Salivando
É bem húmido este beijo
que à porta do desejo
se farta de salivar.
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In “Mensagens, Preces & Reflexões”
A fila
A fila
A morte existe e não respeita ninguém.
Não se deixa comprar pelos altos cargos e posições sociais.
Perante a morte, temos todos a mesma importância.
Fica o viso à navegação.
Para aqueles que acham que a morte, a doença, os naufrágios e os acidentes… só acontecem aos outros, cuidem-se!
Toda a gente é visada. Toda a gente faz parte da fila de espera e, nem sempre, a morte respeita o número de ordem.
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In “Mensagens, Preces & Reflexões”
Espírito mulheril
Ora brando e relaxado
De tons marfim ou anil
Nem sempre se sente bem
Estádios de mulheril.
Quantas vezes alma e corpo
Não estão em sintonia
É a voz da consciência
Defraudando a fantasia.
O laranja fica escuro
O escuro torna-se preto
Também eu fiz estas trovas
E queria um bom soneto.
Mas o tempo cura tudo
Volta à alma o colorido
Não aquele que desejas
Mas o que te é permitido.
E corpo e alma, enfim
Voltam às cores triviais
Anil ou cor de marfim
Essas duas, pouco mais.
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In “ Do Romântico ao Brejeiro”
O amor
O amor é santo remédio
E não falha, há quem o diga;
Cura todas as maleitas
Desde a cabeça à barriga.
E da cinta para baixo
É certinha a sua cura…
Cura do mais pervertido
Até à gente mais pura.
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In “Do Romântico ao Brejeiro”
O peso da consciência…
O peso da consciência…
não se nota na balança.
Que pena!
Pesa na alma?
Às vezes, mas cada vez menos….
Trágico!
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In “Muita Poesia e Pouca Prosa”
Vou e venho...
Vou e venho…
a pensar em ti.
Tomara que a viagem
não acabe nunca.
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In “Mensagens, Preces & Reflexões”
Verdade ou ficção
Se há gente que acha que sou mesmo assim
Há outra que pensa que assim não sou;
Que sou aquela que se ficcionou
Ou, então, a que mais se aproxima de mim.
Faço das palavras meu espadachim
Digo tudo aquilo que sou e não sou
Aquela que em versos se desdobrou…
Laço-as, golpeio-as, dou-lhes fim.
Faço-vos sentir eu, amar ou odiar
Viver versos como se vossos fossem
Valorizando ou não, o meu versejar.
Rimas perfeitas que riem ou tossem
Num esforço enorme de aqui narrar
Emoções minhas, que as dores desossem!
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In “Sonetando”
MODOCROMIA Edições
Desamerdei-me
Hoje, o curtir, que era mais usado no Brasil atravessou o atlântico e instalou-se de vez neste jardim a beira-mar plantado, para ficar. Considerado muito útil, porque dispensou o verbo gozar, fruir, desfrutar... Agora curte-se tudo…as gajas/gajos, as caipiras e caipirinhas, as gordas de dar dó, as discos, os shots, as ganzas…
Surgem, então, pérolas de palavras nadas de uma ignorância em crescendo, porque o que importa é desenrascar-se, desenvencilhar-se…
Fala-se de imbigos, escupir no chão… ou escrevem-se palavras sui generis: desamerdar-se, sequesso, brilhas, nalgas…
Posto isto, eu, que às vezes me considero poeta, vou tentar desamerdar-me e fazer um poema, à minha maneira, com esta treta.
Desamerdei-me
Hoje, chavalita, sunhei cuntigo
Deichei d’ólhar pró meu imbigo
Tirei-te o azimute às nalgas
Desfiz-me das fraldas
Fixei tuas brilhas
Imaginei maravilhas
E órfão de nexo
Sonhei com sequesso.
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In “Muita Poesia e Pouca Prosa”
Outono
Outonam-se as carnes
Entre o estio dos sentidos
E o inverno do destino.
E o corpo pede Sol
Um “Sol” esperto…
A formigar desejos
A toldar a vista
A pedir investimento
A retardar o ocaso.
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In “Muita Poesia e Pouca Prosa”
Amor antigo
Um amor outonal, arrefecido
Esfomeado de emoções, famélico
Ninho de conflitos roçando o bélico
Resistindo vai, mesmo esmorecido.
E desse amor, embora combalido
Nascem momentos com um travo angélico;
Com esse querer, quiçá, psicadélico
Crê-se reconquistar o amor perdido.
Assim vão gastando sua existência
Em um desamor de amor disfarçado
Negando assumir tamanha evidência.
Resta o amor antigo, desgastado
De emoções fortes feito e paciência
Aceitando o destino, o triste fado.
Lucibei@poems
Lúcia Ribeiro
In “Sonetando” Modocromia, Edições