A tua voz me fora suficiente. Fora. Teus olhos me eram sossego, e hoje? Agora! E me bastaria somente Um beijo. Beijei. E beijei, e beijei e mais uma vez. Sonhei em te tocar o corpo ternamente - E toquei. Terna e desrespeitosamente. Como um bicho... Bicho ingrato, inquieto, atormentado. Rogava por teu peito, tua vida, tua alma! Rogava... (Se tenho) anseio a áurea, o espírito, o cósmico. Amada, anseio inteiramente ter-te. Ter-te. Ter-te? Hoje não me basta ter-te!
A tua voz me fora suficiente. Fora. Teus olhos me eram sossego, e hoje? Agora! E me bastaria somente Um beijo. Beijei. E beijei, e beijei e mais uma vez. Sonhei em te tocar o corpo ternamente - E toquei. Terna e desrespeitosamente. Como um bicho... Bicho ingrato, inquieto, atormentado. Rogava por teu peito, tua vida, tua alma! Rogava... (Se tenho) anseio a áurea, o espírito, o cósmico. Amada, anseio inteiramente ter-te. Ter-te. Ter-te? Hoje não me basta ter-te!
442
O passado vive em mim
Ouço ruídos na janela. Não, Não é o vento. É Ela. É a Vida rangendo.
Ao olhar meu rosto sulcado, Intercala a pena e o riso, ao ver o meu peito crivado, ao ver o meu ser interciso. Seu riso tem cuspe afiado, ferindo com golpe inciso, Gritando "Estas enfadado fadado a tornar-se diviso". A pena me ve atirado, e logo me faz um aviso "Precisa esquecer o passado". Agradeço o conselho conciso. Oh Vida ja estava avisado, do oblio ja sei que preciso, na noite me sinto açoitado, no dia maquio o sorriso. E a Vida responde irritada, e brada "Isto é um motim!" e chora "Estou sendo sugada" Implora "Tem pena de mim!". Diz que está ao meu lado, mas teme por um estopim, pra eu não viver de passado, e que o passado é cupim. Digo que tenho pensado, e tenho resposta enfim, Vida não vivo o passado, o passado é quem vive em mim.
468
Ouço a Marcha fúnebre da paixão
"No início, flores. Risos, versos, palavras eternizadas, beijos pecaminosos - vão. Com o tempo tudo é branco, brando, fenecido. Restam espinhos - nada além de espinhos. Nada além da dor de saber-se impotente ante a ação do tempo (vilão da ânsia de quem ama)."
E quando a última poeira apaixonada esvai-se, de repente, partem com ela a flor, o espinho e todo sentimento que reside neste mundo. Aos amantes? Nada além de amor, na expressão mais pura e celeste da palavra.
594
Enfado de vida
O dia era tão lento, o riso era tão pouco, o gim era tão sóbrio, o abraço era tão falso, o beijo era tão morto, já não havia amigos, e não havia amores. Não existia o pranto, já não ouvia o canto, e já não via cores, murchavam-se meus versos, morriam meus temores, o dia era tão lento, o tédio era latente, o mundo era tão falso, a cama era tão quente, eu era tão covarde, e o dia ia caminhando, a vida se arrastando, a vida era tão lenta, e não dizia nada, e não havia intento, meu peito fatigando, meu mundo ia morrendo, meu pulso ia rasgando, o pulso era tão lento, a vida ia murchando, os olhos se fechando, meu tédio descansava, e tudo era tão turvo, voltaram meus temores, mas era tão tardio, meus órgãos em falência, e veio o desespero, e o nada se perdeu, e parecia tudo, mas era tão tardio, e a vida enfim morreu.
