se impotente
ante a ação do tempo (vilão da ânsia de quem ama)."
E quando a última poeira apaixonada esvai-se, de repente,
partem com ela a flor, o espinho e todo sentimento que reside neste mundo.
Aos amantes? Nada além de amor,
na expressão mais pura e celeste da palavra.
590
Não há poesia nos homens
Hoje quero sentir os homens,
Quero escrever a poesia dos homens.
Hoje prometo não pensar o verso,
Só quero exaltar a beleza dos homens.
Quero ver encanto em cada rosto parco que me cerca.
Quero despir a malícia dos homens,
Quero despir a mentira dos homens,
Quero, por um instante, extirpar o pudor da terra eternamente.
Hoje só quero a nudez inconsútil dos homens.
Quero sentir sentimento nos homens,
Quero enxergar poesia nos homens.
Hoje, só quero sentir que há vida nos homens.