Lucas Torres

Lucas Torres

n. 1991 BR BR

n. 1991-05-28, São José dos Campos

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A eterna ânsia do Amor Demais

A tua voz me fora suficiente. Fora.
Teus olhos me eram sossego, e hoje? Agora!
E me bastaria somente Um beijo. Beijei.
E beijei, e beijei e mais uma vez.
Sonhei em te tocar o corpo ternamente - E toquei.
Terna e desrespeitosamente. Como um bicho...
Bicho ingrato, inquieto, atormentado.
Rogava por teu peito, tua vida, tua alma! Rogava...
(Se tenho) anseio a áurea, o espírito, o cósmico.
Amada, anseio inteiramente ter-te. Ter-te.
Ter-te? Hoje não me basta ter-te!
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Poemas

17

O golpe

Hoje o céu amanheceu mais turvo,
o ar está irrespirável.
Carros se engavetam no cruzamento,
mesmo as máquinas perderam a força.
Hoje não tem chorinho no mercado municipal,
os músicos estão em prantos mudos.
É primavera e não se vê sequer uma flor,
As árvores estão mortas, como as de Manchester,
os prédios, murchos, curvam-se na diagonal
como quem quisesse descansar.
No hospital, bebês nascem urrando
e os médicos agem fria e naturalmente.
Na indústria a fumaça corre para a chaminé
e se dispersa rapidamente na atmosfera
numa fuga desesperada.
Alguns sentimentos se encontram cativos
nos cofres e presídios da cidade,
outros ainda caminham livres pelas ruas
e fazem revolução.
É o golpe da mágoa, do oco, do ódio.
412

chama Eterna Chama (Em resposta a Manuel Bandeira)

O amor chama, e depois, Chama!
Faz refletir caro Bandeira.
A Chama vem, o amor chama...

Basta mirar, a artéria inflama
inerte ante o encanto da roseira.
O amor chama, e depois, Chama!

O peito alastra, é feito grama.
Orgulho cede - e da bandeira.
A chama vem, o amor chama...

E vale relva, e vale cama,
é luta séria - é brincadeira.
O amor chama, e depois, Chama!

E com o tempo, o amor escama,
vê fenecida - tua fogueira.
A Chama vem, o amor chama...

Vive saudade, peito reclama.
Revém a alma ardendo inteira.
O amor chama, e depois, Chama!

Se é amor, ninguém se engana
Vai ser eterno - desta maneira.
A Chama vem, o amor chama...

O amor chama, e depois, Chama!
Faz refletir caro Bandeira.
A chama vem, o amor chama!
384

A postuma do Falso Mendigo

Pobre morte minha - esquecida!
Também, pudera - Que mais esperaria um velho cujo a vida caminhou despercebida?
Cujas palavras eram escutadas, jamais ouvidas...
Certamente não haviam de interessar-se por meu ultimo suspiro.
Morri solitário, sereno, sem alarde.
Sem brados, lágrimas ou orações. Parti assim, ofuscado pelo breu.
Não houve túnel, não houve barco. Nem mesmo anjos.
Fui falecendo economicamente...
Nada de desmaios cinematográficos ou a tal da morte súbita, sabes?
Fui morrendo lentamente... Silencioso no gélido sofá da sala de estar.
Nem ao menos debati, ou murmurei, não resisti, nem me queixei...
A tempos a vida me dizia nada!
Mas ora, confesso - sonhei o pranto de meus pais, de alguns poucos amigos, da namorada...Mas nada
! Mesmo as lamentações vieram economicamente.
Enfim é morte que segue...
O amanhã haverá de ser agitado.
Vou comparecer ao meu velório econômico,
descer à minha cova econômica
, e rir de suas falsidades cômicas.
431

Verão em São José dos Campos

No verão de São José dos Campos

O sol, soberano, escalda a população.

A cortina de nuvens se escancara

E as pessoas, aflitas, buscam formas de refrigeração.

Ar condicionado, ventiladores, piscinas,

Corpos desnudos, chuveiros gelados. Vão.

O sol, soberano, escalda os corpos da população.



Picolé, chocolate, chinelo, madeiras, metais,

Carros, casas, edifícios.

Corpos: vestidos, despidos, vivos, falecidos.

O sol, soberano, escalda a matéria da população.

Somente a matéria. Quanto as almas, não!

Estas seguem intactas, gélidas, esquecidas...

Pelo sol, pelas nuvens, pelos corpos, pela vida e enfim

Por tudo que aquece o rígio verão

Da cidade de São José dos Campos.



No infindável inverno das almas de São José dos Campos

O sol, impotente, observa a frieza e a zumbicidade da
população.
350

Contemplação

Eu vi a face da morte
É rubra e é branca e é azul.
Eu vi que a face da morte
É a própria face de Exu.

Anjo - Orixá - Luminoso
Despido de túnica e foice.
É a face guerreira da morte
Exu: Bravo, vigoroso.

Eu vi a face da morte
A morte mais forte que a vida
A morte mais santa que a vida
A morte mais viva que a vida.

Senti a força da morte.
- Um peso enorme nas costas
- Um lume a cegar os meus olhos
- A paz que não mora entre os homens
- Um canto a zunir meus ouvidos
- A morte em face do morto

Eu vi a face da morte
É rubra e é branca e é azul.
Eu vi que a face da morte
É a própria face de Exu.
316

Medo - Reboque da vida

Ainda jovem ouvi de um sábio grego que,
Me tomariam a inocência,
Me privariam a liberdade,
E parte de minha consciência.
E que não falhariam em me roubar os sonhos,
A força de minhas pernas,
o compasso de meu peito...
Que amputariam meus amores,
Dos carnais - aos virtuosos.
E por fim, definhariam minha dignidade pouco a pouco,
Até que meu nome se fizesse maldito entre trigos e joios.
E eu, simplesmente segui vivendo até que me fosse completamente extirpado o medo do oculto e do incompreensível.
296

Carta-confessa

Atraso de vida é o que resume!
Todos estes anos que fui teu
foram anos de estagnação, oh Ancora!
Me afundaste na mesquinhez de tua vida
repleta de desilusões e realidade.
Hoje liberto de tuas garras,
bebo diariamente minha dose de sonhos,
convivo com doutores respeitados,
me deito com donzelas fartas,
freqüento palacetes acarpetados.
E eu, que pensara ingenuamente...
Que tu Berenice, me bastaria.
Que beber de tua boca minha sede mataria
que teus olhos iluminariam qualquer escuridão,
e que aquele nosso quartinho dois por dois,
aquele que chamávamos "nosso mundo",
seria como nosso éden, paraíso na terra.
Quanto atraso de vida Berenice!
Meu mundo agora é como Big bang,
se expandindo a cada dia...
Cada dia mais moedas, orgasmos,
reconhecimento, futuro...
Ilusões, lembranças e saudade, quanta saudade!
A verdade Berenice,
é que vivo sedento por tua boca,
te procuro perdido em vielas no breu,
e que quando olho ao meu redor
contemplando tudo aquilo sonhara;
fecho os olhos regressando ao nosso mundo,
e me tranco no velho quartinho dois por dois.
Berenice, a verdade é que eu te amo
e tudo em mim suplica para que regresses.
372

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