A tua voz me fora suficiente. Fora. Teus olhos me eram sossego, e hoje? Agora! E me bastaria somente Um beijo. Beijei. E beijei, e beijei e mais uma vez. Sonhei em te tocar o corpo ternamente - E toquei. Terna e desrespeitosamente. Como um bicho... Bicho ingrato, inquieto, atormentado. Rogava por teu peito, tua vida, tua alma! Rogava... (Se tenho) anseio a áurea, o espírito, o cósmico. Amada, anseio inteiramente ter-te. Ter-te. Ter-te? Hoje não me basta ter-te!
Quando partires feche a porta bem devagarzinho, de modo que eu possa contemplar o derradeiro pranto no teu rosto amarguradamente meu. Celebremos assim os quatrocentos e vinte e dois dias do arrastar de um amor sombrio, nebuloso, úmido. Ah vida minha, deixa que eu contemple a beleza desta mágoa infinda, deste último instante de palpitação, deste corpo fugindo dos meus braços lentamente - centímetro a centímetro. Querida, quando partires feche a porte bem devagarzinho, de modo que guardes os quatrocentos e vinte e três dias em que fomos desumanamente tristes... Dias que chovemos hora a hora, paúra a paúra numa inquietude sólida como a morte. Horas que passaram cálidas e sujas e murchas e pálidas... e todos os segundos que nos rasgaram impiedosamente. Feche a porta bem devagarzinho simplesmente, para que guardemos enfim, a última intensidade, os últimos momentos em que estaremos absurdamente vivos.
365
chama Eterna Chama (Em resposta a Manuel Bandeira)
O amor chama, e depois, Chama! Faz refletir caro Bandeira. A Chama vem, o amor chama...
Basta mirar, a artéria inflama inerte ante o encanto da roseira. O amor chama, e depois, Chama!
O peito alastra, é feito grama. Orgulho cede - e da bandeira. A chama vem, o amor chama...
E vale relva, e vale cama, é luta séria - é brincadeira. O amor chama, e depois, Chama!
E com o tempo, o amor escama, vê fenecida - tua fogueira. A Chama vem, o amor chama...
Vive saudade, peito reclama. Revém a alma ardendo inteira. O amor chama, e depois, Chama!
Se é amor, ninguém se engana Vai ser eterno - desta maneira. A Chama vem, o amor chama...
O amor chama, e depois, Chama! Faz refletir caro Bandeira. A chama vem, o amor chama!
387
A postuma do Falso Mendigo
Pobre morte minha - esquecida! Também, pudera - Que mais esperaria um velho cujo a vida caminhou despercebida? Cujas palavras eram escutadas, jamais ouvidas... Certamente não haviam de interessar-se por meu ultimo suspiro. Morri solitário, sereno, sem alarde. Sem brados, lágrimas ou orações. Parti assim, ofuscado pelo breu. Não houve túnel, não houve barco. Nem mesmo anjos. Fui falecendo economicamente... Nada de desmaios cinematográficos ou a tal da morte súbita, sabes? Fui morrendo lentamente... Silencioso no gélido sofá da sala de estar. Nem ao menos debati, ou murmurei, não resisti, nem me queixei... A tempos a vida me dizia nada! Mas ora, confesso - sonhei o pranto de meus pais, de alguns poucos amigos, da namorada...Mas nada ! Mesmo as lamentações vieram economicamente. Enfim é morte que segue... O amanhã haverá de ser agitado. Vou comparecer ao meu velório econômico, descer à minha cova econômica , e rir de suas falsidades cômicas.
434
Verão em São José dos Campos
No verão de São José dos Campos
O sol, soberano, escalda a população.
A cortina de nuvens se escancara
E as pessoas, aflitas, buscam formas de refrigeração.
Ar condicionado, ventiladores, piscinas,
Corpos desnudos, chuveiros gelados. Vão.
O sol, soberano, escalda os corpos da população.
Picolé, chocolate, chinelo, madeiras, metais,
Carros, casas, edifícios.
Corpos: vestidos, despidos, vivos, falecidos.
O sol, soberano, escalda a matéria da população.
Somente a matéria. Quanto as almas, não!
Estas seguem intactas, gélidas, esquecidas...
Pelo sol, pelas nuvens, pelos corpos, pela vida e enfim
Por tudo que aquece o rígio verão
Da cidade de São José dos Campos.
No infindável inverno das almas de São José dos Campos
O sol, impotente, observa a frieza e a zumbicidade da população.
353
Carta-confessa
Atraso de vida é o que resume! Todos estes anos que fui teu foram anos de estagnação, oh Ancora! Me afundaste na mesquinhez de tua vida repleta de desilusões e realidade. Hoje liberto de tuas garras, bebo diariamente minha dose de sonhos, convivo com doutores respeitados, me deito com donzelas fartas, freqüento palacetes acarpetados. E eu, que pensara ingenuamente... Que tu Berenice, me bastaria. Que beber de tua boca minha sede mataria que teus olhos iluminariam qualquer escuridão, e que aquele nosso quartinho dois por dois, aquele que chamávamos "nosso mundo", seria como nosso éden, paraíso na terra. Quanto atraso de vida Berenice! Meu mundo agora é como Big bang, se expandindo a cada dia... Cada dia mais moedas, orgasmos, reconhecimento, futuro... Ilusões, lembranças e saudade, quanta saudade! A verdade Berenice, é que vivo sedento por tua boca, te procuro perdido em vielas no breu, e que quando olho ao meu redor contemplando tudo aquilo sonhara; fecho os olhos regressando ao nosso mundo, e me tranco no velho quartinho dois por dois. Berenice, a verdade é que eu te amo e tudo em mim suplica para que regresses.
373
Contemplação
Eu vi a face da morte É rubra e é branca e é azul. Eu vi que a face da morte É a própria face de Exu.
Anjo - Orixá - Luminoso Despido de túnica e foice. É a face guerreira da morte Exu: Bravo, vigoroso.
Eu vi a face da morte A morte mais forte que a vida A morte mais santa que a vida A morte mais viva que a vida.
Senti a força da morte. - Um peso enorme nas costas - Um lume a cegar os meus olhos - A paz que não mora entre os homens - Um canto a zunir meus ouvidos - A morte em face do morto
Eu vi a face da morte É rubra e é branca e é azul. Eu vi que a face da morte É a própria face de Exu.
318
Medo - Reboque da vida
Ainda jovem ouvi de um sábio grego que, Me tomariam a inocência, Me privariam a liberdade, E parte de minha consciência. E que não falhariam em me roubar os sonhos, A força de minhas pernas, o compasso de meu peito... Que amputariam meus amores, Dos carnais - aos virtuosos. E por fim, definhariam minha dignidade pouco a pouco, Até que meu nome se fizesse maldito entre trigos e joios. E eu, simplesmente segui vivendo até que me fosse completamente extirpado o medo do oculto e do incompreensível.