Madalena Palma

Madalena Palma

n. , Beja

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A lucidez da loucura

Não há saudade sem tormento

Finitude sem nostalgia

Ou amor sem sustento

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Poemas

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Da alma

Toda a poesia que escrevo

É arrancada da alma

De gume afiado abro o peito

E derramo todas as palavras

As que doem caem duras no chão

As que magoam não replicam

Há também os versos de alento

E as palavras de amor

Essas espalho-as pelo corpo

Para que a tua língua as recolha

E em ti permaneçam

Sem que eu as tenha dito

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A vulva

Percorro o teu corpo com a língua

Recolho os teus fluidos saboreando cada um

A vulva envolta em movimentos avulsos

Sorve com sofreguidão o sabor do teu sexo

É nos meus ombros que quero as tuas mãos

Quando te oferto o meu torso e toda a minha vontade de te sentir

Os cabelos são rédeas presas que regem a nossa vontade

Os mamilos, esses roço-os no cetim que húmido se forma no nosso mar de deleite.

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Acto inato

Masturbar é uma forma de arte

É conduzir ao centro do corpo

Os dedos que teimosamente escorregam

Carregam e esfregam os lábios que não falam

Aqueles que apenas emitem prazer e desejo

E que sorvem num simples gesto a energia dos corpos.

Os dedos guiados pela fome

Trepam os vales e as ondas do corpo

Caminhando extasiados e inebriados pelo odor do sexo

Empurrados por uma mão febril

Que incessante e sem dubiedade avança

Aprisionando num único gesto todo aquele mar


Nos lábios das palavras sacia todo o prazer

Deitando na língua os fluidos emanados pelo sexo

Extinguindo o fogo, a febre e o desejo

Cobrindo suavemente os lóbulos da boca

Para com a língua recolher

O desfalecimento dos espasmos que o corpo ainda liberta

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A noite

A noite adormece as palavras gritadas

À beira dos lábios ficam apenas os vocábulos mudos

Diálogos calados e taciturnos

Prolongam longos momentos emudecidos

A placidez do corpo retém ensejos

Numa tranquilidade indubitável

A tua voz entoa em tom suave

Palavras soltas que ficaram…

Com vocábulos curtos ou frases longas

Sou capaz de refazer cada diálogo

Que com as palavras dissemos

Ou com os corpos compusemos

Mas são os teus beijos…

Os teus lábios no quente da minha pele

Que me cerram os olhos

Adormecendo-me

No calor do teu regaço

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A viagem

Adormeço com os músculos tensos

Talvez rendida pelo cansaço mental

Porque o do corpo não se nota ainda.

Acordo uma hora depois

Como se tivesse dormido dois dias seguidos.

Olho o relógio e vejo-me ainda no mesmo dia,

No mesmo tempo,

Quase, no mesmo instante.

Penso: e agora?

Agora, levanta-te.

É caminhar que quero,

Seguir ao teu encontro.

Descobrir-te no meio das dunas

Numa praia ao início da noite.

Ver-te sentado a olhar o mar,

De sorriso casto nos lábios

Sentindo a minha chegada.

Vou caminhar ao teu encontro,

Sentindo o corpo cada vez mais cansado.

Os passos cada vez mais pesados

Até que de joelhos caio ao teu lado,

E num só gesto descanso a cabeça nas tuas mãos.

E ali com o som do mar

O cheiro das algas e o bater do teu coração

Embalo numa viagem.

Fecho os olhos novamente abandonando-me em ti.

Conduz-me nesta caminhada

Leva-me para onde ninguém nos saiba

E onde te possa simplesmente amar.

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Um dia

Um dia liberto o que tenho preso

Nesse momento, na noite nasce o Sol

Ou no dia se fará escuridão

Um dia pronuncio o teu nome sempre que te penso

Nesses momentos sentirás na tua pele uma marca

Ou as sentirás apenas no teu espírito

Um dia passarei com os meus dedos no teu corpo

E desfolharei cada camada de pele

Como se a tua história quisesse ler

Nesse momento recostar-me-ei

E esperarei por ti até que advenhas

Não nesta vida mas noutra

Naquela que o destino nos traçou

Porque o que nos une

Trespassa tudo o que se alcança

E vai muito além da trivialidade da vida

933

Eu

O meu sorriso vem na tua voz

Enrolado nas palavras

Remeto-me para um canto

Onde uno os joelhos aos lábios

E fechada em mim

Recupero tudo o que contigo vivi

Ecoam vocábulos

Que percorrem o interior do meu corpo

Estás-me na pele

E tal como nas searas tomas o lugar do vento

E no mar abraças as marés

Em mim congregas a alma

De um ser que se entrega inteiro

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Cansada de ser mulher

Estou cansada de ser mulher

Esgotada de ser aquela que os homens procuram

Para viver momentos de prazer

Estou cansada de ser carne e gozo

Fatigada de ser um ser vazio e sem alma

De ser fonte de desejo e de não beijar

Estou farta de mandar embora da minha vida

Quem nunca deixei verdadeiramente entrar

Estou sem sangue frio nas veias

Para implacavelmente continuar a ser mulher

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Estrela da noite

A noite de todas as noites será aquela em que te disser: Amo-te

Será o dia de todos os dias em que reunirei num abraço o amor

Será a noite em que todas as estrelas do céu nos iluminarão

E numa cortina de luz nos protegerão a imutabilidade do instante

A noite de todas as noites será aquela em que o tempo não importará

Em que o mundo parará de pulsar e no céu as nuvens não surgirão

Será o dia em que congregaremos em todos os gestos a paixão que nos apega

Na noite de todas as noites abrir-te-ei a minha alma

De peito aberto, sem pesos e assente em ti revelar-te-ei todo o meu sentimento

O amor que me enche o espírito e me rasga os lábios

E a pele que me reveste a derme que tem o teu nome tatuado em cada célula

Na noite de todas as noites abrir-te-ei as minhas asas cobrindo-te o corpo

E demonstrar-te-ei que o meu voo livre está na concha das tuas mãos.

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Laço

Não posso dizer-te que te amo

Quando já antes o disse centenas de vezes

Não pode ser amor o que sinto

Quando nunca antes o tinha sentido

Não sendo amor, que outra coisa pode ser

Quando no laço do abraço

O meu corpo é essência

E a minha alma é mais do que o meu ser

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