491
Elegia da Ode
Não sou homem, sou um poeta. O poeta não sofre, morre. O poeta não odeia, se enoja e cospe e pisa, calado e mudo e com sorriso nobre. O poeta não ama, ele Ama. Ama tanto que fere, Ama tanto que sufoca, Ama tanto que tanto Ama, que mata e assim prefere. O poeta não é feliz, ele foge da felicidade, a felicidade o corrói, o aproxima da mediocridade. O poeta não é triste, ele invoca tristeza, sem ela poesia com beleza definitivamente não existe. Não sou homem, sou O poeta. Um poeta que ao ódio encobre com abraço falso e sorriso nobre. Um poeta que não ama. Ama E sufoca e fere e maltrata e mata e assim prefere. Que é voluvel, a uma palavra, um olhar, um espirro, um soprar, instavel jamais estavel. Poeta do desencanto. Que baba sangue e rabisca féu por vezes e mais vezes, cruel. E que ao ver a menina e seu encanto a amou tanto e tanto e tanto... Que desenha agora sua lírica de céu, e diz a sua amada palavras belas e encherga nos teus olhos aquarelas e ja não mais se deita co aquelas. E ja não dissimula, faz o que sente e age insensato, inconsequente e quando olha, olha intensamente e quando toca, toca indecente e quando beija, faz-se incandecente. E que ja não habita no sublime. Que ja não é juíz do que é certo, e que só quer decerto estar perto, e quando não está se esvazia, e sente-se isolado no deserto. E que ama seu sorriso doce e fácil, que ama seu cabelo lindo e frágil. E que ama seu jeito louco, que também ama teu seio pouco e acha graça no balé torto ama seu labio prequiçoso quase morto. Perto da menina o inquieto poeta descansa respira e faz ode e não se cansa e então se faz completo, faz-se criança. O poeta se emociona a cada instante. O poeta emocionado neste instante. Poeta, poeta...sempre inconstante. No mar de variaveis habita uma constante, Não sou homem, não sou poeta. Sou Seu. Seu sórdido, celeste e eterno amante.
467
Dom-luCasmurro
Quanta falta me faz a solidão! Sofro meus inúmeros fantasmas, que deturpam penar em meu plasma. disseminando sua infecção. Seus brados arrancam-me o sono, e as miragens sempre tão reais, corrompem meu ultimo entono, irrigando-me com fel, com bílis. A dúvida transborda-me aflição, todo colapso, taquicardia defrontam-me em desintegração. Eterna trova de perfídia, nodoa de dor e humilhação. Eco de pranto e poesia.
472
Lamento
Conto-lhes agora a mesma história que o pobre garoto contaria e adormeceu. Mas...
Ó garoto como invejo-te feliz és tu que no sono podes agora de tudo esquecer-te.
Quisera eu dormir assim, adormecido poderia encontrar essa paz que tanto busco, e por um instante, olvidar.
Ah, como queria tudo esquecer, mas a cada esforço vão, vejo seu doce semblante, tatuado na retina e no coração.
A paz me foi arrancada, ai de mim! Ela.. sempre ela, me corroendo A noite sou madeira, ela cupim Pensando bem, de que me vale o sono?
Ela voltará logo no alvorecer "Meu Deus, vós que estás no trono melhor que dormir. Deixe-me morrer!"
377
O golpe
Hoje o céu amanheceu mais turvo, o ar está irrespirável. Carros se engavetam no cruzamento, mesmo as máquinas perderam a força. Hoje não tem chorinho no mercado municipal, os músicos estão em prantos mudos. É primavera e não se vê sequer uma flor, As árvores estão mortas, como as de Manchester, os prédios, murchos, curvam-se na diagonal como quem quisesse descansar. No hospital, bebês nascem urrando e os médicos agem fria e naturalmente. Na indústria a fumaça corre para a chaminé e se dispersa rapidamente na atmosfera numa fuga desesperada. Alguns sentimentos se encontram cativos nos cofres e presídios da cidade, outros ainda caminham livres pelas ruas e fazem revolução. É o golpe da mágoa, do oco, do ódio.
413
Não há poesia nos homens
Hoje quero sentir os homens, Quero escrever a poesia dos homens. Hoje prometo não pensar o verso, Só quero exaltar a beleza dos homens. Quero ver encanto em cada rosto parco que me cerca. Quero despir a malícia dos homens, Quero despir a mentira dos homens, Quero, por um instante, extirpar o pudor da terra eternamente. Hoje só quero a nudez inconsútil dos homens. Quero sentir sentimento nos homens, Quero enxergar poesia nos homens. Hoje, só quero sentir que há vida nos homens.
346
A Vela
E vela é ela Vela sou eu. Ela tão bela, Tão mais que eu. A chama delas Em apogeu, Derrete ela, Derrete eu. Num mar de cera Resto de vela, Unem-se alegres Em aquarela, O lume dela E o fosco meu.