A tua voz me fora suficiente. Fora. Teus olhos me eram sossego, e hoje? Agora! E me bastaria somente Um beijo. Beijei. E beijei, e beijei e mais uma vez. Sonhei em te tocar o corpo ternamente - E toquei. Terna e desrespeitosamente. Como um bicho... Bicho ingrato, inquieto, atormentado. Rogava por teu peito, tua vida, tua alma! Rogava... (Se tenho) anseio a áurea, o espírito, o cósmico. Amada, anseio inteiramente ter-te. Ter-te. Ter-te? Hoje não me basta ter-te!
Ainda jovem ouvi de um sábio grego que, Me tomariam a inocência, Me privariam a liberdade, E parte de minha consciência. E que não falhariam em me roubar os sonhos, A força de minhas pernas, o compasso de meu peito... Que amputariam meus amores, Dos carnais - aos virtuosos. E por fim, definhariam minha dignidade pouco a pouco, Até que meu nome se fizesse maldito entre trigos e joios. E eu, simplesmente segui vivendo até que me fosse completamente extirpado o medo do oculto e do incompreensível.
298
A eterna ânsia do Amor Demais
A tua voz me fora suficiente. Fora. Teus olhos me eram sossego, e hoje? Agora! E me bastaria somente Um beijo. Beijei. E beijei, e beijei e mais uma vez. Sonhei em te tocar o corpo ternamente - E toquei. Terna e desrespeitosamente. Como um bicho... Bicho ingrato, inquieto, atormentado. Rogava por teu peito, tua vida, tua alma! Rogava... (Se tenho) anseio a áurea, o espírito, o cósmico. Amada, anseio inteiramente ter-te. Ter-te. Ter-te? Hoje não me basta ter-te!
442
O golpe
Hoje o céu amanheceu mais turvo, o ar está irrespirável. Carros se engavetam no cruzamento, mesmo as máquinas perderam a força. Hoje não tem chorinho no mercado municipal, os músicos estão em prantos mudos. É primavera e não se vê sequer uma flor, As árvores estão mortas, como as de Manchester, os prédios, murchos, curvam-se na diagonal como quem quisesse descansar. No hospital, bebês nascem urrando e os médicos agem fria e naturalmente. Na indústria a fumaça corre para a chaminé e se dispersa rapidamente na atmosfera numa fuga desesperada. Alguns sentimentos se encontram cativos nos cofres e presídios da cidade, outros ainda caminham livres pelas ruas e fazem revolução. É o golpe da mágoa, do oco, do ódio.
413
A Vela
E vela é ela Vela sou eu. Ela tão bela, Tão mais que eu. A chama delas Em apogeu, Derrete ela, Derrete eu. Num mar de cera Resto de vela, Unem-se alegres Em aquarela, O lume dela E o fosco meu.
488
Devagarzinho à morte
Quando partires feche a porta bem devagarzinho, de modo que eu possa contemplar o derradeiro pranto no teu rosto amarguradamente meu. Celebremos assim os quatrocentos e vinte e dois dias do arrastar de um amor sombrio, nebuloso, úmido. Ah vida minha, deixa que eu contemple a beleza desta mágoa infinda, deste último instante de palpitação, deste corpo fugindo dos meus braços lentamente - centímetro a centímetro. Querida, quando partires feche a porte bem devagarzinho, de modo que guardes os quatrocentos e vinte e três dias em que fomos desumanamente tristes... Dias que chovemos hora a hora, paúra a paúra numa inquietude sólida como a morte. Horas que passaram cálidas e sujas e murchas e pálidas... e todos os segundos que nos rasgaram impiedosamente. Feche a porta bem devagarzinho simplesmente, para que guardemos enfim, a última intensidade, os últimos momentos em que estaremos absurdamente vivos.
365
Ouço a Marcha fúnebre da paixão
"No início, flores. Risos, versos, palavras eternizadas, beijos pecaminosos - vão. Com o tempo tudo é branco, brando, fenecido. Restam espinhos - nada além de espinhos. Nada além da dor de saber-se impotente ante a ação do tempo (vilão da ânsia de quem ama)."
E quando a última poeira apaixonada esvai-se, de repente, partem com ela a flor, o espinho e todo sentimento que reside neste mundo. Aos amantes? Nada além de amor, na expressão mais pura e celeste da palavra.
594
Não há poesia nos homens
Hoje quero sentir os homens, Quero escrever a poesia dos homens. Hoje prometo não pensar o verso, Só quero exaltar a beleza dos homens. Quero ver encanto em cada rosto parco que me cerca. Quero despir a malícia dos homens, Quero despir a mentira dos homens, Quero, por um instante, extirpar o pudor da terra eternamente. Hoje só quero a nudez inconsútil dos homens. Quero sentir sentimento nos homens, Quero enxergar poesia nos homens. Hoje, só quero sentir que há vida nos homens.